Relações Exteriores

Comunicado Conjunto Brasil – Venezuela
28/03/2008
Projeto Brasil discute inovação tecnológica
28/03/2008

Discurso do presidente Lula no Fórum Empresarial B

Discurso do presidente Lula no Fórum Empresarial Brasil-México

Companheiros governadores que estão visitando o estado de Pernambuco. Eu não sabia que o Eduardo Campos tinha tanto prestígio, pois consegue fazer uma reunião com mais governadores do que eu, quando convoco os governadores.

Eu tenho sempre dois discursos, Delfim, um por escrito e um que eu quero falar de verdade, depois. Mas primeiro, eu quero dizer para vocês como é que as coisas acontecem de forma inesperada.

Um dia, o Delfim Netto me telefonou e falou: “Presidente, eu queria saber se o senhor teria disposição de receber um representante do Grupo Azteca no Brasil, porque eles estão com uma dificuldade há algum tempo”.

Na hora em que ele falou o nome Ricardo Salinas, eu imaginei que era o ex-presidente do México, e eu falei: não vou recebê-lo. Depois, o Delfim me explicou que não tinha nada a ver com o ex-presidente Salinas de Gortari.

Eu fui conversar com o Ricardo Salinas e ele me explicou sobre uma dificuldade, que há muito tempo ele tinha dado entrada no Banco Central, na perspectiva de fazer com que o Banco Azteca funcionasse no Brasil, pois ele queria contribuir para reduzir as taxas de juros aqui no Brasil, sobretudo, para o consumo mais popular, e não entendia porque estava com dificuldade.

No mesmo ato, peguei o telefone, chamei o Ministro da Economia, o Delfim estava presente, e perguntei ao Ministro se ele sabia por que um banco que queria reduzir juros estava tendo dificuldade para se instalar no Brasil.

O Guido também não sabia. O que aconteceu de fato? O pedido feito pelo Ricardo Salinas deve ter entrado na esteira, na escada rolante da burocracia, parou na mão de alguém e ficou lá parado três anos, sem que ninguém desse uma resposta.

Eu disse para o Salinas: nós vamos fazer o seu banco funcionar aqui no Brasil, até porque se você conseguir reduzir o spread para o povo mais pobre, eu penso que vai ser uma lição.

Eu estou desafiando os bancos brasileiros, sobretudo os públicos, a perceberem o que vai acontecer com a entrada do Banco Azteca no Brasil.

Estou otimista, eu sei que uma grande caminhada começa com apenas um passo. Aqui tem vários governadores de estados muito pobres, que terão interesses de poder… o Requião está aqui para se associar ao Banco Azteca, pela riqueza do Paraná.

O dado concreto é que hoje estamos aqui para inaugurar a primeira sede do Banco Azteca. Como diz o Salinas – eu já passei na frente (do prédio) agora – é um prédio simples, mas eu penso que é uma outra inovação, porque aqui no Brasil os prédios de bancos são muito poderosos, ostentam muito quando, na verdade, a única coisa que deveria ser bem segura no banco é o cofre.

A parede poderia ser mais simples, os vidros poderiam ser mais simples, ficaria tudo mais barato, e aí se cobraria menos tarifa e poderia se reduzir os juros. Vamos ver se você vai começar uma nova etapa.

Eu quero agradecer ao Delfim, que possibilitou esse contato, e quero agradecer ao Ricardo Salinas a confiança de ter vindo fazer uma experiência. É importante dizer para os governadores do Nordeste, porque tem gente que pensa que fui eu que o indiquei para vir para Pernambuco.

Eu quero aproveitar a presença dele aqui para dizer. A primeira conversa que eu tive com ele foi a seguinte: eu queria ter um exemplo na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Para mim, foi uma surpresa o Eduardo Campos ir… deve ter ido ao México já umas 30 vezes…

Primeiro, quero dizer da satisfação… Antes de dizer da satisfação, quero pedir desculpas. Eu sei que não é normal um presidente pedir desculpas, porque a liturgia não permite, o presidente pode tudo. Mas eu tenho que pedir desculpas porque estava marcado para eu vir aqui às 9 horas da manhã para fazer a abertura.

Como a reunião com a Venezuela terminou muito tarde e não foi possível fazermos a entrevista coletiva sobre os acordos Brasil-Venezuela, eu achei prudente que fizéssemos hoje pela manhã.

O político latino-americano, seja mexicano, venezuelano ou brasileiro, quando um jornalista faz uma pergunta, em vez de a gente responder, a gente conta uma história. Então, demorou muito e eu quero pedir desculpas a vocês.

Quero agradecer a presença dos empresários mexicanos e dos empresários brasileiros, e dizer para vocês que é uma alegria e uma coisa simbólica para mim estar participando deste evento.

Já visitei o México cinco vezes, desde que fui eleito presidente da República. Já me reuni com o presidente Calderón, no México, já me reuni com ele em vários outros fóruns, e estou aguardando, ansiosamente, uma visita de Estado do presidente Calderón ao Brasil, porque acho que o México tem dívida com o Brasil e o Brasil tem dívida com o México.

Nós precisamos nos colocar de acordo, para que a gente possa fazer acontecer as coisas que precisam acontecer entre Brasil e México. São as duas maiores economias do continente latino-americano, são as duas maiores populações, e é inexplicável que durante um tempo…

Certamente o Brasil era mais fechado do que o México, então parecia que o Brasil tinha medo do México, e não tinha medo dos Estados Unidos. Agora, parece que o México tem medo do Brasil e não tem medo dos Estados Unidos.

Em se tratando de comércio, o mundo está a exigir, sobretudo com os sinais da crise imobiliária americana, que nenhum país se dê ao luxo de ficar dependente de um ou de dois países na sua relação comercial.

É extremamente importante que haja uma diversificação na nossa relação comercial. Por isso é que nós, do Mercosul, queremos que o México entre de braços abertos no Mercosul. Por isso é que nós, no Brasil, queremos aprimorar a nossa relação comercial e ampliar os acordos que temos com o México.

Não é possível que dois países, do tamanho do México e do Brasil, tenham a sua balança comercial basicamente em função de automóveis e de autopeças. Precisamos alargar o número e a quantidade de produtos que nós trocamos, eu acho que isso seria bom para o Brasil e para o México.

Nós sabemos que o México tem um déficit comercial na relação com o Brasil. No ano passado já diminuiu 1 bilhão de dólares nesse déficit comercial, que era alto.

E como nós dizemos sempre que comércio internacional é uma via de duas mãos, na qual a gente tem que comprar e tem que vender, o desequilíbrio não pode ser muito forte para um lado ou para o outro, precisa ser mais ou menos equânime para que seja justo e para que todos possam sobreviver, a não ser na importação de petróleo, que está sempre desigual para os países importadores.

A segunda coisa que eu queria dizer para vocês é que o Brasil, não é exagero dizer… Depois vocês vão ouvir ainda a ministra Dilma Rousseff. Depois o Delfim Netto vai fazer uma palestra aqui, e espero que você fale bem do governo, Delfim. Se deixar o Requião falar, ele vai falar mal.

O Brasil vive uma coisa que eu chamo de um certo momento mágico no País. Há um conjunto de coisas que estão caminhando na mesma direção, de forma tão sólida e tão harmônica que eu acho que o Brasil vai, neste começo do século XXI, ter a chance… muitas chances que ele teve no século XX se perderam, ora por culpa nossa, ora por culpa dos outros, mas se perderam.

Agora eu estou viajando muito pelo Brasil para dar ordens de serviço ou para visitar obras do PAC, o nosso Programa de Aceleração do Crescimento, que a ministra Dilma vai falar com vocês.

E estou percebendo o crescimento de uma coisa chamada auto-estima. A esperança voltou a acender na consciência das pessoas, e elas começam a se sentir atendidas pelo papel que o Estado tem que exercer para garantir a sua cidadania.

O que nós estamos fazendo com o PAC, não no caso de ferrovias, de portos, de aeroportos, de energia, mas em urbanização de favelas e saneamento básico, é um projeto de uma magnitude que nunca foi feito na história deste País.

Nós estamos percebendo – e os governadores certamente já perceberam isso – que estamos desfazendo o empobrecimento que durante tantas décadas foi promovido neste País.

Imaginem se o prefeito de uma cidade ou o governador de um estado percebesse que, em uma determinada área tem uma pequena ocupação de pessoas pobres, e fizesse uma intervenção imediata e tirasse 10, 15 pessoas, ficaria muito mais fácil resolver o problema do que deixar juntar 50, 30, 40 mil pessoas.

Quando se juntam 10 pessoas é um problema social, quando se juntam 50 mil, vira um problema político, e é muito mais complicado.

Então, o PAC está dando às pessoas o horizonte de que elas vão voltar a conquistar a cidadania que foram perdendo ao longo dos últimos 30, 40, 50 ou 60 anos. Esta é uma grande novidade que estamos vivendo no Brasil. Ontem eu recebi a informação de uma pesquisa feita por um instituto francês, me parece, publicada no UOL e também em outros blogs, que em 2007 a classe “C” passou a significar 46% da população brasileira.

Mais 20 milhões de pobres deixaram as classes “E” e “D” e ascenderam um pouco. Começaram a virar o que nós chamamos de classe média baixa.

Eu penso que por tudo que está acontecendo no Brasil, os números de 2008 que serão apresentados em 2009 irão mostrar um pouco mais da ascensão dos pobres deste País, e o de 2010 vão apresentar, ainda mais, uma melhoria em 2009.

E por que esse milagre está acontecendo? Primeiro, não existe milagre. Eu perdi muitos amigos entre 2003, 2004 e 2005, porque tem um tipo de pessoa que acha que é possível você governar uma cidade, um estado ou um país com a dinâmica estabelecida no Brasil, porque o Brasil é um País presidencialista com uma Constituição parlamentarista, em que governadores, prefeitos e presidentes, hoje, têm muito menos poder de decisão do que tinham há 20, 40 anos.

Hoje, nós criamos mecanismos que agem muito mais, às vezes, até para dificultar as ações do Executivo, e nós achamos que isso é bom porque faz parte da democracia e nós vamos aprendendo a fazer as coisas cada vez mais corretas.

Eu perdi muitos amigos porque eu fui obrigado a trocar o capital político que eu tinha em 2003. Todo recém-eleito tem um forte capital político – o grau de expectativa da sociedade é muito forte – tem uns que perdem logo e não recuperam nunca mais, tem outros que recuperam.

E nós trocamos grande parte do capital político que nós tínhamos por fazer um ajuste fiscal, que, eu digo, Delfim, eu duvido que um economista tradicional ou qualquer outro governo tivesse a coragem de fazer.

Eu fico pensando que, talvez pelo fato do Palocci não ter sido um economista da Fundação Getúlio Vargas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro ou da Unicamp e não tivesse todas as nuances clássicas da economia, e por eu não ser um intelectual, um leitor de dezenas de livros sobre economia, talvez por isso nós tenhamos feito o que tínhamos que fazer.

Senão, o debate acadêmico tomaria conta das discussões políticas e as coisas deixariam de acontecer como aconteceram.

Eu digo sempre que eu trato a economia como eu tratei a minha vida o tempo inteiro, não tem diferença. Obviamente que os nomes são diferentes, os paradigmas são diferentes.

Mas eu, aos 62 anos de idade e desde muito cedo com uma responsabilidade, antes de casar, de cuidar de mãe e de irmãs em uma crise de desemprego profunda em 1965, aprendi que o salário da gente precisa ser controlado a ferro e fogo, porque se você gastar mais do que ganha ou se você se endividar mais do que a possibilidade que você tem de pagar, mais dia, menos dia, você tem que começar a vender a casa para pagar dívida, vender a televisão, vender a geladeira, vender o carro.

E quando tem uma crise dessas, profunda, a família se desestrutura, há separações, há brigas familiares. Então, eu sempre fui muito cuidadoso, nunca comprei nada à prestação na minha vida. Não tinha o Banco Azteca no Brasil.

Eu sempre tive medo de contrair uma dívida, depois ficar desempregado e não poder pagar. É assim que eu vejo o País. Eu tenho dito, nesse momento, ao ministro da Economia e ao Banco Central, que não é hora de otimismo.

Nós estamos começando um processo. As coisas estão dando certo, mas precisamos ter toda a cautela do mundo para não achar que já podemos gastar o que não temos.

É preciso ser comedido até que a gente, definitivamente, transforme o Brasil numa grande economia, num grande país industrialmente desenvolvido, num grande país exportador de conhecimento, de inteligência, de valor agregado. E eu penso que nós estamos seguindo.

Por que é que nós conseguimos fazer isso? É verdade que eu tenho sorte, muita sorte, e é verdade que Deus é brasileiro. Essas duas verdades são inexoráveis. Eu sou um homem de muita sorte. Eu tive sorte quando perdi três eleições e tive sorte quando ganhei duas. Tive muita sorte.

Agora, vejam o que aconteceu no Brasil. Durante décadas havia uma discussão acadêmica, no Brasil, de que o Brasil não podia crescer combinando controle de inflação com crescimento econômico. Eram debates e mais debates.

Isso está se apagando. Depois, tinha uma outra máxima que dizia: “o Brasil, se for aumentar as exportações, tem que diminuir o mercado interno”. Está acontecendo exatamente a combinação perfeita entre o crescimento das exportações e o crescimento do mercado interno.

Tudo isso em função de ter aparecido no cenário brasileiro um agrupamento de milhões de pessoas, que sempre foram marginalizadas, que estão virando pequenos consumidores.

As pessoas estão comendo carne, estão tomando leite, estão comprando sapatos, estão comprando uma televisão… Tudo isso porque nós resolvemos ser um país capitalista moderno. Não há possibilidade de ter um país capitalista em que você não tenha crédito.

O dinheiro tem que circular na mão das pessoas para justificar esse regime capitalista.

Nós saímos, em cinco anos, de 300 bilhões de reais de crédito para 1 trilhão de reais de crédito, ou seja, mais de 3 vezes.

Nós saímos de um pouco mais de 2 bilhões de reais para ajudar o pequeno agricultor, para mais de 10 bilhões de reais. Uma vez eu tive uma reunião com o sistema financeiro brasileiro quando era candidato, e um banqueiro me fez uma pergunta.

Eu falei: mas por que você não responde? Você, que é banqueiro, e que sabe? A pergunta era sobre por que o povo não tinha crédito e não ia muito a banco. E ele me disse: “Nós não emprestamos dinheiro ao povo porque não temos a certeza de receber, não temos garantias. Quando nós financiamos um carro, temos a garantia de que vamos tomar o carro. Mas, se eu emprestar dinheiro para fazer uma casa, eu não posso tomar a casa, se eu emprestar dinheiro para qualquer coisa, eu não posso tomar. O trabalhador pode não pagar, pode ser mandado embora”.

O que nós fizemos? Criamos o crédito consignado. O que nós demos? A folha de pagamento como garantia. Em acordos feitos entre sindicatos, empresários e bancos, os trabalhadores e as empresas escolhiam o banco e faziam o crédito consignado.

Em pouco mais de quatro anos nós tivemos, praticamente, 50 bilhões de reais circulando neste País.
E assim foi se fortalecendo a inclusão bancária, a possibilidade de as pessoas terem acesso ao microcrédito e a ajuda do governo na compra de produtos agrícolas nos estados mais pobres da Federação.

Os governadores do Nordeste sabem: compra de leite, de feijão, de milho, de vários produtos que os agricultores plantavam e, na hora da colheita, não tinham preço. Então, o Estado entrava para assegurar que esse pequeno produtor continuasse produzindo no campo.

Além disso, nós tivemos reuniões com empresários – eu acho que nunca houve na história do Brasil a quantidade de empresários como a que nós temos reunidos – para incentivá-los, para fazê-los acreditar no Brasil, para fazê-los acreditar que o momento é este, o momento não é amanhã ou depois de amanhã, o momento é agora.

Começamos a ter uma política prioritária para regiões mais pobres do Brasil. O Nordeste, este lugar que nós estamos aqui – os empresários mexicanos podem ter certeza – nunca recebeu a quantidade de recursos, em parceria com eles, como a que estará recebendo nesses próximos anos.

Eu também cunhei um aprendizado há muito tempo: dinheiro, mesmo que pouco, na mão de muitos é distribuição de renda. Agora, muito dinheiro na mão de poucos é concentração de renda. Então, era preciso fazer esse dinheiro fluir, circular.

Eu me lembro que quando nós criamos o Bolsa Família, os adversários mais ideológicos diziam: “Isso é assistencialismo, isso é esmola”. Por quê? Porque um cidadão que pode sentar em um balcão de um restaurante chique e, ao terminar de tomar o seu uísque, pode dar 50 reais de gorjeta para o garçom, ele não tem dimensão do que uma mãe de família pobre faz com 50 reais.

A multiplicação dos pães de que Cristo falava era exatamente essa: deu dinheiro nas mãos das pessoas necessitadas…. E nós, além de dar aos pobres, estamos dando para as mulheres, porque o homem ainda pode parar em um bar e tomar um aperitivo com o dinheiro do Bolsa Família.

Pode, se ele tiver vontade ele pode, se o Corinthians perdeu, se a Seleção perdeu. Mas uma mulher, certamente, ela vai ao armazém comprar o que dar de comida para os filhos.

Além disso, eu penso que nós recuperamos a credibilidade que o Brasil estava perdendo no mundo. Isso necessitou de muitas viagens. Eu até comprei um avião, em que colocaram o apelido de Aerolula.

Eu tomei a decisão de que era preciso viajar porque era possível mudar a geografia comercial do mundo. Nós não podíamos ser um mundo estático, em que dois grandes blocos determinavam as regras do jogo no comércio para o mundo inteiro, e outros países enormes como México, Brasil, Argentina, Índia, China, África do Sul e Indonésia não tivessem nenhuma participação nisso, não pudessem mudar a regra do jogo.

Eu me lembro quando em Cancún foi constituído o G-20, pelo menos aqui no Brasil a imprensa vendeu com um fracasso. O que aconteceu?

Em pouco tempo, dificilmente acontecerá qualquer negociação comercial entre blocos sem o G-20 ser ouvido. Nós estamos cada vez mais convencidos de que a geração de países que na década de 90 estava quebrada, devendo ao Fundo e devendo a todos, hoje é a geração dos países que se transformaram nos BRICS e agora são os donos dos fundos soberanos mais importantes. O Estado passou a ter mais dinheiro do que ele devia.

No caso do Brasil, o dia em que eu soube da notícia, Delfim, eu falei: eu não morro mais de infarto. Eu passei 30 anos da minha vida xingando o Delfim e falando mal do FMI.

Ao Delfim eu já pedi desculpas, num ato público do PT, na minha campanha. O homem precisa ter compreensão de que uma pessoa com quem teve divergência na década passada, pode ser o seu melhor amigo na década seguinte. É por isso que Deus nos fez inteligentes, é por isso que nós somos racionais e não irracionais.

E o FMI – eu tenho um problema de bursite, é de carregar faixa contra o FMI; não tem um lugar deste Brasil que eu não andei com faixa pendurada – hoje o FMI não tem nenhum significado. Nós devíamos 16 bilhões para eles, que eles tinham depositado porque a gente não tinha reservas. A gente tinha 30 bilhões, dos quais 16 eram do FMI.

Eu devolvi os 16 bilhões para o FMI. Eu poderia ter feito um programa, em cadeia, como o Juscelino fez quando brigou com o FMI. Eu pensei: eu poderia fazer, mas eu acho que não, vamos devagar, porque amanhã eu posso precisar deles, então vou com cuidado.

Como eu vi minha mãe, muitas vezes, bater palma na casa da vizinha para pegar uma xícara de sal, para pegar uma xícara de açúcar, para pegar uma xícara de óleo emprestado, e eu dizia: mãe vamos manter uma boa amizade com essa vizinha aí, porque a gente pode precisar outra vez, e vamos pagar com açúcar da mesma qualidade, não vamos pagar com açúcar de pior qualidade.

Daí eu falei: vamos sair quietos, o que importa é sair. Fazer carnaval não faz bem o meu estilo.

Hoje, o FMI foi embora, nós não precisamos do FMI para nada, temos uma sólida reserva que já está em quase 195 bilhões de dólares, e temos uma única preocupação hoje na economia.

Primeiro, é a de manter os empresários brasileiros com auto-estima muito forte, de manter a sociedade acreditando que o Brasil precisa apenas de uma oportunidade para não parar mais de crescer.

E, segundo, de olho nessa crise americana, porque essa crise americana pode não ser tão grande como a gente imagina, mas pode ser maior do que a gente imagina.

Então, vamos ficar de olho, para que a gente olhe com lupa todo santo dia. Graças a Deus, o sistema financeiro não está envolvido no subprime.

Lá eles falam subprime, se fosse aqui no Brasil era caloteiro, aqui no Brasil nós avacalhamos tudo logo. Então, nós estamos de olho para que o Brasil e os países que estão crescendo na América Latina não sejam vítimas da crise americana.

Eu, pessoalmente, liguei duas vezes para o presidente Bush. Eu soube que ele ficou meio chateado porque eu tinha falado com o Gordon Brown, tinha dado uma declaração na imprensa brasileira sendo duro com os Estados Unidos.

Ele falou com o Gordon Brown, meio chateado, e eu liguei para ele para falar: Bush, o problema é o seguinte, meu filho: nós ficamos 26 anos sem crescer, agora que a gente está crescendo você vem atrapalhar? Resolve a sua crise. E depois, o Brasil tem know-how para salvar banco, é só criar um Proer.

Se ele quiser, pode vir ao Brasil e tem gente que pode ensinar, eu não vou ensinar, mas tem gente que pode ensinar como é que se salva um banco.

O Brasil tem know-how e acho que se eles precisarem nós poderemos mandar essa tecnologia para eles. E o pior é isso, é que nós bancamos ajuda aos bancos, fechamos alguns e eles agora estão na Justiça, para ganhar de volta. É uma coisa… O Brasil pode ajudar.

Então, nós estamos de olho, muito de olho e vamos continuar diversificando o nosso comércio. Este ano eu vou ao Vietnã, vou à Indonésia e vou a outros países porque eu acho que nós temos que assumir compromissos maiores.

Aqui vai a minha fala, diretamente para os companheiros mexicanos. Do que nós temos medo na nossa relação? O que o Brasil pode oferecer de perigo para o México?

O que o México pode oferecer de perigo para o Brasil? Vamos meditar. Qual é a lógica de o México não ter medo dos Estados Unidos e ter medo do Brasil? Do ponto de vista sociológico, econômico, qual é a lógica? Nenhuma.

Por isso é que eu quero a presença do presidente Calderón aqui, para ver se a gente aperfeiçoa esse acordo. Nós não podemos ficar importando autopeças e carros, e exportando autopeças e carros. É como se fosse uma troca. Nós precisamos vender e comprar produtos. Eu me lembro que disse uma vez ao presidente Calderón…

A Pemex, no México, é como se fosse uma deusa intocável. E eu disse ao presidente Calderón: Presidente, é público e notório que a produção da Pemex está decaindo, e como o Estado utiliza muito os recursos da Pemex, deixou-se de investir muito em inovação tecnológica.

Por que a gente não cria – sem permitir que ninguém fale que estamos privatizando a Pemex – uma terceira empresa, entre Petrobras e Pemex, para fazer exploração de petróleo em campos novos? Propus ao presidente Calderón: por que a gente não faz um grande investimento na questão do biodiesel, no México?

Não para plantar biodiesel de milho – esse nós vamos dar para as galinhas –, mas para modernizar a produção de cana, para levar a tecnologia que o Brasil tem – um acúmulo de mais de 35 anos – e fazer com que o México, que tem livre comércio com os Estados Unidos, comece a introduzir o álcool nos Estados Unidos, até que eles fiquem dependentes e precisem também do álcool brasileiro.

Nós entramos na rabeira do México, ou já mandamos diretamente para o México, e entra para os Estados Unidos. Fazemos um gasoduto no muro e passamos com o etanol. De vez em quando, alguém vai entrar no alcoolduto e vai sair lá nos Estados Unidos.

Então, eu penso que os empresários mexicanos e os empresários brasileiros precisam fazer um desafio, um desafio à nossa inteligência, às nossas necessidades econômicas, um desafio às necessidades de crescimento do México e do Brasil, um crescimento do ponto de vista de pagarmos a dívida social que nós temos no Brasil e no México, e fazer com que o povo pobre tenha um pouco de ascensão e vire consumidor para comprar os produtos que vocês produzem.

Então, vocês têm que enfrentar esse desafio e contribuir para que a gente possa, nessa renovação de acordo, alargar a quantidade de produtos trocados entre Brasil e México.

Certamente, o México tem coisas para vender para o Brasil e, certamente, o Brasil tem coisas para vender para o México. Nós não podemos, neste mundo globalizado, permitir que haja quase que a estatização da relação comercial por determinados grupos privados. Basta que um grupo não tenha interesse em abrir, e não abre.

Nós estamos sendo desafiados a utilizar a nossa inteligência nesses oito primeiros anos do século XXI, para não permitir que daqui a cinco ou seis anos, numa crise mais profunda do mundo, estejamos todos como sempre estivemos, dependendo de uma única economia, de um único país.

E aí, crescemos quando o país cresce, e afundamos… Qual é o problema? Quando eles crescem, a gente cresce um pouquinho, quando eles caem um pouquinho, nós caímos um montão. É o inverso: o crescimento é pouquinho e a queda é grande.

Então, eu queria, como presidente deste País, provocar os empresários brasileiros e provocar os empresários mexicanos. Não é justo, não é economicamente correto, não é socialmente justo que as duas maiores economias deste continente, que as duas maiores populações deste continente tenham uma balança comercial de apenas 5 bilhões de dólares, não é justo.

Eu penso que nós, governantes, certamente cometemos defeitos, porque a cabeça do governante decide politicamente: “se eu abrir tal setor, a imprensa vai me criticar, o Congresso vai fazer um discurso, então, eu não vou abrir”. Aqui no Brasil, nós aprendemos a pensar diferente.

Não há crítica que me faça voltar atrás de uma medida que eu sei que vai beneficiar este País. Se tem uma coisa que eu aprendi na minha vida é não tomar decisões para agradar pessoas.

Eu quero tomar decisões para que o resultado dessas decisões seja melhorar a vida do País, a performance do País.

E se vocês acreditarem nisso, vocês têm um papel extremamente importante: contribuir, empresários brasileiros e mexicanos, para que a gente não seja apenas os maiores da América Latina, os maiores em população, mas também os maiores em gente incluída.

Nós estamos encontrando uma fórmula, o México tem muitas experiências bem-sucedidas. É juntar tudo isso, abrir a cabeça dos governantes, minha e de Calderón, abrir a cabeça dos empresários e aproveitar este momento extraordinário que a história nos oferece.

Se não fizermos isso, daqui a 10 anos estaremos lamentando o fracasso de negociadores que nós temos.

Muito obrigado.

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