Brasília, 18 de novembro de 2018 - 11h24

Racismo

18 de abril de 2005
por: InfoRel
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Ucho Haddad

“Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, o mundo viverá em guerra.”

Bob Marley

Unânimes, os mais experientes afirmam que se existem dois assuntos que não podem, em hipótese alguma, rechear uma mesma discussão, o futebol e a polà­tica despontam na lista das proibições, sob pena de um acalorado embate convergir para o começo de um entrevero quase sem fim.

Nos últimos dias, o bate-boca entre o argentino Leandro Desábato e o tricolor Grafite, que se desentenderam em uma partida válida pela Copa Libertadores da América, acabou ganhando um excesso de exposição na mà­dia, sempre ávida a explorar escândalos dos mais diversos como forma de garantir alguns mà­seros pontos de audiência.

Não bastasse a polêmica gerada pelo caso que acabou em um distrito policial da capital paulista, o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti [PP-PE], mostrou seu lado oportunista e garantiu, em discurso na Casa, que a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial passa a ter prioridade.

Beira a irresponsabilidade pegar carona na confusão esportivo-policial-racial que dominou a semana, mas é compreensà­vel que o parlamentar pernambucano, segundo na imediata linha sucessória brasileira, queira se aproveitar de fatos quaisquer para permanecer na mà­dia.

Quando se fala em racismo, a primeira situação que vem à  mente é um achincalhando a condição racial de outro, sem que fatos maiores e quase imperceptà­veis aos olhos da sociedade passem impunes, mesmo que carregados de um racismo sem precedentes.

A garantia de vagas aos negros nas universidades brasileiras é o exacerbado exercà­cio do racismo, pois o Estado tenta compensar as mazelas impostas aos que representam, de certa forma, uma minoria racial no paà­s, concedendo, ao arrepio da lei, facilidades que vilipendiam o status racial de qualquer um.

Em outras palavras, não existe racismo mais vergonhoso do que camuflar a incompetência do Estado com benesses dos mais variados matizes ideológicos.

Edinaldo Batista Libânio, o Grafite, não deveria, de chofre, dar importância a determinados insultos, sabedor que é do acalorado clima que atualmente toma conta das disputas futebolà­sticas ao redor do planeta.

Por outro lado, quem não apenas aceita como torna oficial uma alcunha que imediatamente remete à  negritude cromática do material em questão – grafite – deveria ser mais flexà­vel com brincadeiras ou insultos disparados ao vento, sem querer descaracterizar a atitude, inicialmente criminosa sob os olhos da lei, do jogador argentino.

Quando o racismo, vez por outra, vem à  tona, sequer imaginamos a quantidade de brasileiros que faturaram com a própria negritude racial. Leônidas da Silva, um dos mais brilhantes jogadores de todos os tempos - verdadeiro diplomata sob a ótica da elegância de jogo – , que atuou pelo mesmo São Paulo Futebol Clube de Grafite, conquistou a fama sob a égide do apelido Diamante Negro.

Consultados os relatos mais detalhistas da história do esporte nacional, não se tem notà­cia que Leônidas da Silva tenha se incomodado com a imposição do apelido.

Ainda no campo do esporte, se faz necessária uma viagem no tempo, mais precisamente ao final dos anos 60 e inà­cio dos 70, quando o rubro-negro da Gávea tinha em José Jorge Fabiano, um dos mais precisos zagueiros da equipe.

José Jorge Fabiano não ficou registrado na memória dos mais aguerridos flamenguistas do passado pelo nome que recebeu no cartório e na pia batismal, mas, sim, pelo apelido de Tinteiro. Tal e qual grafite, o vernáculo tinteiro leva o raciocà­nio a algo cromaticamente escuro, mesmo que a tinta contida nos vidros disformes de outrora fosse, muitas vezes, azul.

No universo da música, o baiano Antonio Carlos de Freitas se fez conhecido como Carlinhos Brown, cujo americanismo foi extraà­do do nome do cantor ianque James Brown. Se o James é Brown de nome como de pele, Carlinhos, o baiano, não adotou o Brown por sua derme ser cândida, mas porque é incontestavelmente negro.

Em outras instâncias da musicalidade brasileira não há quem jamais tenha ouvido falar em Jovelina Pérola Negra, herdeira natural da genial Clementina de Jesus. De igual maneira, Jovelina não incorporou a extensão Pérola Negra ao nome pelo simples fato de não pertencer à  raça branca, mas por orgulhar-se de sua negritude.

Vendedor de picolé na dura infância vivida em uma favela paulistana, um dos mais respeitados empresários da música brasileira dos últimos tempos conquistou o mundo da fama usando o nome de Pelé Problema, um negro sem problema algum.

Na seara dos negócios, a empresa D.Paschoal, conhecida distribuidora de pneus, explora até hoje a imagem simpática de um negro de derme reluzente, batizado, sabe-se lá por quem, de Alemão. E como é de conhecimento da maioria, quando se fala em alemão, é imediata a associação à  imagem de uma figura da raça ariana, situação, que nem mesmo de longe, levou o garoto-propaganda negro ao desespero.

Conhecido animador de torcidas organizadas, o negro que durante anos comandou a torcida do Banco do Brasil atendia por Bola Sete, nome que saiu dos verdes feltros da sinuca, onde a bola preta, também conhecida como bola sete, era a última a alcançar a caçapa, respeitadas as regras do jogo.

Antonio Carlos Bernardes Gomes, o simpático comediante Mussum, jamais se importou com o apelido que lhe rendeu notoriedade, fama e dinheiro. Mussum, no mundo da pescaria, é um tipo de isca natural de coloração escura, também conhecida como pirambóia, facilmente encontrada em lodaçais. O que não significa que Mussum tenha freqüentado a lama da vida.

Voltando ao oportunismo polà­tico de Severino Cavalcanti, é preciso buscar explicações reticentes em suas palavras, pois o presidente da Câmara dos Deputados disse que “a discriminação de seres humanos não pode existir”.

Certo está Severino, pelo menos da boca para fora, ao defender tal tese, mesmo que intrà­nsecos sejam seus interesses polà­ticos, mas há de se condenar a evidente – porque não crescente – discriminação existente entre o povo e seus representantes, que diuturnamente fazem do parlamento brasileiro um imundo balcão de negócios que alarga a cada novo dia, impondo ao brasileiro uma vergonhosa condição de subserviência.

Em campanha, a grande maioria dos futuros eleitos falsamente se iguala aos eleitores para, consagrada nas urnas, praticar uma discriminação de trincar a alma. Crà­tico contumaz da homossexualidade, Severino Cavalcanti só flexibilizou sua postura diante do tema para contemplar a opinião pública, de quem depende para continuar em evidência polà­tica, o que não deixa de ser uma vergonhosa discriminação.

Abandonar, de uma vez por todas, a prática do racismo deve ser uma conquista da consciência e não da imposição legal, a exemplo do que acontece com o uso do cinto de segurança dos automóveis, cujo desrespeito ao que determina a lei redunda em multas e pontos na carteira de habilitação do motorista irresponsável.

Posicionar-se contra o racismo não pode ser uma atitude assumida exclusivamente pela correção polà­tica que carrega, mas uma manifestação sincera de coerência e igualdade humana. Igualdade racial não deve ser um mero sonho que alimenta o oportunismo polà­tico, mas uma realidade que una, sem distinção, todas as raças deste paà­s continente, saindo da nefasta condição de pesadelo social.

Se chamar um negro de negro é considerado crime racial, alguém deve providenciar um termo adequado para tratar os cidadãos cuja coloração da pele escapa das mais distintas nuances do branco, o que evitará, com toda certeza, imbróglios semelhantes ao de Grafite e Desábato.

Na Argentina, pronunciar a palavra negro não configura uma transgressão legal, o que nos EUA é considerado uma ofensa com direito a tribunais e outros salamaleques jurà­dicos. Lá, na terra do Tio Sam, os negros são rotulados como afro-americanos, o que pouco difere em termos de racismo, pois

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