Brasília, 15 de dezembro de 2018 - 19h52

Discurso do presidente Lula na III Reunião Ministe

22 de agosto de 2007
por: InfoRel
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Eu queria cumprimentar o ministro Celso Amorim, por ter organizado esta reunião.

Normalmente, uma reunião internacional é mais fácil propor sua convocação do que convocar a reunião. E o fato de nós termos aqui representantes de 37 paà­ses, embora do Focalal participem 33, é uma demonstração de que parece que todos estamos descobrindo a necessidade de fazermos mais articulações polà­ticas.

Eu lembro como se fosse hoje quando, em janeiro de 2003, eu tinha menos de um mês como presidente do Brasil e tinha participado do Fórum Social Mundial, aqui no Brasil, e depois fui participar do Fórum Econômico, em Davos.

E, pela primeira vez, eu tive contato com muitos chefes de Estado, pessoas que eu nunca tinha imaginado que pudesse encontrar.

Na volta, eu dizia para o Celso: Celso, eu penso que é possà­vel fazermos uma certa mudança na geografia comercial do mundo. As coisas estão muito acertadas, os blocos já estão muito definidos.

E acontece que a maioria dos paà­ses que normalmente estavam fora dos blocos que determinavam a lógica comercial do mundo não conversavam com a habitualidade que nós hoje estamos conversando.

E eu dizia ao Celso que para isso era preciso que nós recuperássemos a imagem do Mercosul, para que pudéssemos propor não apenas a ampliação do Mercosul com a entrada de outros paà­ses, mas para que pudéssemos também discutir um pouco de dinamismo na polà­tica da América Latina.

Bem, o dado concreto que aconteceu nesse perà­odo todo é que nós não apenas criamos condições para fortalecer o Mercosul, como começamos a trabalhar fortemente para que outros paà­ses da América do Sul fizessem parte do Mercosul.

Estamos esperando o Senado brasileiro tomar uma decisão para a entrada da Venezuela. Do ponto de vista polà­tico nós já tomamos a decisão.

Queremos trazer outros paà­ses, como a Bolà­via, o Equador, ou seja, na verdade queremos trazer todos. Acontece que alguns já têm acordos firmados e, portanto, têm um pouco mais de dificuldade, mas achamos que também é uma questão de tempo para que as coisas se arrumem nas nossas relações internacionais.

Depois, tomamos a decisão de que era preciso, do ponto de vista do Brasil, redescobrir um pouco a àfrica, e começamos a visitar os paà­ses africanos.

Visitamos, no primeiro mandato, 17 paà­ses africanos com o objetivo de ser, no caso do Brasil, quase que uma retribuição histórica ao que os africanos representam na formação do povo brasileiro, mas também porque era preciso descobrir nichos de oportunidades, nas mais diferentes áreas, para que pudéssemos manter relações.

Eu me lembro que muita gente estranhou quando nós propusemos o encontro América do Sul e Oriente Médio.

O pessoal achava impossà­vel que esse encontro se realizasse e ele se realizou com a participação de vários dirigentes da América do Sul e dos paà­ses árabes.

Depois, nós discutimos um encontro da América do Sul com a àfrica. Encontros que não são fáceis de fazer porque não existe o hábito de se fazer porque, muitas vezes, as pessoas só vêem o nome daquele paà­s no mapa.

Mesmo assim, fizemos uma reunião importante, participaram alguns presidentes da América do Sul e participaram vários presidentes da àfrica. E agora temos um segundo encontro no Marrocos entre América do Sul e paà­ses árabes.

Eu me lembro quando, em Cancun, alguns ministros que estão aqui resolveram criar o G-20, que era uma forma de ter uma organização mà­nima para enfrentar as discussões da Rodada de Doha.

Essas coisas resultaram, primeiro, num aprendizado nosso – e aà­ eu posso falar pelo Brasil e pode ser o exemplo de vários outros paà­ses aqui presentes – de que não é importante que um paà­s fique dependendo, na sua relação comercial, polà­tica ou cultural, apenas de um paà­s ou de um bloco.

É preciso que tenhamos uma relação o mais plural possà­vel para que a gente possa ter mais mobilidade e ficar menos vulnerável a qualquer tipo de crise que possa acontecer no mundo.

O G-20 ganhou uma importância tão grande que hoje eu acho pouco provável que qualquer negociação na OMC se dê sem que as pessoas levem em conta a participação do G-20.

Eu, pessoalmente, tenho falado com quase todos os là­deres que teoricamente têm força de negociação na União Européia, na Organização Mundial do Comércio, como os Estados Unidos, e eu acho que nós estamos caminhando para chegar a um acordo.

Certamente, não será um acordo que vai contemplar algum dos nossos interesses na sua totalidade.

Mas eu sempre trabalhei com a hipótese de que a Rodada de Doha pudesse prever que, num acordo, os paà­ses mais pobres tivessem um ganho maior, outros paà­ses pudessem ganhar menos, outros paà­ses pudessem empatar, na verdade, sempre levando em conta que os paà­ses mais ricos teriam que fazer concessões para que nós pudéssemos reequilibrar um pouco a questão do comércio mundial.

Vocês, como homens importantes na polà­tica internacional, já ouviram falar muitas vezes que acabou, não vai dar mais nada, não tem mais negociação, parou, e todos os meses acontece uma coisa nova.

Nós temos que trabalhar com a adversidade. A minha reclamação junto aos paà­ses ricos, sobretudo aos da Europa e aos Estados Unidos, é que aqui, muitas vezes, nós participamos quase que diretamente das negociações. Certamente, o presidente de cada paà­s que está aqui está interessado em discutir.

Aà­, chama o ministro... Mas lá, eles criaram uma forma de organização em que os negociadores estão muito distantes das pessoas que estão diretamente no poder.

Em dezembro do ano passado, eu cheguei a ligar para vários deles e dizer que estava na hora de tirar os nossos negociadores das negociações e que os presidentes assumissem a responsabilidade de dizer se queriam ou não.

Em duas participações que tivemos no G-8, eu tentei introduzir o tema. Parece que existem dificuldades de discutir a Rodada de Doha no G-8. De qualquer forma, eu continuo com o otimismo de que nós estamos caminhando para um acordo.

É apenas uma questão de crença e quem tem muita fé sabe que isso vai acontecer.

Quando vocês conseguem reunir 33 ministros, ou melhor, 37, porque tem 3 ou 4 convidados, por que eu acho isso extremamente importante? Porque polà­tica não é só negócio.

Polà­tica é uma coisa que surte efeito na medida em que há uma afinidade, e a afinidade, muitas vezes, se dá num gesto, num discurso, num olhar.

Ela se dá em alguma coisa que vai acontecendo na relação humana, e nós vamos percebendo que estamos mais próximos do que imaginávamos que estivéssemos de outras pessoas.

Na medida em que a gente começa a se reunir, começa a descobrir, primeiro, quais as oportunidades que nós, em cada paà­s onde moramos, temos a oferecer a outros paà­ses e vice-versa. Nós ainda não nos conhecemos bem.

Nós apenas temos uma relação diplomática, ou seja, não existe uma relação mais apurada para a gente saber que tipo de parceria os nossos empresários podem fazer, que tipo de acordo os nossos governos podem fazer, que vai desde o acordo cultural ao acordo comercial, que tipo de empresas nossas podem andar e se instalar em outros paà­ses.

Tudo isso ainda é muito pequeno. Por quê? Porque todos nós estamos acostumados a uma cultura de relação subordinada a uma bipolaridade, que teve hegemonia durante mais de meio século.

E quando o mundo se abre, não há mais como os dirigentes polà­ticos ficarem presos, cuidando apenas dos seus problemas internos, porque, à s vezes, os problemas internos decorrem de coisas que acontecem fora dos nossos paà­ses.

Quando a gente começa a conversar... Eu poderia dar um exemplo aqui, que talvez valha para outros paà­ses, de uma coisa que aconteceu, de uma experiência comigo na relação Brasil-Japão. Os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em 1908.

O Japão teve uma grande participação na economia brasileira até a década de 70, e depois o Japão quase desapareceu do Brasil. Onde estava o Japão? O Japão estava preocupado com o crescimento da China, e estava fazendo os seus investimentos, quem sabe na àndia, quem sabe na China, quem sabe na Coréia, quem sabe não sei onde.

O dado concreto é que o Japão desapareceu daqui, como possivelmente outros paà­ses tenham desaparecido da relação conosco. A Inglaterra, por exemplo, foi uma parceira.

Eu não sei se na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, na Bolà­via, mas aqui, no Brasil, no final do século XIX, eletricidade e ferrovia, tudo o que tinha aqui era da Inglaterra. Depois, os ingleses desapareceram. Onde estavam os ingleses? Certamente não estavam paralisados, eles estavam procurando novos parceiros.

Então, nós ficávamos mais ou menos na espera se a pessoa viria nos visitar ou não viria nos visitar, e nós não tà­nhamos iniciativa polà­tica. O que nós fizemos de importante? Primeiro, nós descobrimos o potencial que temos entre nós, aqui na América do Sul e na América Latina.

E ainda estamos longe de cumprir a tarefa que nós poderemos cumprir. Segundo, nós não podemos permitir que só podem ter boas alianças com paà­ses do Pacà­fico quem está do lado de lá dos Andes ou quem está do outro lado do mundo.

Hoje, a comunicação é uma coisa tão fantástica que a gente pode conversar com um coreano com a mesma facilidade com que eu converso com meu vizinho, na minha sala ao lado, porque a revolução tecnológica permitiu isso.

Então, essa reunião vem permitir que a gente estabeleça uma nova lógica. Por exemplo, quando aconteceu essa crise agora, nós temos que ter claro que é uma crise imobiliária dos Estados Unidos, misturada com uma crise de um grupo de espertalhões que tentam ganhar dinheiro fácil com tà­tulos não tão seguros e, depois, todos nós ficamos preocupados se o problema vem ou não vem para cima de nós.

Eu disse ao meu ministro da Economia que era importante que nós criássemos um hábito dos ministros da Economia dos nossos paà­ses se reunirem, que os presidentes dos nossos Bancos Centrais se reunissem.

Não precisa ter uma convocação de Basiléia. Ou seja, vamos discutir em relação aos nossos interesses, vamos tentar descobrir, a partir de nós, como nos armamos para enfrentar crises que nem sempre dependem de nós.

Eu fico imaginando se a crise que aconteceu na semana passada fosse há 4 anos. O que teria acontecido no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, na Bolà­via, em tantos paà­ses aqui do nosso continente?

Hoje, graças a Deus, eles espirraram lá e nós não pegamos pneumonia. Estamos aqui, saudáveis, porque tivemos muita responsabilidade na primeira parte dos nossos mandatos.

Bem, o que eu desejo que vocês façam? Muitas vezes, as pessoas não gostam de viajar, porque muitas vezes o problema polà­tico interno é mais urgente para nós do que os problemas externos.

E eu, pelo menos como presidente do Brasil, admiti a seguinte idéia: tem tanta gente para me ajudar a cuidar dos problemas internos aqui, que eu estou ousando viajar mais.

Ou seja, eu, no próximo mês, vou para cinco paà­ses, quatro paà­ses nórdicos mais a Espanha, e em outubro vou para mais cinco paà­ses africanos. Tenho uma dà­vida imensa com os paà­ses asiáticos, porque eu quero conhecer alguns que eu ainda não conheço.

E tentar não apenas levar as coisas que nós temos na América do Sul, no Mercosul, na América Latina, no Brasil, mas também trazer de vocês as coisas que vocês têm.

Ou seja, eu estou convencido de que o que vai ajudar as nossas economias é a gente fortalecer essa possibilidade das trocas comerciais entre paà­ses que nem se conhecem, entre paà­ses que têm coisas para vender e coisas para comprar.

Quando vocês fazem uma reunião e colocam como tema da discussão “comércio e investimento”, no fundo, no fundo, de tudo o que nós fazemos como governo para o povo, do ponto de vista prático, o que resulta é se acontece comércio e investimento.

Havia um hábito cultural, eu penso que de todos nós aqui, de que empresas brasileiras, argentinas, sei lá, tinham dificuldade de investir em outros paà­ses.

Hoje, nós já estamos percebendo empresas nacionais não tendo mais medo de virar empresas multinacionais, de procurar nichos de oportunidades, fazendo parcerias com outras empresas, e isso só pode ajudar a dinamizar as nossas economias.

Nós ainda temos muito por fazer, temos um trabalho imenso pela frente. Eu, particularmente, quero dedicar esses três anos e meio de mandato que eu tenho para ver se a gente pode consolidar muito mais fortemente as relações internacionais, para ver se a gente pode fortalecer muito mais a América do Sul, a América Latina, para que a gente possa plantar alguma coisa que possa ser colhida daqui a 10, 15 ou 20 anos pelos nossos filhos.

Nós não ganhamos muito no tempo em que o Brasil estava de costas para a Argentina, para a Bolà­via, para o Uruguai, para o Paraguai, ou eles de costas para nós, cada um achando que os Estados Unidos eram apenas quem podia comprar ou quem podia vender.

Bom, de repente, surge a China e a àndia com um potencial extraordinário e nós estamos percebendo que tem mais coisas por aà­. Quem quiser saber onde tem coisa, novidades, é só visitar a Coréia para saber a pujança daquele paà­s, ainda muito pouco conhecido por nós.

Porque nós passamos metade do ano pensando em fazer acordos com os Estados Unidos, outra metade pensando em resolver os nossos problemas e, no fundo, no fundo, não utilizamos o potencial que todos nós temos de estreitar as nossas relações.

Hoje, atravessar o Pacà­fico não é difà­cil, os Andes já não são mais obstáculos, agora o Panamá vai alargar o Canal do Panamá, vai ficar muito mais fácil transitar navios com muito maior tonelagem. É um pouco isso, Celso.

Eu queria dizer para vocês que eu fico satisfeito. Tem gente que não gosta de reunião, eu adoro reunião. Eu adoro porque, à s vezes, um bom dia bem dado... eu, na minha vida polà­tica, tinha divergência com alguns companheiros do sindicato já que, por conquista nossa, a gente colocava o jornalzinho em cima do carro, dentro da linha de montagem, o carro ia passando e cada um ia pegando o seu jornalzinho.

Eu adotava a polà­tica velha, preferia ir à  porta da fábrica, falar bom dia, boa tarde, porque não tem nada que supere isso.

E, nessas relações humanas, relações polà­ticas, o contato pessoal é insubstituà­vel, não há fax, não há e-mail, não há telefone que substitua o contato direto, o conhecimento, a visita, o olhar entre as pessoas.

Eu quero terminar pedindo desculpas a vocês porque eu me atrasei quase duas horas, porque hoje era dia de uma Marcha das Mulheres Trabalhadoras Rurais e eu tive que ir lá.

Quando são duas pessoas ou 30, a gente consegue dizer até logo, acabou a reunião, mas quando são 20 mil mulheres, você não consegue dizer e tem que ficar lá.

Mas, de qualquer forma, eu quero dar os parabéns a vocês e dizer que eu acredito piamente que, quanto mais nós juntarmos gente e construirmos denominadores comuns entre nós, – aquilo que tem divergência a gente não discute, vamos procurar apenas aquilo que é convergente –, quando a gente tiver consolidando as coisas que são convergentes, aquilo que parecia muito divergente começa a diminuir e nós então daremos passos importantes.
Celso, muito obrigado e muito obrigado a vocês.

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