Opinião

Discurso do ministro Nelson Jobim sobre a Lei da N
26/08/2010
Forças Armadas
26/08/2010

Discurso do Presidente Lula da Silva sobre a Lei d

Discurso do Presidente Lula da Silva sobre a Lei da Nova Defesa

Eu penso ministro Jobim, que a história vai registrar o dia de hoje.

 

Eu confesso que parecia impossível que, em um curto espaço de tempo, a gente conseguisse fazer aprovar a mudança da lei complementar que propunha a criação de um novo Ministério da Defesa.

 

Eu imaginava que ia ter mais debate no Congresso, que ia ter mais resistência no Congresso.

 

E qual não foi a minha surpresa, possivelmente pela sua competência em lidar com os seus amigos dentro do Congresso Nacional, ou da compreensão dos três Comandantes das Forças Armadas de que era necessário fazer essa inovação para que a gente pudesse pensar no futuro, e pensar no futuro significava a gente reestruturar o nosso Ministério da Defesa.

 

Por isso eu acho que será um dia histórico porque, no Brasil, ultimamente, tem acontecido coisas que antes pareciam impossíveis.

 

O Brasil sempre foi o país do “jeitinho”; as coisas, no Brasil, quando você pensava que ia ter um grande embate, aparecia alguém e encontrava a palavra mágica, um jeito (incompreensível) não sabe brigar, ninguém briga com ninguém, “vamos fazer os nossos acordos aí”, e foi assim desde a Independência do Brasil até a conquista das eleições diretas.

 

Nós sempre encontramos um jeito de fazer as coisas da melhor forma possível.

 

Eu lembro que nós estávamos nas ruas gritando “Diretas Já!”, e já tinha gente negociando “mudança já”.

 

Quando os das “Diretas Já” acordaram, já tinha tido um acordo de “mudança já”, e todo mundo, pacificamente, mesmo eu, que na época me rebelei, aceitávamos o resultado do jeito brasileiro de fazer as coisas.

 

Eu, sinceramente, acho que nós não precisamos do jeitinho brasileiro, eu acho que foi utilizada, possivelmente, a franqueza, que até então não tinha sido utilizada entre o Ministério da Defesa e as Forças Armadas Brasileiras, ou seja, de dizer concretamente o que a gente vai pensar deste país nos próximos anos; de dizer claramente que a Amazônia não pode ser uma fonte de recursos utilizada apenas em discursos em época de campanha ou na discussão climática; que nós temos a obrigação de fazer investimentos, sobretudo com as nossas Forças Armadas, não apenas para ter conhecimento do que existe dentro de 360 milhões de hectares que compõem toda a Amazônia Legal Brasileira, mas também tomar conta daquilo que é nosso, coisa que, muitas vezes, nós não tomamos.

 

Ou, às vezes, tomar conta de um país que tem 8 mil quilômetros de costa marítima e que, muitas vezes, pensar em investir em um barco de patrulha para a Marinha era pensar em gasto e não em investimento para defender um patrimônio que a gente não sabia que tinha, mas já estava aí embaixo, há 160 milhões de anos, que  foi a descoberta do pré-sal. Então, eu penso que nós demos o passo importante para dizer ao mundo que o Brasil leva a questão da defesa com muita seriedade.

 

Eu lembro, Saito, que uma vez eu fui ver um filme – não sei se no Cindacta – em que nós tínhamos um avião que seguia um avião que tinha contrabandistas que estavam traficando drogas.

 

E me mostraram que o traficante, na hora em que via o avião da Força Aérea Brasileira, ele mostrava uma criança dentro do avião, uma mulher, e a gente ficava impossibilitado de fazer qualquer coisa.

 

E, muitas vezes, até a gente seguia, eles eram obrigados a parar, como não tinha poder de polícia, eles paravam, a gente ficava esperando a Polícia Federal aparecer; se aparecesse, prendia, se não aparecesse, era o tempo de eles fugirem outra vez.

 

Então, nós estamos mostrando que nós queremos ser um país mais sério, que nós queremos ser um país com mais autoestima, um país com mais respeito próprio e um país que tem nas suas Forças Armadas parte do garante dessa sustentabilidade e confiança que nós precisamos nas nossas relações internacionais e nas relações entre estados.

 

Ou seja, o Brasil, hoje, não é mais um país levado na brincadeira. Eu lembro quando esteve um presidente francês aqui que ironizou: “Que país é este?” e, a partir daí virou moda as pessoas tentarem ironizar o Brasil.

 

Eu penso que o Brasil mudou de patamar. Quem viaja o mundo, senhores oficiais-generais que viajam, os comandantes que viajam, os políticos que viajam, os empresários que viajam, não sei se a Anac viaja, não sei se a Infraero viaja… A verdade é: quem viaja o mundo hoje, em qualquer país que for, tem a nítida noção de que mudou o tratamento que se dá ao Brasil.

 

Nós somos uma grande nação, com grandes perspectivas, e só somos uma grande nação porque decidimos ser uma grande nação. E uma grande nação tem que ter as Forças Armadas altamente preparadas.

 

A gente não pode olhar apenas as coisas como gasto. Tudo no Brasil era gasto, era gasto, era gasto: “Você não pode gastar com saneamento”, “você não pode gastar com educação”, “você não pode gastar com as Forças Armadas”… O único investimento era pagar o FMI, quando, na verdade era o único gasto.

 

Era que nem pagar aluguel, não tinha retorno. E, agora, a gente está compreendendo que tem investimento.

 

Hoje, eu fiquei muito feliz quando vi aquelas pontes que o Dnit deu ao Exército brasileiro, porque muita gente fala: “Para que aquilo? O Exército não precisava daquilo”. Até ter uma enchente, ou até desmoronar uma ponte, e aí as pessoas perceberiam que a gente precisaria.

 

Quando a gente vê o Exército estruturado para, às vezes, até se contrapor a determinadas empresas que impõem sobrepreço em determinadas licitações, ou seja, é uma coisa que somente quem governa o Brasil sabe a gratificação que a gente tem, de saber que hoje nós estamos preparados, estruturados, para competir.

 

Não que nós queiramos transformar o nosso Batalhão de Engenharia em uma grande empresa de construção civil. Mas é verdade que eles têm que saber, e o mundo tem que saber que, se precisar, nós temos, como diria o Ratinho, “bala na agulha” para enfrentar qualquer situação.

 

Ou mesmo a nossa Aeronáutica, eu lembro que quando eu cheguei aqui, que eu pensei em comprar o primeiro avião, ô Saito, você não era comandante ainda, eu lembro do que as pessoas diziam: “Presidente, pelo amor de Deus, não tem presidente que dê certo comprando avião! Ninguém… A imprensa vai cair em cima do senhor, Presidente! O senhor não pode comprar avião, deixa aí”. Aí, eu fiz… o primeiro vôo que eu fiz, eu fiz em um avião de carreira, eu acho que foram 12 lugares na executiva, e é um inferno, porque você não tem nenhuma intimidade de discutir nenhum assunto de Estado se você está viajando com pessoas que não têm nenhuma obrigação com você.

 

Sabe, eu fiquei pensando: é melhor ter coragem de propor a compra de um avião do que ficar ouvindo pela imprensa que eu estou voando no “sucatão”. Um país do tamanho do Brasil não poderia se permitir tal ofensa.

 

Eu lembro que uma vez o Marco Maciel estava voando em um avião desses e teve um problema no motor, que caiu. Eu era obrigado a descer na Ilha do Sol com 12 mecânicos, às vezes 18 mecânicos dentro… Tinha vez que não cabia nem o Brigadeiro Joseli dentro do avião, de tanto mecânico que a gente precisava utilizar. Ora, não era possível que o Brasil continuasse assim: se apequenando, por vergonha de fazer as coisas.

 

Tomamos a decisão… Hoje, o meu arrependimento, Saito, é de não ter comprado um maior, ou talvez dois, ao invés de um. Porque hoje eu sei o quanto custa montar delegações de empresários para levar para viajar para a África, para levar para a América Central, para levar para o Caribe, para desenvolver o Brasil e a gente, muitas vezes, não tem avião.

 

Da mesma forma a Marinha. Ou seja, a Marinha brasileira, Jobim, com a descoberta do pré-sal, nós sabemos o que precisamos reestruturar a Marinha, para que ela possa tomar conta de um patrimônio que a gente ainda não tem dimensão de quanto é.

 

É incalculável, a gente não sabe se tem 8 ou 80 bilhões de barris, a gente não sabe o conjunto da obra que Deus deixou preparado, quando permitiu a divisão do continente, a separação.

 

Então, eu acho que com tudo isso que foi feito… E eu tenho que agradecer ao Congresso Nacional pela rapidez com que foi feita a mudança; às Forças Armadas, pela compreensão de que ninguém queria diminuir o papel de nenhuma das Forças, pelo contrário, o que nós queríamos era fazer uma inovação na forma de entender a questão da Defesa no Brasil. Porque a primeira tentativa de criar o Ministério da Defesa, todo mundo sabe que era um momento político de muita tensão, em que não se podia fazer isso.

 

Então, eu só posso, Jobim, no dia de hoje, te agradecer, te dar os parabéns. Ao Mangabeira, que não está aqui, mas eu sei que ele teve um trabalho importante. Ao nosso comandante Moura, Saito e o Enzo, pela compreensão do que é ajudar a fazer isso.

 

E a todos que contribuíram para que a gente pudesse estar dando um sinal. Está certo que está no final do mandato. Você poderia, junto com essa emenda complementar, ter mandado uma emendinha para mais uns anos de mandato.

 

Você não mandou, então fica… embora esteja no final de mandato eu, sinceramente, saio da Presidência mais gratificado porque a gente vai ter uma nova lógica na nossa defesa. E eu acho que nós vamos ser mais respeitados.

 

Parabéns, Jobim. E parabéns a todos que contribuíram para que nós pudéssemos estar vivendo o dia de hoje. Um grande abraço.

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