Brasília, 15 de dezembro de 2018 - 19h53

Discurso do presidente Lula no encerramento do Enc

14 de dezembro de 2007
por: InfoRel
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Quero dizer a todos vocês que esta é, para mim, uma reunião que coroa um desejo, eu diria, quase um sonho construà­do por dois presidentes.

Fizemos uma primeira reunião de empresários em Recife, no estado de Pernambuco – penso que em 2003 ou 2004.

E, naquele tempo, nós não conseguà­amos juntar tantos empresários assim nem no Brasil e talvez também não na Venezuela, e eu fiquei decepcionado.

Mas muitas vezes conversei com o meu amigo Chávez e dizia para ele que era necessário aproveitar este bom momento que vive a América do Sul, este bom momento que vive a Venezuela, este bom momento que vive o Brasil, que vive a Argentina, que vive o Chile, que vive o Uruguai, o Paraguai, a Bolà­via, o Equador.

Nós estamos vivendo um momento singular no nosso continente.

Eu sei que como um mandato é sempre menor do que nós gostarà­amos que fosse, e infinitamente maior do que a oposição queria que fosse, muitas vezes nós ficamos inquietos porque tomamos decisões e essas decisões não andam com a pressa que nós gostarà­amos que elas andassem.

Afinal de contas, eu prometi nunca mais criticar a burocracia do meu Paà­s, que eu acho extremamente competente. Mas o problema é que a máquina pública do Estado é infinita, é definitiva, e os governantes são muito passageiros.

Então, o tempo e a pressa polà­tica não são acompanhados pelo tempo com que a máquina administrativa pensa as coisas.
Mas o momento, que é o melhor de muitas décadas no nosso continente... eu penso que, há muito tempo, a Venezuela não vivia o momento que vive hoje, exercitando a democracia na sua plenitude, o povo pobre tendo acesso a tomar café de manhã, almoçar e jantar, o povo pobre começa a ter acesso a consumo, começa a ter acesso a crédito, e isso está acontecendo em quase todos os paà­ses, senão em todos.

É uma novidade, uma novidade extraordinária porque neste continente, durante muito tempo, a decisão era governar apenas para 30% da população e não para a totalidade da população.

Pois bem, eu acredito que se a gente analisar a relação entre Venezuela e Brasil... eu conheci Chávez em 1992, se não me falha a memória, em Cuba, no encontro do fóro de São Paulo. Ah, em Salvador? El Salvador. Depois já encontrei Chávez como presidente da República da Venezuela, sempre muito amigo.

Todas as vezes que tinha uma visita a um presidente do Brasil, ele fazia questão de nos receber, de conversar conosco. Eu ganhei a Presidência do Brasil. Antes era só Chávez; depois passou a ser Chávez e Lula; depois Chávez, Lula e Kirchner; depois Chávez, Lula, Kirchner e Nicanor Duarte; depois Tabaré; depois Gutiérrez, no Equador, que logo se afastou.

E agora somos o maior número de governantes com compromissos com o povo pobre que a América do Sul já elegeu em toda a sua história.

E o que me inquietava desde o começo? Era que Brasil e Venezuela tinham uma balança comercial da ordem de 400 ou 500 milhões de dólares no final de 2002, e hoje nós temos quase 5 bilhões de dólares de balança comercial, com um problema: o superávit brasileiro é muito grande.

E a boa polà­tica internacional não é aquela em que apenas um vende e o outro compra, é aquela em que os dois vendem e os dois compram.

E eu dizia ao presidente Chávez: eu tenho uma preocupação, como presidente do Brasil, um paà­s que é a maior economia da América do Sul, um paà­s com potencial empresarial importante, com uma boa base tecnológica, com uma boa base intelectual, ou seja, o Brasil precisaria dar a sua contribuição, com o conhecimento dos seus empresários, dos nossos empresários na agricultura, para que a Venezuela possa aproveitar este momento extraordinário.

Hoje o petróleo aumentou 4 dólares outra vez, por Deus, o Brasil é auto-suficiente em petróleo, ainda não estamos na OPEP, mas estamos próximos, quem sabe nos próximos anos.

Há tempo estávamos pensando em construir um evento como este. Na última vez que encontrei o presidente Chávez, em Manaus, eu dizia: nós precisamos melhorar a relação entre Venezuela e Brasil, as nossas reuniões não podem ser ocasionais.

É muita reunião: Unasul, Mercosul, ONU, e, de vez em quando, a gente se encontra, conversa meia hora, 15 minutos. É preciso profissionalizar a relação Venezuela-Brasil.

E tomamos a decisão de fazermos quatro reuniões por ano: duas na Venezuela e duas no Brasil. Essa é a primeira delas.

Pedi aos meus ministros que trabalhassem, que trouxessem aqui empresários brasileiros importantes, dos mais diferentes setores, para que as pessoas viessem com a idéia e o compromisso de fazerem parcerias com empresários da Venezuela, de pensarem em fazer investimentos aqui na Venezuela, descobrirem nichos de oportunidades, para que a gente possa, com esses investimentos, não só contribuir para industrializar a Venezuela, mas também para que criássemos equilà­brio na nossa relação comercial.

Porque também, do ponto de vista do Brasil – e essa é a minha concepção –, não adianta um paà­s só crescer e, em torno de si, os outros paà­ses não conseguirem crescer.

É preciso que a gente cresça junto, porque crescendo todos juntos nós iremos perceber que temos muito mais similaridades entre nós nas oportunidades do que em tempo de miséria, em tempo de asfixia econômica, como já vivemos.

Quem não lembra o que era os nossos paà­ses há 15 ou 20 anos atrás?

Pois bem, meu caro amigo e presidente Chávez, essa reunião concluiu alguns acordos importantes.

Agora também tomamos a decisão de que vamos ter um emissário do Chávez e um emissário meu, um comissário, cuidando desses acordos, para que esses acordos saiam do papel, ultrapassem os obstáculos e as barreiras colocadas à  sua frente.

Porque senão o nosso discurso de integração da América do Sul vai ficando debilitado, porque as pessoas querem saber qual é o resultado concreto que tantas reuniões produzem.

É preciso materializar isso, não apenas no fortalecimento da relação pessoal entre o Presidente da Venezuela e o Presidente do Brasil, porque a nossa amizade será eterna, mas a relação do Estado venezuelano com o Estado brasileiro é que precisa ser sólida, é que precisa criar confiança e credibilidade nas duas sociedades e aos olhos do mundo.

Por isso nós hoje referendamos, aqui, aquela decisão nossa em Isla Margarita sobre o Conselho de Energia. Há um problema energético no mundo e há um problema energético na nossa América do Sul.

Então, é preciso fazer um levantamento criterioso, sério, que permita – meu caro Ramirez e meu caro José Sérgio Gabrielli, Petrobras e PDVSA, mais os nossos ministros – quantificar o nosso potencial energético na área de petróleo, na área de gás, mas também quantificar o potencial hà­drico na construção de energia elétrica porque, com linhas de transmissão, nós poderemos transportar energia para os paà­ses que têm mais problema de energia.

Nós vivemos num mundo dividido pela Linha do Equador, e as chuvas se dão em momentos diferenciados nos nossos paà­ses e, portanto, nós poderemos, com linhas de transmissão, transferir a energia para aqueles paà­ses que estiverem mais fragilizados, e também levantar outros tipos de produção de energia: energia nuclear, energia eólica, biomassa.

Há muita coisa para que os nossos especialistas se aprofundem, estudem, e que nós tenhamos, Ramirez e presidente Chávez, uma prateleira de projetos, de alternativas porque, afinal de contas, acabamos de firmar a ata criando o Banco do Sul.

Portanto, esse banco vai ter dinheiro e eu espero que tenha o suficiente para que possamos financiar as necessidades integracionistas que tanto nós precisamos, ajudar a Bolà­via a dar um salto de qualidade.

E são exatamente... É muito difà­cil, presidente Chávez, e eu acho que estamos conseguindo agora convencer muita gente no meu Paà­s, de que o Brasil tem que pagar o preço de ser a maior economia, de ser o paà­s mais industrializado.

E pagar o preço é compreender que ele tem que estar sempre disposto a estender a mão aos paà­ses de economia mais frágil, que precisam se desenvolver.

A Venezuela tem que pagar o preço de ter esse potencial de petróleo e gás e utilizar os recursos para também ajudar esses paà­ses menores a se desenvolver; a Argentina tem que pagar o preço de ser uma economia forte e, juntos, nós ajudarmos os menores, os mais frágeis a se transformarem em paà­ses sólidos, em paà­ses com possibilidade de desenvolvimento.

Não adianta o empresariado brasileiro ficar olhando o Paraguai sem fazer nada para o Paraguai, e acusando o Paraguai.

O Brasil precisa compreender que ele tem obrigação de ajudar o Paraguai a se desenvolver, de ajudar o Uruguai a se desenvolver.

Muitas empresas nossas poderiam se instalar nesses paà­ses e ajudar, porque não adianta nada apenas uma economia crescer e as outras ficarem pobres. Vamos pegar o exemplo da União Européia.

Por que se investe tanto dinheiro na Europa Oriental, nos paà­ses recém-entrados na União Européia? É porque, se não for assim, os pobres invadirão os paà­ses ricos atrás de empregos, atrás de oportunidades.

Foi assim que foi feito com a Grécia, com a Espanha, com Portugal, e nós temos que ter a obrigação de estender a mão aos paà­ses que podem menos, e ajudá-los a crescer junto conosco neste, que eu reputo, presidente Chávez, o melhor momento da América do Sul.

Nós descobrimos uma coisa importante. Se olharmos o que acontecia nos nossos paà­ses e no nosso continente há dez ou 15 anos, nós não nos olhávamos.

A Venezuela olhava para os Estados Unidos, nem lembrava que existia o Brasil; o Brasil “mirava” os Estados Unidos e a União Européia; a Argentina “mirava” a Europa e os Estados Unidos; o Chile, os Estados Unidos, ou seja, nós éramos como se fosse um grupo de amigos nos tratando como inimigos, nos tratando até, do ponto de vista polà­tico.

Possivelmente a doutrina militar nos paà­ses era vender a idéia de que o imperialismo brasileiro poderia ocupar a América do Sul. Eu não me esqueço nunca, Chávez, de quando o Brasil tomou a decisão de construir Itaipu.

Naquela época, os militares argentinos que governavam a Argentina nos ameaçaram com a construção da bomba atômica, porque acharam que Itaipu era para inundar Buenos Aires.

Quantas mistificações e quantas coisas não foram colocadas na cabeça do nosso povo, para nos dividir, para nos colocar como adversários?

Afinal de contas, os nossos militares faziam curso não era aqui na Venezuela, e nem vocês no Brasil, ia todo mundo fazer curso me parece que ali, perto do Panamá, onde as Forças Armadas americanas davam curso.

Então, era uma doutrina permanente que na polà­tica a gente costuma dizer: dividir para reinar. Ou seja, eu crio divergência entre esses meninos da América do Sul e todo mundo fica dependendo de nós. Eu acho que nós descobrimos que nós somos muito mais do que jamais foi imaginado.

Eu lembro que quando o Brasil tomou a decisão de se voltar para a América do Sul, não pensem que no Brasil as pessoas gostaram, muita gente não gostou, muitas coisas foram escritas contra o governo. Hoje, a maior balança comercial do Brasil é com a América Latina, em apenas cinco anos.

Quando me voltei para a àfrica, aà­ era um desastre: “O que que o Brasil tem que fazer com a àfrica? Eles não têm poder de compra, eles são muito pobres. Tem que mirar a Europa”. Artigos e mais artigos, Chávez: “Tem que mirar os Estados Unidos”. Porque é aquela história das pessoas que só querem vender, quando nós precisamos fazer dessa polà­tica uma via de duas mãos.

Hoje, depois de criar o G-20, nós colocamos a América do Sul num cenário polà­tico que eu penso que em poucos momentos da nossa história nós tivemos. Não há divergência que possa criar qualquer implicação entre a visão que temos da necessidade da nossa integração.

Cometemos erros? Cometemos. Às vezes divergimos? Também divergimos. Mas nenhuma divergência que possa permitir que nós deixemos de enxergar a razão pela qual nós fomos eleitos.

E fomos eleitos porque despertamos esperança na parte mais humilde dos nossos paà­ses. E ao longo do tempo, vamos ganhando a confiança de outros segmentos da sociedade, de empresários que querem participar, que querem investir, que querem contribuir.

Eu fico imaginando, Chávez, como deve ter sido difà­cil, se dependesse apenas de alguns artigos que se lê na imprensa, no nosso continente, a convocação dos empresários para virem à  Venezuela.

Depois de tudo o que dizem de ti, o “tomador de empresas”, “el tomador de empresas”, quem é que vai para a Venezuela colocar um dinheirinho lá, para investir?

Entretanto, escute a palavra do Ministro da Indústria: é uma... talvez só tenhamos feito igual na China, ou seja, é uma das mais importantes delegações empresariais brasileiras dos últimos tempos. Numa demonstração de que as pessoas, Chávez, estão querendo discutir com maior seriedade.

As pessoas já não acreditam tanto em insinuações, as pessoas querem saber se tem projetos concretos, se tem oportunidades concretas para fazer investimento.

E eu poderia citar três ou quatro empresários brasileiros que estão aqui há muito tempo, trabalhando, produzindo, gerando empregos, gerando parcerias. E é isso que nós precisamos construir.

Domingo eu vou para a Bolà­via e vamos com o mesmo objetivo, Chávez: tentar discutir com o Evo Morales a construção de um Pólo Gás-Quà­mico na divisa Brasil-Bolà­via, a construção de uma hidrelétrica binacional no Rio Madeira, entre Brasil e Bolà­via.

A Petrobras finalmente decidiu fazer os investimentos que nunca deveria ter deixado de fazer na Bolà­via.

Eu também compreendo quando um presidente de um paà­s mais pobre faz os discursos mais eloqüentes na reunião do Mercosul, ou na Unasul. Faz um discurso eloqüente culpando os paà­ses maiores, culpando as nossas empresas.

Nós temos que entender, temos que compreender que a vida é assim: as pessoas estão procurando, na verdade, que a gente partilhe com eles alguma coisa. E é normal que o maior seja acusado de imperialista.

Nós não podemos fazer disso uma divergência polà­tica.

Quando o Evo Morales resolveu nacionalizar o gás, tentaram criar uma celeuma, os empresários brasileiros se lembram, entre eu e Evo Morales.

E eu não conseguia conceber como é que o presidente do Brasil ia divergir, sendo ele um metalúrgico, de um presidente boliviano, sendo ele o à­ndio Evo Morales.

Seria o fim do mundo a gente ter uma divergência, quando eu entendia que o gás era da Bolà­via e que ele tinha o direito de fazer aquilo.

Portanto, hoje, estamos numa relação, eu diria, muito mais apurada e queremos contribuir. Esse é o papel que está reservado ao Brasil e é um apelo que eu faço aos empresários brasileiros.

Na hora em que a gente puder contribuir e fazer alguma parceria, alguma coisa junto com os empresários desses paà­ses mais pobres, nós temos que fazer, porque somente assim o nosso continente, que é um continente que, durante séculos, foi empobrecido, pode se desenvolver com distribuição de renda e com justiça social.

Por isso, Chávez, para mim, é gratificante saber que os empresários brasileiros vieram para cá discutir, aprender sobre a Venezuela, ensinar as experiências brasileiras, aprender com as experiências de vocês, ver quais são as oportunidades de negócio que nós podemos ter aqui e o que poderemos fazer.

Para mim é gratificante saber que as pessoas estão dispostas a compreender que a integração da América do Sul não é mais discurso dos presidentes em campanhas eleitorais e que não é mais protocolo de intenções assinado pelos presidentes.

Ela começa a se tornar realidade, quando a gente vê as pessoas que contribuem com a produção de riquezas começarem a se visitar, a se conhecer.

Eu sei da tua inquietação também com a questão agrà­cola, porque a segurança alimentar é um dos pilares da soberania de um paà­s e, portanto, todo paà­s precisa ser auto-suficiente na produção de 99% das coisas que nós consumimos.

E as pessoas não podem deixar de compreender, sobretudo os meus companheiros brasileiros, que nessa área o Brasil pode contribuir de forma extraordinária.

Por isso a minha gratificação, Chávez, pela Embrapa montar um escritório aqui, montar sua oficina para passar o conhecimento – que durante 30 anos revolucionou a agricultura brasileira – para os empresários e para criar oportunidades aqui na Venezuela. De forma, meu caro amigo, que você anuncia PDVSA e Petrobras.

Não conte tudo, apenas a parte boa.

Eu penso, Chávez, que na próxima reunião em março, no Brasil, nós vamos avançar um pouco mais, na outra que fizermos aqui, talvez em agosto, devemos avançar um pouco mais.

E eu penso que nós vamos criar uma cultura de relação entre os dois povos que, quando os presidentes falharem, o próprio povo nos cobrará.

Eu quero agradecer, mais uma vez, o carinho com que você sempre nos recebe aqui. Quero agradecer aos empresários brasileiros por essa confiança de que é possà­vel construir muita coisa na nossa América do Sul.

Quero agradecer aos empresários da Venezuela, que se disponham, não se preocupem, muitas vezes, apenas com as divergências polà­ticas.

Muitas vezes as divergências polà­ticas, muitas vezes o barulho que nós fazemos, não implica nos investimentos que nós temos que fazer neste paà­s.

É preciso acreditar – Chávez e Lula, empresários brasileiros e empresários venezuelanos – que se nós não aproveitarmos este momento histórico que estamos vivendo, de plena paz, de plena democracia, de crescimento econômico, nós passaremos para a história como os fracassados que não consolidaram a integração da América do Sul.

Nós temos a chance, com os avanços tecnológicos, com a conquista e com a cabeça que nós temos hoje, de fazer aquilo que era o sonho de tantos mártires que, há mais de 200 anos, morreram sem conseguir fazer.

Eu tenho mais três anos de mandato, Chávez, você tem cinco anos. Portanto, o segundo mandato, três anos, vale mais do que os quatro do primeiro porque a gente tem mais experiência, o governo está mais preparado.

E eu quero fazer, nesses próximos três anos, tudo aquilo que não foi possà­vel fazer no primeiro mandato e um pouco mais, para que o meu sucessor tenha que trabalhar menos do que eu na polà­tica de integração.

Muito obrigado, companheiro Chávez, e muito obrigado a todos vocês.

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