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Divagações coevas

Divagações coevas

14 de maio de 2020 - 16:59:55
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Maynard Marques de Santa Rosa

John Lewis Gaddis, em As Grandes Estratégias, obra elaborada à luz da História, alertou que “o bom-senso é como o oxigênio: quanto mais alto se sobe, mais escasso se torna”.

A crise de poder que perturba o governo decorre de falta de conhecimento e de discernimento. A ignorância torna a administração errática; e a ausência de discernimento leva o governante a dispersar as energias anímicas em vão.

A ordem vigente no país ensejou uma situação inusitada entre os Poderes da República, fruto das idiossincrasias brasileiras. O Legislativo age como uma hidra de 33 cabeças e cérebro babélico, que arrasta a própria inércia e uma carga fisiológica atávica, perdendo espaço crescente para o ativismo judiciário. O STF, devidamente aparelhado pelos governos anteriores, tornou-se caixa de ressonância dos partidos de oposição. E o Executivo, timoneiro que é do destino coletivo, virou refém dos outros dois.

A dialética das pressões mergulhou a governança em um ambiente infernal, onde a falta de bússola e a ausência de luz podem levar o penitente ao reino de Hades.

Estudando múltiplas personalidades à luz da História, Maquiavel filtrou a espécie em três tipos de homens: “o que discerne por si próprio, o que discerne com o auxílio dos outros e o que não se enquadra em nenhum dos dois casos. Este último não serve para ser príncipe”.

O problema se agrava quando a qualidade da assessoria depende de nepotismo ou amizade, tornando-se inepta e inócua ou quase inútil. Preocupou-se o mestre florentino em prevenir o poder dos bastidores, ao recomendar que deve o príncipe ouvir o assessor quando lhe convém, e não quando convém ao assessor. Contudo, a necessidade sugere, também, atentar para a sabedoria popular: “Quem não ouve conselho, raramente acerta”.    

A resiliência das instituições exige uma mudança de feição. A dialética agressiva merece dar lugar a uma atitude mais ponderada. O discurso tem de ser dirigido ao conjunto, e não a uma só das partes. Todos devem obedecer ao princípio de separação de interesses: não confundir o que é público com o particular ou privado. A cúpula tem de integrar-se em equipe. E a estrutura precisa ser mais equânime, sem a existência de ministérios hegemônicos, para que a Casa Civil consiga coordenar e integrar as atividades estratégicas.

Concluindo estas divagações, vale relembrar a citação de um sociólogo europeu de notória sabedoria: “A saúde de uma sociedade democrática pode ser medida pela qualidade de funções desempenhadas por seus cidadãos” (Alexis de Tocquéville).

Maynard Marques de Santa Rosa é general reformado do Exército, formado pela Academia Militar das Agulhas Negras. Foi Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e serviu em 24 unidades militares durante 49 anos. Possui mestrado pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Rio de Janeiro e doutorado em ciências militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. No exterior, graduou-se em Política e Estratégia, em pós-doutorado no U.S. Army War College.