Brasília, 18 de novembro de 2018 - 13h31

É a vez do Mercosul Social?

01 de fevereiro de 2011
por: InfoRel
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Carlos Eduardo Vidigal



 



A primeira visita internacional de Dilma Rousseff, à Argentina, no final de janeiro, levou um jornal de boa circulação no Brasil a colocar como título de sua reportagem a avaliação que “Foi Cristina quem lucrou”.



 



Na avaliação do diário brasileiro, Dilma e Cristina Kirchner falaram sobre protecionismo econômico e assinaram cartas de intenção, mas o proveito maior seria da presidenta argentina, que faria uso do encontro para alavancar sua popularidade em um ano eleitoral. Como costuma ocorrer nessas ocasiões, a jornalista encarregada da cobertura focou no secundário e não no essencial.



 



Mais importante do que eventuais vantagens políticas auferidas pela presidenta argentina é o fato de ambas terem manifestado preocupações com uma das dimensões mais esquecidas do Mercosul, a área social.



 



Desde a primeira onda integracionista do pós-guerra, uma das questões mais relevantes para o processo de integração regional era a elevação das condições de vida dos povos da região.



 



O presidente argentino Arturo Frondizi (1958-1962) e seu assessor Rogélio Frigerio indagavam naquela época se, antes de promover a integração econômica dos países do Prata, não seria mais adequado equacionar as grandes distorções internas, integrando, em primeiro lugar, as sociedades nacionais.



 



Na mesma linha de raciocínio, o sociólogo brasileiro Hélio Jaguaribe, o Dr. Jaguá, indagava na obra A atualidade do nacionalismo brasileiro acerca dos recursos necessários para a promoção da integração e destacava que se o Brasil contava com uma população relativamente homogênea e grandes recursos naturais, a Argentina poderia se valer da força de sua educação e da criatividade de seus cientistas.



 



Em ambos os casos, a integração não deveria ser mera área de livre comércio ou mesmo uma união aduaneira, mas um processo capaz de abarcar as sociedades platinas.



 



No caso do encontro presidencial da última segunda-feira, o Itamaraty cedo anunciou que, ao lado dos temas comerciais e dos assuntos estratégicos (energia nuclear, infra-estrutura, complementariedade industrial) a reunião de trabalho das duas presidentas abordaria também as questões sociais.



 



Se Dilma enfatizou a dimensão estratégica – “o que mais me impressionou foi a determinação dela (Cristina), de fazer uma aliança estratégica com o Brasil. A mesma que eu tive” – Cristina Kirchner reivindicou uma atuação mais forte do bloco nos temas sociais: “não queremos o crescimento econômico que não atinja os mais pobres e os esquecidos na área de saúde, educação e habitação”.



 



A síntese possível entre os interesses estratégicos e a dimensão social do processo integracionista é o reconhecimento de que a integração é, antes de mais nada, econômica e empresarial, mas a valorização da dimensão social como a área que conferirá, no futuro, legitimidade à integração. Como observou Paulo Roberto de Almeida, em texto produzido no final da década de 1990, já, portanto, com o Mercosul em fase relativamente avançada, “a questão social é a variável mais incômoda introduzida na equação ‘linear’ da da integração”.



 



E mais: “... os efeitos sociais, diretos e indiretos, da integração econômica são significativos, a começar pelo aumento de bem-estar propiciado pela expansão da oferta em condições de concorrência ampliada” (CHALOUT, Yves; ALMEIDA, Paulo Roberto de. Mercosul, Nafta e Alca: a dimensão social. São Paulo: LTr, 1999).



 



A inclusão da dimensão social não é apenas – ou não deve ser apenas – uma variável da corrida presidencial na Argentina. Não deve ser expressão de um discurso fácil de esquerda ou centro-esquerda, mas a expressão de interesses materiais concretos, como aqueles gerados “em condições de concorrência ampliada”.



 



O Brasil, neste início de governo Dilma Rousseff, beneficiado pelo crescimento dos últimos anos, deve assumir o que deles esperam não apenas os governos, mas os povos dos países membros do Mercosul: o papel de protagonista do processo de integração – em parceria com a Argentina, Uruguai e Paraguai.



 



Nesse aspecto, a disponibilização de recursos financeiros para integração passa pelo convencimento da sociedade brasileira, que ainda manifesta dificuldades em tomar o Mercosul como um valor positivo; o convencimento de que a integração gerará vantagens para todos dos brasileiros.



 



É nesse sentido que, talvez, tenha chegado a hora do Mercosul social.



 



Carlos Eduardo Vidigal é Doutor em Relações Internacionais e professor do Departamento de História da Universidade de Brasília.

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