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10/03/2006
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10/03/2006

Política

Do escárnio à impunidade completa

Marcelo Rech

Ainda nas férias, li nos jornais que o Congresso havia ‘avançado’ na recuperação de sua imagem, pondo fim ao pagamento extra dos salários nas convocações extraordinárias e reduzindo o recesso parlamentar de 95 para 55 dias. Pensei: pode ser que as coisas realmente mudem. O ano mal havia começado.

Aos poucos fui observando que na verdade, nada, absolutamente nada, havia mudado. Promoveram uma maquiagem para ludibriar a opinião pública. No Brasil, vai preso um pai de família que rouba para dar de comer aos filhos. Ricos não são ladrões. No máximo, cleptomaníacos. Pobre não. Pobre é ladrão mesmo!

Deputados e senadores continuam gozando privilégios inaceitáveis, como o direito a aposentadorias altíssimas mesmo quando renunciam para não serem cassados ou quando perdem os mandatos apanhados em ilícitos imorais. Recebem o prêmio que sai dos cofres públicos. Aos aposentados e pensionistas, esmolas e filas humilhantes.

Em mais um capítulo do escárnio promovido pelos políticos de todas as cores, a Câmara, vergonhosamente, patrocinou um acordo entre PFL e PT e salvou o mandato e os privilégios de dois mensaleiros, deputados que receberam recursos do esquema Marcos Valério/DelúbioSoares.

O país inteiro viu, na TV e nos jornais, as gargalhadas de quem acredita estar acima do bem e do mal, semi-deuses a quem tudo é permitido, embora sejam eles os responsáveis pelas leis.

A Câmara não fez nada além de legitimar a corrupção, tal qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia feito ao ‘perdoar’ os petistas que “erraram como todos erram”.

Daqui por diante, será uma imensa incoerência cassar o mandato de quaisquer outros deputados ou senadores que receberam recursos de caixa 2. Não se pode dispensar tratamento diferente para os mesmos crimes. Além disso, José Dirceu e Roberto Jefferson têm o direito de reaverem seus mandatos.

Como se tudo isso não bastasse, os partidos, sem exceção, brigam para derrubar a verticalização, um entrave para a prática da perversão na política. O que governistas e oposicionistas querem é o direito de perpetrarem o vale-tudo na política. E ainda tem gente que acredita em Reforma Política.

Mais triste que isso, é ver a esquerda contestadora e indignada, surfando nas benesses do poder. Entidades sindicais se calam de forma sinistra. Até mesmo a politizada União Nacional dos Estudantes nada faz. O que explica esse silêncio que sequer constrange?

O certo é que a classe política brasileira, arbitrária e corporativa, age desta forma por acreditar na ignorância da população. Como não existem reações, eles vão furando filas, dando carteiraços, enriquecendo com o dinheiro público, comendo e bebendo do melhor. Enquanto isso, milhares de pobres são usados como massa de manobra.

Diante de um quadro como este, é difícil acreditar em mudanças. Até mesmo o Judiciário, que deveria zelar pelo respeito às leis, peleia para manter privilégios imorais como o nepotismo que engorda o orçamento familiar.

No meu entendimento, as penas deveriam ser mais duras de acordo com o cargo ocupado pelo criminoso. No entanto, o Judiciário com a anuência do Executivo e do Legislativo, trabalha para tornar mais brandas as penas para os crimes hediondos.

Claro, o estuprador de uma menina de quatro meses de idade, não pode apodrecer na prisão. É injusto que um seqüestrador que violenta a mãe diante do marido e dos filhos, pague em regime fechado pelo crime.

Algo está muito, mas muito errado mesmo. No momento em que o país busca sua inserção mundial, abrindo novos mercados e estimulando as exportações como nunca, somos obrigados a cenas patéticas onde padres e pastores comem criancinhas e são protegidos sob o manto sagrado de suas igrejas.

Mas, sempre resta uma mínima esperança, principalmente quando o ano é eleitoral. Se as corporações ignoram os delitos que atentam contra qualquer sociedade minimamente racional, [provavelmente em troca de favores nada morais], cabe à população reverter a situação.

No dia 3 de outubro, mais de 120 milhões de brasileiros vão às urnas com uma única certeza: é tudo farinha do mesmo saco!

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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