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Grécia – França

Duplo alívio

Marcos Magalhães

Os mercados reagiram aliviados aos resultados das eleições realizadas na Grécia em 17 de junho.

A apertada vitória do partido de direita Nova Democracia – 29,5% dos votos contra 27,1% para o partido de esquerda Syriza – foi interpretada como um passo importante para a manutenção do país na zona do euro.

Mas as urnas da Grécia e da França, onde se realizaram eleições legislativas no mesmo dia, trazem outro motivo para alívio: os dois países conseguiram neutralizar, pelo menos por enquanto, o avanço dos extremos no campo político.

Até recentemente, os observadores internacionais costumavam acompanhar as eleições na Europa com atenção aos movimentos pendulares da esquerda e da direita. Nas décadas que se seguiram ao fim da II Guerra Mundial, alternaram-se vitórias importantes tanto para a esquerda como para a direita.

No primeiro caso, uma das mais importantes foi a de François Mitterand nas eleições presidenciais francesas em 1981. No segundo, a mais recente guinada à direita do Reino Unido, com a vitória de David Cameron em 2010, depois de 13 anos de governos trabalhistas.

A crise econômica internacional acrescentou um novo ingrediente às disputas políticas nacionais. Como mostrou repetidamente a imprensa mundial nos últimos meses, a crise derrubou governos em série do Velho Continente, ora trazendo de volta os conservadores – como na Espanha e em Portugal – ora privilegiando a esquerda moderada, como nas recentes eleições francesas, que levaram o Partido Socialista de volta ao poder, com François Hollande.

O momento, porém, é o de ajustar o foco político. Existe hoje na Europa algo mais do que a velha alternância no poder entre os partidos considerados de centro-direita e centro-esquerda.

A crise econômica, o aumento do desemprego, a falta de perspectiva para os jovens e os cortes nos programas sociais que tiveram importante papel na estabilidade política do continente nas últimas décadas têm motivado um ressurgimento da extrema esquerda e da extrema direita.

Marine Le Pen, representante da Frente Nacional, de extrema direita, obteve 17,9% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais da França, em abril. Ela conquistou 6,4 milhões de votos, quase um milhão a mais do que seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2002.

A mensagem de Marine, contra o euro e a favor do protecionismo, conquistou a simpatia de muitos franceses desencantados com os rumos do país. Em 17 de junho, ela perdeu por pouco uma vaga na Assembleia Nacional, no segundo turno das eleições legislativas.

A luta contra o euro também foi o carro chefe da campanha da esquerda radical na Grécia. Com um discurso de resistência às medidas de austeridade impostas pela União Europeia, a esquerda radical Syriza obteve 27,1% dos votos – apenas 2,4 pontos percentuais abaixo da Nova Democracia. Os moderados socialistas do Pasok ficaram em um modesto terceiro lugar nas eleições, com 12,3% dos votos.

A extrema direita também avançou na Grécia. O partido neonazista Amanhecer Dourado conquistou 7% dos votos, obtendo o direito a ocupar 18 cadeiras na Assembleia grega. Cerca de 430 mil gregos foram às urnas para dizer que estão de acordo com os neonazistas na luta contra o que chamam de imigrantes ilegais.

Os números das eleições certamente têm relação com os números – pouco otimistas – da economia. Mas os avanços da extrema esquerda e da extrema direita na França e na Grécia, dois países com enorme destaque na história da civilização ocidental, merecem uma atenção especial.

Não é só a economia do Velho Continente que precisa se reinventar. Os partidos políticos tradicionais aparentemente também precisam renovar as mensagens que apresentam aos eleitores.

Marcos Magalhães, jornalista e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), é editor do serviço internacional da Agência Senado (http://www12.senado.gov.br/internacional). E-mail: marcom@senado.gov.br.

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