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Irã

Embaixador destaca relações bilaterais, mas teme que se agrave a crise em torno do programa nuclear

No comando da Embaixada do Brasil em Teerã desde 2008, o carioca Antonio Salgado assegura que as relações bilaterais estão firmes, mas não deixam de ser impactadas pelas sanções econômicas aplicadas pelos Estados Unidos e a União Européia. Fazer negócios com o Irã está cada vez mais complicado.

Segundo ele, a postura do Brasil de reconhecer o direito iraniano de desenvolver a energia nuclear para fins pacíficos, sob as salvaguardas da AIEA, não mudou. Além disso, a diplomacia brasileira segue defendendo o diálogo como única via para a solução da questão nuclear.

No entanto, ele reconhece que o país vive um ano crucial e que posturas rígidas dos dois lados poderão resultar num conflito. Para Antonio Salgado, “se a contribuição que o Brasil deu junto com a Turquia tivesse sido aproveitada, talvez não estivéssemos nessa situação”. Acompanhe a entrevista.

Como o senhor avalia o estado atual das relações bilaterais?

As relações continuam boas. É claro que houve um período de grande atividade no governo do presidente Lula, que decidiu intensificar as relações com os países do Sul. Houve uma grande aproximação com os países árabes, com a África, com a China e com a Índia. O Irã naturalmente foi inserido nessa política de aproximação com os grandes países e regiões do Sul. No segundo mandato do presidente Lula, houve um estreitamento das relações tanto políticas como comerciais e econômicas com o Irã. O então chanceler Celso Amorim esteve quatro vezes no Irã. Os então ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, e da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, também estiveram no país, além de missões técnicas dos respectivos ministérios. E isso culminou com as visitas do presidente Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil em 2009, e do presidente Lula ao Irã em 2010. Essas visitas presidenciais foram acompanhadas por encontros empresariais dos dois lados, muito positivos para o fortalecimento das relações bilaterais.

Antes disso, o que havia em termos de relações?

Havia muito desconhecimento e ainda há. Tanto do Brasil em relação ao Irã como do Irã em relação ao Brasil. Os encontros empresariais contribuíram muito para aproximar as duas partes e permitiram que negócios específicos entre empresas fossem firmados. De 2008 para cá, o comércio cresceu muito. Atingiu US$ 2,4 bilhões em 2011. É um comércio bastante desequilibrado a favor do Brasil. Desse montante, quase tudo são exportações brasileiras. O Brasil importa do Irã menos de US$ 100 milhões anuais. A pauta de importação nossa do Irã é muito restrita.

A mudança de governo no Brasil impactou a relação? Como?

A posse da presidente Dilma Rousseff não representou mudança nos fundamentos da política externa brasileira em relação ao Irã. O Brasil continua firmemente convicto de que a questão nuclear tem que ser resolvida por meio de negociações, defende o direito do Irã em desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos, que inclui o enriquecimento sob supervisão da AIEA, o que está perfeitamente de acordo com o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Na questão dos Direitos Humanos, mostramos aos iranianos que a posição da presidente nunca foi contra o país, mas a favor do sistema internacional dos direitos humanos, em grande parte baseado no trabalho dos relatores. O Irã mesmo havia feito convite aos relatores-temáticos do Conselho de Direitos Humanos para que visitassem o país em 2002. Eles não visam um país específico. Algumas visitas foram realizadas. Nós explicamos que o Brasil recebe esses relatores e que eles muitas vezes produzem informações muito duras contra o país. A posição do Brasil sempre foi a de prestigiar o sistema das Nações Unidas. Nós também explicamos que a presidente, ex-presa política, tinha uma preocupação natural com os direitos humanos. Mas, eles sabem que o Brasil é contra as sanções econômicas unilaterais e que trabalhamos para incrementar essas relações. Na área de Ciência e Tecnologia, muitos eventos foram realizados e a cooperação está em andamento, de forma mais lenta por conta de restrições orçamentárias que atingiram diretamente o Ministério da Ciência e Tecnologia.

As sanções, entre outras coisas, impedem que o Irã obtenha no mercado internacional muitos dos produtos de que necessita. O Brasil pode transformar essa dificuldade do país em uma oportunidade para vender mais?

Pela diversidade da nossa indústria, o Brasil teria condições de atender a demanda iraniana que passou a ser menos atendida ou não atendida pelos países europeus. Ocorre que as sanções dos Estados Unidos são muito abrangentes. A economia brasileira é dominada pelo setor privado. As empresas que vendem para o mercado norte-americano têm receio de comercializar com o Irã e serem retaliadas. Elas trocariam o certo que é esse mercado, pelo incerto que é a realização de negócios com o Irã. Principalmente por conta das restrições bancárias. A realidade é que essa oportunidade não pode ser muito aproveitada. Evidentemente, temos produtos competitivos para vendermos ao Irã, mas há uma situação desfavorável para eles.

O senhor tem um exemplo concreto de oportunidade que não se pode aproveitar?

O Irã tem uma necessidade urgente em renovar sua frota de aviões que é muito ultrapassada. Os aviões russos muito velhos foram proibidos de seguir operando. O número de acidentes aéreos no Irã é muito alto. Os aviões da EMBRAER atenderiam bem ao que o Irã precisa. Aviões para distâncias médias, para 100 passageiros, por exemplo. Ocorre que esses aviões utilizam componentes fabricados nos Estados Unidos, o que inviabiliza qualquer negociação. Além disso, tem o problema financeiro. Os bancos iranianos não se comunicam com o sistema financeiro mundial. O Brasil é contra as sanções unilaterais, mas o fato é que elas produzem um efeito prático e influenciam nas decisões das empresas.

A imagem do Irã projetada no Ocidente contribui para dificultar o diálogo com o país?

Seguramente. Quando se fala no nome do Irã, a associação é negativa. A imagem não ajuda a desenvolver os negócios com o Irã.

O senhor conversou com o ministro Antonio Patriota, no final de janeiro no Brasil. Ele deu alguma recomendação especial em relação ao Irã?

A percepção que ele me transmitiu foi de normalidade nas relações. O enfoque brasileiro em relação ao Irã é construtivo. Ele tem aproveitado para apontar para a ineficácia das sanções contra o país sempre que se reúne com líderes estrangeiros. Nós somos contra as sanções porque, em princípio, elas atingem mais as populações, que são as mais afetadas, não os tomadores de decisão. No caso de sanções multilaterais, é diferente. O Brasil, como membro da ONU, cumpre suas decisões ainda que eventualmente possa não concordar com elas. Todas essas dificuldades têm origem política. O Irã sempre foi um país que honrou os seus compromissos. Nunca foi um país inadimplente.

O Irã não enfrenta problemas de desabastecimento e o clima nas ruas é de normalidade. É correta essa percepção?

É essa a impressão que a gente também tem. A verdade é que o Irã tem uma grande experiência em conviver com as sanções, são mais de 30 anos. No passado, enfrentaram períodos muito difíceis. A guerra com o Iraque foi um momento muito duro para o Irã. Havia desabastecimento e dificuldades em se conseguir créditos internacionais. Hoje em dia, o país possui um parque industrial bastante razoável, já que tem escala para ter indústria e recursos que vem do petróleo. A indústria local abastece o mercado interno. Eles são auto-suficientes em muitas áreas. É claro que para operar as máquinas precisam de insumos, e isso está cada vez mais difícil. Muitas indústrias recorrem a distribuidores alternativos como a China. E a China tem um poder de barganha com os Estados Unidos, pois são grandes credores daquele país e, portanto, menos sujeitos a pressão. Os produtos chineses, porém, são de menor qualidade e isso pode afetar a produção. As sanções não levarão a economia iraniana ao colapso. O esforço é de isolar completamente o Irã, asfixiar o país, mas vai demorar para que se produzam resultados.

O senhor tem conversado com autoridades iranianas sobre um possível novo esforço que o Brasil poderia fazer em torno de uma solução para a crise envolvendo o Programa Nuclear do país?

O Brasil continua disposto a colaborar desde que haja uma solicitação de todas as partes envolvidas. Nós estamos dispostos a ajudar se houver interesse. Particularmente, não vejo muito espaço agora para uma atuação nossa. No entanto, a situação pode se agravar e não se pode excluir que o Brasil venha a ser chamado a ajudar pelos europeus, pela Rússia e a China, por exemplo.

Este é um ano eleitoral aqui no Irã (eleições parlamentares em 2 de março), nos Estados Unidos, França, Rússia, e troca de governo na China. Essa tensão toda não tem muito de “eleitoral”?

O fato de haver eleições nesses países não ajuda a que as posições fiquem mais flexíveis. Sempre se poderá alegar que houve fraqueza de um ou outro. Com a Rússia é diferente. Eles têm uma cooperação nuclear com o Irã. E a Rússia, assim como a China, tem posição mais construtiva com o Irã.

Sempre se falou muito do interesse do Brasil no Oriente Médio, mas tenho percebido que o interesse do Oriente Médio pelo Brasil não pára de crescer. Isso se deve a quê exatamente?

O Brasil é uma potência industrial e econômica que pode oferecer muito do que esses países necessitam. É natural que esses países queiram explorar esse potencial. Por outro lado, o Brasil tem uma política sólida em termos de princípios e isso é muito apreciado pelos países da região. Isso não acontece com os Estados Unidos que é percebido como aliado automático de Israel. O Brasil não é visto assim e tem uma população de 12 milhões de descendentes de árabes, que vivem harmonicamente com a comunidade judáica.

A Cúpula América do Sul – Países Árabes de 2005 impulsionou essa aproximação?

Os números comprovam isso. As visitas do presidente Lula também tiveram uma repercussão muito positiva em termos de negócios com cada um dos países árabes. E o comércio deles com os países da América do Sul também cresceu muito.

É possível pensar num vôo direto entre Brasil e Irã?

O turismo poderia ser um importante elemento nessas relações, mas há fatores que dificultam qualquer iniciativa para que esse potencial seja desenvolvido. Inclusive, as normas vigentes no Irã em que as mulheres devem usar véu e não há bebida alcoólica. Quem viaja não gosta apenas de ver museus. O turista quer relaxar e se descontrair. Se essas restrições forem abrandadas, o turismo poderá ser impulsionado e até uma linha aérea poderia ser viabilizada. O problema é que vivemos um momento “anti-Irã”, no plano mundial. As condições atuais não favorecem o aumento das relações econômico-comerciais e no turismo também. O número de turistas brasileiros é baixíssimo aqui. Tem mais turistas iranianos indo ao Brasil. Em 2011, a embaixada emitiu 3,2 mil vistos para turistas e homens de negócio do Irã.

O presidente Ahmadinejad vai à Conferência Rio+20 em junho, no Brasil?

O Brasil convidou todos os Chefes de Estado e de Governo. O presidente do Irã recebeu o convite e nós estamos aguardando uma resposta. Eu acredito que deverá ir. A problemática ambiental é muito importante aqui. Esse é um assunto de interesse do governo iraniano.

O que o senhor projeta para o futuro do país?

O fato é que 2012 é um ano crucial para o Irã. A questão nuclear está atingindo um ponto limite. Eu não imagino que daqui a um ano, a gente esteja nesse mesmo impasse. Eu creio que alguma coisa vai acontecer e eu temo que seja algo ruim. Infelizmente essa questão está indo por um caminho perigoso. As sanções talvez demorem a surtir o efeito esperado e eu mesmo não acredito que levem a modificar a postura iraniana em face da questão nuclear, tampouco que levem a uma mudança de regime. Há posturas às vezes pouco flexíveis nos dois lados. E as sanções são contraproducentes e tendem a levar os iranianos a endurecer suas posições. A liderança iraniana não vai capitular. O país tem alguns milênios de existência, tem muita base histórica e uma cultura rica e há um sentimento de orgulho pelo seu programa nuclear, partilhado inclusive pela oposição. Houve até generais da época do Xá que manifestaram apoio ao programa. Eles não vão abdicar desse programa. Se a contribuição que o Brasil deu junto com a Turquia tivesse sido aproveitada, talvez estivéssemos num momento muito melhor do que estamos atualmente.

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