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Discurso do presidente Lula na II Cúpula América d

28 de setembro de 2009
por: InfoRel


            Caro companheiro presidente Hugo Chávez,


Excelentíssimos senhores chefes de estado e de governo da África e da América do Sul,


Quero cumprimentar o ministro do Equador, que representa Rafael Correa, que é o nosso presidente pro tempore da Unasul,


Quero cumprimentar o nosso companheiro presidente da União Africana, o presidente Kadafi,


Quero cumprimentar o Jean Ping, presidente da Comissão Permanente Africana,


Quero cumprimentar a todas as delegações da África e da América do Sul e, sobretudo, cumprimentar os representantes de organismos internacionais.


Meus amigos, minhas amigas,



Primeiro Chávez, este livro aqui é um trabalho feito pelo governo brasileiro com informações de todos os países apenas para dar uma dimensão que todos nós possamos conhecer o que somos. É um primeiro livro que deve ser distribuído, está em várias línguas, só não temos em Árabe. Mas logo nós vamos traduzir também, com uma tradução em Árabe para que todos os líbios possam ler.



            Eu vou ser muito breve Chávez, muito específico porque eu penso que nós temos que ouvir muitos companheiros convidados que vieram participar deste encontro.


Estamos reunidos para dar um passo na consolidação de uma aliança entre dois continentes determinados a moldar o seu futuro. A América do Sul e a África estão construindo uma ponte de diálogo e de colaboração. Queremos reduzir distâncias, aproximar povos e consolidar uma parceria em prol do desenvolvimento e da paz.


 


           


Foi essa visão audaz que reuniu africanos e sul-americanos pela primeira vez, em Abuja, em 2006. O mecanismo concebido pelo Presidente Obasanjo está hoje no centro de nossa agenda diplomática.


É com muito orgulho e otimismo que vejo os resultados concretos que estamos colhendo. Nos últimos seis anos, o comércio entre as duas regiões saltou de 6 para 36 milhões de dólares. Esse processo de fortalecimento de nossa soberania econômica só faz ganhar força.


Desde nossa primeira Cúpula, essas trocas já aumentaram 50%. Queremos fazer da cooperação um fator de emancipação técnica e tecnológica. Compartilhamos experiências bem-sucedidas em matéria de saúde, agricultura e energia. Acreditamos no poder de transformação de uma parceria entre regiões que vivem realidades semelhantes e enfrentam problemas comuns. O Brasil e a América do Sul apostam nos 800 milhões de africanos que querem realizar a promessa de um continente com vastas riquezas naturais e sólidas perspectivas de crescimento.


Nada disso seria possível sem os dramáticos avanços que a África tem conquistado. Graças aos esforços da União Africana e dos organismos sub-regionais, o continente caminha para a construção da paz e a consolidação da democracia.


É isto que vi, em julho último, quando fiz minha décima visita ao continente para participar da Cúpula da União Africana.  Por isso, não hesito em dizer que a Unasul tem muito que aprender com a União Africana. Assim como a África, a América do Sul atravessa um momento de transformações sem precedentes.


Também estamos determinados a enfrentar coletivamente os múltiplos desafios que devem unir, e não dividir-nos. É este o sentido da criação do Conselho Sul-Americano de Defesa. Inspiram-nos os notáveis avanços institucionais da União Africana, que demonstraram que é possível fazer da diversidade um instrumento de união e força.


É este o sentido da condenação unânime ao golpe de estado em Honduras. Lutamos muito para varrer para a lata do lixo da história as ditaduras militares de outrora. Não podemos permitir retrocessos desse tipo em nosso continente. Esta é uma lição importante para nós, sul-americanos, no limiar de um século moldado pela democracia e pelo multilateralismo.


Prezados amigos,


Desde nossa primeira Cúpula em Abuja, a economia mundial enfrentou uma das maiores crises de sua história. Incapazes de assumir seus próprios erros, alguns governantes buscam transferir o ônus da crise para os mais fracos. Responsabilizam imigrantes pelo desemprego, mas vacilam em coibir os bônus milionários pagos aos executivos que promoveram a crise. Adotam medidas protecionistas, que oneram bens e serviços exportados por países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, se mostram lenientes com os paraísos fiscais.


A comunidade internacional precisa e tem que reagir. Na reunião do G-20 em Pittsburgh, Cristina, Zuma e eu reiteramos que a prioridade não deve ser salvar bancos falidos. Precisamos oferecer respostas aos milhões que perderam empregos e tiveram esperanças frustradas.


Os sinais de recuperação econômica não nos autorizam a abandonar as medidas de estímulo ao consumo e à produção, nem de combate à pobreza e à fome. Afinal, os países mais pobres têm pressa em recuperar suas economias e as perspectivas de prosperidade para seus povos.


Não podemos ser complacentes com sinais do retorno à especulação desenfreada. A mão visível do Estado deve preencher o vácuo regulatório deixado pela mão invisível do mercado. Não há melhor resposta à crise que a integração. A aposta que fizemos no eixo Sul-Sul foi vitoriosa. Graças ao crescimento das trocas entre América do Sul e África, nossos países sofreram menos com a retração da demanda nos países ricos.


Amigos e amigas,


Multiplicam-se a olhos vistos novos desafios globais: a crise financeira, o agravamento da mudança climática e a insegurança energética e alimentar. Ao mesmo tempo, permanecem sem solução as velhas mazelas da fome, da pobreza e do armamentismo. As organizações políticas e econômicas multilaterais não podem mais prescindir do peso e da legitimidade conferida pelos países em desenvolvimento.


Precisamos reforçar nossa aliança na OMC em prol de um resultado equilibrado da Rodada de Doha. Somos unidos pela determinação de eliminar distorções, sobretudo no comércio agrícola. Somente assim os países mais pobres poderão fazer do comércio uma alavanca de desenvolvimento.


Nossos países estão comprometidos com avanços ambiciosos na Cúpula de Copenhague sobre a mudança do clima. Afinal, assim como na crise financeira, são os países em desenvolvimento as primeiras e maiores vítimas do aquecimento global. Por isso, estamos determinados a assumir nossas responsabilidades em ajudar a conciliar crescimento econômico e proteção ambiental. Mas os países industrializados não podem ignorar seus compromissos mandatórios de redução de emissões.


Neste debate sobre a nova governança global, uma coisa é certa – o Conselho de Segurança das Nações Unidas perdeu relevância. Devemos trabalhar juntos pela sua reforma, sob pena de perder a oportunidade de garantir nosso direito a uma voz nas grandes questões da agenda internacional.


Somos 65 países, com mais de 1 bilhão de habitantes que querem ser ouvidas. Nosso amadurecimento institucional no fortalecimento da paz e segurança é prova de que temos o que dizer e contribuir.


Senhoras e senhores,


O século XXI nos encontra cada vez mais unidos. Não há desafio global que não possa ser enfrentado, conjuntamente, pela África e pela América do Sul. E não há desafio global que possa ser enfrentado sem a América do Sul e sem a África. A integração regional, o multilateralismo e a cooperação Sul-Sul são nossas armas na construção de um mundo mais justo.


É esta a mensagem que nossa Cúpula lança.


Contem com o Brasil para ajudar a solidificar cada vez mais essa ponte de amizade e de cooperação que estamos construindo sobre o Atlântico.


Meus amigos e minhas amigas,


Mais um minutinho, Chávez, para não abusar do tempo.


Eu quero dizer a vocês da minha alegria de estar podendo viver este momento. Eu me lembro o quanto foi difícil fazermos a primeira reunião África-América do Sul, na Nigéria. Eu me lembro quantas pessoas não acreditavam que nós pudéssemos realizá-la. Quando a Venezuela se propôs a fazer a II Cúpula, muita gente dizia que era muito difícil trazer africanos para a América do Sul e para a Venezuela. Pois bem, a verdade é que durante séculos os países da América do Sul olhavam para a Europa e para os Estados Unidos e não viam o continente africano. Mas a verdade também é que, durante séculos, o continente africano olhava para a Europa e para os Estados Unidos e não enxergavam a América do Sul. Não faz muito tempo que nós descobrimos que estamos mais próximos, que temos mais identidade e que, portanto, temos mais similaridade para trabalharmos juntos e construir o nosso futuro.


Eu estou convencido de que a terceira cúpula será infinitamente melhor do que a primeira, será aperfeiçoada em relação à segunda e, cada vez mais, nós iremos produzir mais oportunidades e mais políticas comuns entre os países africanos e os países sul-americanos. E, certamente, logo, logo teremos outros países da América do Sul ou, melhor, da América Latina querendo participar e nós vamos achar importante que todos participem, porque não é possível que nós repitamos no Século XXI os mesmos erros que nós cometemos no Século XX. Os erros de acreditarmos que a fortuna dos nossos países, o bem-estar dos nossos povos estariam subordinados à contribuição que os países ricos dariam para nós. Isso aconteceu no continente africano e aconteceu no continente sul-americano. Levou muitas décadas, se passou até séculos para nós descobrirmos que na hora que nós nos juntarmos, nós poderemos construir muito mais oportunidades entre nós do que as oportunidades que os países ricos criaram para nós em todo Século XX.


            Eu penso que essa Cúpula, se nós, ao terminar esta Cúpula, começarmos a trabalhar com um grupo de trabalho fixo, sobre temas específicos determinados por nós, e os nossos ministros se encontrem de quando em quando, a gente poderá chegar na próxima Cúpula com resultados extraordinários, sobretudo na ação política que nós precisamos ter daqui para frente. Não é possível que a maioria dos países e a maioria com votos na ONU, a maioria com votos na OMC, a maioria com votos em todos os fóruns multilaterais, a gente não consiga estabelecer a nossa lógica nestes fóruns multilaterais, porque muitas vezes estamos subordinados a orientações políticas que não combinam com aquilo que nós (incompreensível).


Por isso, Chávez, eu estou feliz. Eu, sinceramente, quando vejo essa quantidade de representantes dos países africanos, quando eu vejo aqui todos os governantes com representantes dos governos da América do Sul, eu digo que valeu a pena acreditar, valeu a pena fazer a primeira, valeu muito mais a pena fazer a segunda e, certamente, valerá muito mais a pena a gente sair daqui com a data da terceira, porque a integração África-América do Sul não tem mais retorno. Daqui para frente será sempre mais forte, sempre mais produtiva e eu acho que nós iremos descobrir entre nós oportunidades que nós não descobrimos nas nossas relações seculares com o mundo rico.


Muito obrigado Chávez.


 



 


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