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19/06/2015
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19/06/2015

Democracia

Dilma pagará a conta das hostilidades chavistas contra senadores

Marcelo Rech

A presidente Dilma Rousseff pagará a conta pelas hostilidades sofridas pela missão de senadores que nesta quinta-feira, 18, tentou cumprir uma agenda com a oposição na Venezuela. Sitiados próximos ao aeroporto, os senadores tiveram de desistir da missão e retornar ao Brasil.

Receberam do regime bolivariano a bandeira que precisavam para introduzir de uma vez o assunto na agenda política nacional. A estratégia chavista pode ser classificada de estúpida a amadora, pois deu aos senadores de oposição brasileiros, um discurso que ainda não tinham, embora a antipatia recíproca sempre existira.

Foi um tiro no pé o que fizeram em Caracas. Se bem aproveitada, a oportunidade permitirá que a presidente brasileira seja constrangida em todos os sentidos e níveis. Como defender um governo intolerante, principalmente alguém que foi vítima da intolerância de uma ditadura?

Tenho sérias dúvidas sobre a capacidade e o real interesse da oposição brasileira em capitalizar em cima do fato. Nos próximos dias veremos as repercussões práticas que o gesto deseducado e típico de regimes totalitários produzirá.

Se tem um país que pode enquadrar a Venezuela é o Brasil. No entanto, o alinhamento ideológico impede que qualquer atrocidade cometida pelo governo vizinho seja objeto de uma simples condenação. Não sei se falta coragem ou se é cumplicidade mesmo.

Independentemente de quem estivesse naquele micro-ônibus, os protocolos de conduta e educação deveriam estar acima de questiúnculas ideológicas. Uma missão parlamentar seja ela de que país for, não pode ser recebida da forma como foram os senadores brasileiros.

É claro, ademais, que a sabotagem orquestrada nas ruas de Caracas para impedir que os parlamentares pudessem mover-se, contou com ricas sugestões de Brasília. E a estratégia aplicada foi trazida à Brasília pelo presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, o homem mais poderoso da Venezuela, recebido com especial atenção na residência oficial da Presidência da República após entrevistar-se com o líder-mor Lula da Silva em São Paulo e de alinhavar os detalhes da tática com o chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia.

Cabello é investigado por envolvimento com o narcotráfico e foi quem, numa canetada, cassou o mandato da então deputada Maria Corina Machado, uma das vozes de oposição na Venezuela. No entanto, encontra espaço na agenda presidencial num final de semana, algo que muitos Chefes de Estado e de Governo não conseguiram nos últimos 14 anos.

Além disso, não me recordo, nem nos piores momentos das relações entre Chávez e o meio político brasileiro, que ele ou membros de seu governo, simpatizantes e militantes, tenham sido hostilizados no Brasil. No final do ano passado o ministro chavista Elias Jaua entrou no Brasil com armas e munições, firmou um acordo secreto com o MST e não foi importunado.

Como disse no início, a presidente que já tem uma relação muito ruim com sua base e com o Parlamento em geral, pagará a conta. Os movimentos pedindo a exclusão da Venezuela do Mercosul e a suspensão dos acordos bilaterais em vigor, ganharão força. Diplomatas vinculados ao chavismo como Antônio Simões, designado para Madri, serão alvo da ira dos senadores que já humilharam Guilherme Patriota, cuja indicação para a OEA foi rejeitada.

Recursos repassados para a Venezuela via BNDES serão objeto de investigações e a dívida acumulada de mais de R$ 20 bilhões com fornecedores brasileiros, será cobrada de forma mais incisiva. Se as coisas não estavam boas para a Venezuela, ficarão bem pior depois de ontem.

Marcelo Rech é jornalista, editor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa e especializado em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Jornalismo em Áreas de Conflito e Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.

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