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Entre dois mundos: o Brasil deve priorizar os Estados Unidos em prejuízo das relações com a China?

Entre dois mundos: o Brasil deve priorizar os Estados Unidos em prejuízo das relações com a China?

11 de dezembro de 2018 - 10:14:14
por: Marcos Magalhães
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Poucos anos após o nascimento da República, o Brasil olhou para o Norte em busca de inspiração. O Barão do Rio Branco, que assumiu o Ministério das Relações Exteriores em 1902 e se converteu com o passar dos anos em um ícone da política externa nacional, era considerado um americanista. Abriu em 1905 a embaixada brasileira em Washington e defendeu a aproximação com os Estados Unidos como meio de estimular o progresso do Brasil. O relacionamento bilateral foi muito próximo, esfriou nos últimos anos e agora promete voltar ao centro da agenda do novo governo.

As relações formais entre o Brasil e a República Popular da China foram estabelecidas em 1974, no governo do presidente Ernesto Geisel. Ainda era outra China, antes da abertura econômica que a levou a ser a potência global de hoje. A aposta de Geisel, feita a partir de sua política externa de “pragmatismo ecumênico e responsável”, levou a uma aproximação gradual com o país que atualmente caminha para se tornar a primeira potência econômica do mundo. Em 2009 a China superou os Estados Unidos como maior parceiro comercial brasileiro e se firma também como maior investidora no Brasil.

Se o mundo caminha para uma nova ordem bipolar, liderada por Washington e Pequim, o Brasil deveria escolher um lado, como indicam vozes próximas ao presidente eleito Jair Bolsonaro? Deveria priorizar as suas relações com os Estados Unidos, em prejuízo de sua aproximação nos últimos anos com Pequim?

A resposta a essas perguntas depende de como se interpreta a política externa de um país. As relações com os Estados Unidos nunca foram apenas econômicas. Ainda hoje existe grande número de estudantes brasileiros em universidades norte-americanas. Os filmes e as séries de televisão produzidos em Hollywood continuam muito presentes na vida dos brasileiros. E muitas empresas dos Estados Unidos têm presença histórica no Brasil. Por esses e outros motivos seria difícil imaginar um afastamento entre os dois países.

Caso se preste mais atenção à questão econômica, por outro lado, é inegável a cada vez maior presença da China no Brasil. O país asiático tem sido um fiel comprador de produtos básicos brasileiros, como soja e minério de ferro, e suas empresas investem maciçamente em obras de infraestrutura no Brasil. O próprio desempenho da economia brasileira está cada vez mais ligado ao desempenho da locomotiva chinesa. Também é verdade que os dois países têm estabelecido parcerias importantes, como a programa espacial que já levou ao espaço três satélites de observação terrestre. Ao contrário dos Estados Unidos, porém, a China ainda não tem com o Brasil profundas relações culturais ou políticas.

Dificilmente o governo brasileiro, apesar da nova face da política externa, adotará um alinhamento mais automático com qualquer das duas grandes potências. Mesmo os que recorrem em campanha ao velho clichê do perigo amarelo sabem que seria contraproducente afastar-se de Pequim. Dito isso, escolhas precisam ser feitas. E, ainda que não se opte por um distanciamento explícito de qualquer das duas potências mundiais, será inevitável promover maior aproximação com uma ou outra. O novo governo brasileiro promete uma grande reaproximação com os Estados Unidos. Mas esse movimento em direção a Washington não deveria ocorrer em detrimento das relações com a China.

Há fortes motivos econômicos para isto, a começar pelo desempenho das exportações brasileiras para a China e os crescentes investimentos chineses no Brasil. Mas há também sinais de que Pequim deseja fortalecer os laços com o Brasil, incluindo outras áreas de cooperação, como o meio ambiente e o desenvolvimento científico e tecnológico. Se Washington aparenta dar cada vez menos prioridade à América do Sul e ao Brasil, em particular, o mesmo não se nota em Pequim. O Barão de Rio Branco dizia que o Brasil deveria se aproximar dos Estados Unidos para progredir. Se vivesse hoje, ele teria um olhar semelhante em relação à China?

Marcos Magalhães é jornalista e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton. E-mail: magmarcos@outlook.com