Brasília, 29 de setembro de 2020 - 04h39
Embrapa firma acordo com Emirados Árabes sobre materiais genéticos

Embrapa firma acordo com Emirados Árabes sobre materiais genéticos

12 de agosto de 2020 - 19:10:07
por: Marcelo Rech
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Brasília – A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), firmou um acordo com os Emirados Árabes Unidos para a troca de materiais genéticos, que beneficiará, entre outros, o semiárido brasileiro, onde há espécies de plantas forrageiras tolerantes à água salgada, objeto de grande interesse do Centro Internacional para Agricultura Biossalina (ICBA), daquele país.

O Brasil, através da Embrapa, pretende aprofundar o conhecimento acerca dos materiais genéticos dos árabes e as tecnologias já desenvolvidas por eles. De acordo com o presidente da Embrapa, Celso Moretti, o ICBA é referência em estudos de ambientes com baixíssima disponibilidade de água. Na Embrapa, esse tema é chefiado pela Embrapa Semiárido. “Temos o portfólio de convivência com a seca. No passado, dizia-se em combater a seca, mas hoje entendemos que você tem que conviver com isso e ter estratégias inteligentes”, explicou.

Segundo a Embrapa, uma das estratégias desenvolvidas no Brasil é aproveitar a água com alto teor de sal que é extraída do solo no bioma da Caatinga. Na região, a chuva se concentra de 3 a 4 meses por ano. E, enquanto a precipitação média é de 800 milímetros, a evaporação chega a 2.500 ml. “Isso é um desafio. Muitas vezes, os produtores abrem poço na propriedade para explorar a água subterrânea. Só que, pela formação geológica, o potencial para a irrigação é baixo porque tem muito sal. Acontece que muitas vezes é a única opção que o produtor tem”, detalhou a pesquisadora da Embrapa Semiárido e presidente do portfólio de Convivência com a Seca no Semiárido, Diana Signor Deon.

Foi nesse contexto que há quase duas décadas foi criado o Programa Água Doce, do governo federal, que instala dessalinizadores, com processo feito por osmose reversa. O modelo proporciona água com baixo teor de sal, que vai para consumo humano. Mas a Embrapa decidiu estudar como aproveitar também o que resultasse dessa dessanilização.

“Esse rejeito era o principal desafio porque acumulava ainda mais sal. A solução foi utilizar esses rejeitos em tanques de criação de tilápia, gerando uma fonte de proteína de boa qualidade para consumo humano. A água que sai do tanque sai com matéria orgânica e vai irrigar plantas que serão alimento para os animais”, explicou Moretti sobre o modelo, que finaliza com a produção das forrageiras.

Essas plantas tolerantes à água salgada são parte do material genético que deve ser, agora, compartilhado com os árabes. “Há interesse do próprio ICBA em conhecer as espécies. Essas plantas são naturais do Brasil e a Embrapa vem trabalhando no manejo, especialmente das forrageiras que toleram alto teor de sal como a erva sal e a palma forrageira”, afirmou Moretti.

Para colocar a parceria em prática a Embrapa espera, futuramente, captar recursos. “Vamos inicialmente desenvolver projetos em conjunto, eles financiando a parte deles e nós a nossa. A ideia, depois, é nós buscarmos financiamentos quer seja do governo brasileiro, dos Emirados, ou de outras fontes”, explicou Moretti.

O memorando é apenas parte das propostas feitas pela Embrapa ao governo dos Emirados durante missão realizada em janeiro deste ano. Moretti destacou que uma proposta mais ampla foi encaminhada ainda em março à ministra da Segurança Alimentar dos Emirados, Mariam bint Mohammed Saeed Hareb Almheiri.

“Entendemos que podemos avançar mais. A parceria com o ICBA é apenas uma parte do que queremos fazer nesse plano estratégico. A nossa ideia é apoiar os Emirados no estabelecimento do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária lá. A Embrapa fez isso no passado aqui no Brasil, e entendemos que podemos também os ajudar a fazer essa estruturação”, apontou.

Outro projeto visa apoiar o desenvolvimento de uma plataforma de zoneamento agrícola nos Emirados. “Sabemos que o país tem um rebanho de caprinos em torno de cinco milhões de cabeças. Então, podemos estudar o território para identificar oportunidades para eles otimizarem essa produção”, adiantou.

África

Há, ainda, a oportunidade em projetos na África. “O continente africano tem 60% das terras agricultáveis do mundo. A savana africana é muito parecida com o cerrado brasileiro. Como o Brasil é o único país do mundo que domina a agricultura tropical, a Embrapa, em parceria com os Emirados e junto com um terceiro ator (país africano), pode desenvolver projetos de cooperação trilateral. O interesse dos Emirados é ter um local para produzir alimentos e prover segurança alimentar para sua população. É uma parceria tripartite em que os três atores ganham”, frisou Moretti.

É neste último ponto que o presidente da Embrapa defende a inserção de empresas brasileiras. “Eu tenho defendido que nós podemos levar tecnologia agropecuária para o mundo tropical, sobretudo África e sudeste asiático, junto com as empresas privadas brasileiras, que têm tecnologia em genética animal, vegetal e maquinários”, afirmou. Moretti argumentou que a medida já foi tomada em outros contextos no Brasil e teve êxito para o empresariado de nações como a norte-americana, que trouxe empresas através da agência estatal USAID, e a japonesa, com a JICA.

Também previsto no acordo, o intercâmbio de pesquisadores precisará esperar mais tempo para ser colocado em ação. “Queremos, quando passar a pandemia, receber os técnicos árabes e que os brasileiros também possam ir até lá”, pontuou Moretti. A pandemia também adiou os planos de abertura de um escritório da Embrapa em Abu Dhabi, capital dos Emirados, que não tem data para acontecer.

Agora, a Embrapa espera expandir as parcerias para outros países do Golfo, entre eles o Catar. “Estamos muito entusiasmados com o que pode vir com esse acordo com o ICBA, mas que pode ser levado para outros projetos com o país. Esperamos levar isso a outros países da Liga Árabe. Eu estive ano passado no Catar e existe interesse do governo de lá em trabalhar mais próximo da Embrapa. Então, temos muitas possibilidades interessantes”, concluiu o presidente da Embrapa.