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Discurso do presidente Lula por ocasião da visita

Discurso do presidente Lula por ocasião da visita do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, ao Brasil

Com enorme satisfação recebo o companheiro e amigo Daniel Ortega, presidente da Nicarágua.

 

Esta visita ao Brasil, a primeira em seu atual mandato, reforça o compromisso de nossos países na construção de um futuro comum baseado no progresso, no crescimento econômico e na justiça social.

 

Em 2007, fui o primeiro chefe de Estado brasileiro, em mais de cem anos de relações, a visitar a Nicarágua. Nossa relação é parte integrante de um eixo latino-americano e caribenho, em franca expansão, que busca modelos de desenvolvimento progressistas, consistentes e sustentáveis. Queremos criar, em paz, oportunidades para todos, e não só para alguns.

 

A incorporação do povo ao processo econômico, com educação, emprego e atendimento às necessidades humanas fundamentais, constitui o caminho para o crescimento e a prosperidade.

 

A cooperação e a diplomacia devem prevalecer como base para as relações entre os Estados. Queremos o respeito aos processos democráticos na região, e sem retrocessos. Favorecemos a resolução regional e pacífica de nossos desafios e de eventuais conflitos.

 

Nas Nações Unidas, na OEA, na Cepal e em outros foros multilaterais, somos aliados. Convergimos, em particular, no nosso apoio determinado a uma agenda socioeconômica mais importante, sensível às realidades e interesses dos países em desenvolvimento.

 

Defendemos uma cooperação Sul-Sul de cunho solidário e inovador. Nela buscamos alternativa às relações de dependência estabelecidas por países doadores tradicionais.

 

Aceitamos o desafio da mudança do clima e do desenvolvimento sustentável. Conclamamos os países mais avançados a darem o exemplo e a assumirem responsabilidades proporcionais aos seus recursos, tecnologia e nível de contribuição histórica para o problema.

A ONU deve interessar-se mais pelas transformações em curso em nossa região, onde florescem projetos democráticos para a incorporação de maiorias historicamente excluídas.

 

Ela própria deve reformar-se com vistas a superar flagrante desequilíbrio na representação entre Estados em seu Conselho, responsável pela paz e segurança coletiva.

 

Nesse sentido, foi grande a contribuição dada pela Nicarágua ao fortalecimento do multilateralismo de cunho democrático, social e humanitário, representado na forte liderança exercida pelo Padre Miguel d´Escoto durante sua presidência na Assembléia-Geral da ONU, a 63ª conferência.

 

No Brasil, passamos a enfrentar, com políticas públicas, as grandes questões sociais que impediam o desenvolvimento equilibrado do país. Queremos partilhar com a Nicarágua essas experiências.

 

No setor agrícola, desejamos apoiar a produção de alimentos na Nicarágua, não só para o combate à fome, mas também para o aumento da capacidade exportadora do país. A instalação da Embrapa no Panamá constituirá importante ferramenta para a consecução desse objetivo.

 

Sem descuidar da segurança alimentar, queremos oferecer à Nicarágua a experiência brasileira em produção de biocombustíveis. Sei do empenho da Nicarágua em combater a pobreza, a fome e a marginalidade. Por isso felicitamos o país pela implementação do “Hambre Cero”, programa irmão do nosso Fome Zero.

 

No âmbito da missão da OEA, militares brasileiros cumpriram importante função no trabalho de desminagem do território fronteiriço nicaraguense, só apenas recentemente concluído. Aquela área está hoje habilitada para a agricultura e outras atividades civis.

 

No plano comercial, necessitamos aumentar o fluxo de exportações nicaraguenses destinadas ao Brasil, com o propósito de equilibrar as trocas. Um acordo abrangente entre o Mercosul e o Sica seria fundamental nesse sentido. Pretendemos impulsionar essa negociação durante a Presidência brasileira do Mercosul, que assumiremos nos próximos dias.

 

Novas iniciativas de investimentos brasileiros já começam a ganhar corpo no país, como a instalação da fábrica de calçados no Parque Industrial de Saratoga, que poderá gerar aproximadamente 2 mil empregos.

 

Empresas brasileiras estão engajadas na construção da hidrelétrica de Tumarín, que receberá financiamento do BNDES de mais de US$ 300 milhões. Essa obra responderá pelo fornecimento de quase 30% da energia elétrica da Nicarágua, substituindo combustíveis fósseis importados.

 

O Brasil dispõe-se a apoiar investimentos similares, como o da hidrelétrica de Brito, e deseja conhecer melhor o projeto de corredor interoceânico que inclui o porto de Monkey Point.

Nosso entusiasmo pela integração é comum. Inauguramos processo pioneiro de aproximação entre a América Latina e o Caribe, lançado na Bahia, em 2008. Em fevereiro passado, decidimos criar a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos.

 

O Brasil solicitou adesão, como observador, ao Sistema de Integração Centro-Americano (Sica), bem como ao Banco Centro-Americano de Integração Econômica. Saudamos a decisão da Nicarágua de aderir à Aladi, processo que, esperamos, se conclua com celeridade.

 

Nossos países lograram construir relação ampla e diversificada, inserida no marco da integração regional latino-americana e caribenha. A solidez desse objetivo exige defesa firme da democracia na região.

 

Não podemos admitir que o golpe de 28 de junho de 2009, em Honduras, se torne incentivo a novas aventuras antidemocráticas no nosso continente. A posição dos demais países centro-americanos sobre o assunto é de vital importância.

 

Nos anos 80, foram muitos os brasileiros, sobretudo entre os jovens, que festejaram a vitória da Revolução Sandinista, que pôs fim à sangrenta ditadura que infelicitava a Nicarágua havia décadas. Passados 30 anos, vejo com alegria que seu país, como outros da América Central, trilham hoje o caminho da democracia política e social.

 

Evocando aqueles momentos, e na esperança de um futuro de paz, progresso e democracia, convido todos a erguerem um brinde em homenagem a Vossa Excelência, com votos de felicidade e prosperidade a todo o povo nicaraguense.

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