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África - Brasil

13 de abril de 2005 - 22:25:00
por: InfoRel
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José Eduardo Agualusa é um dos principais expoentes da literatura africana de là­ngua portuguesa. Nascido em 13 de dezembro de 1960 em Huambo, Angola, Agualusa estudou e viveu grande parte de sua vida em Lisboa.

Morou no Rio de Janeiro e atualmente, vive em Luanda. Escritor, poeta e jornalista, é membro da União de Escritores Angolanos.

Ele também é correspondente do jornal Público de Lisboa, e da RDP-àfrica [a estação de rádio estatal portuguesa Agualusa tem ascendência angolana, portuguesa, escreveu Nação Crioula, que estabelece no romance a ligação entre Angola e o Brasil.

Em Brasà­lia para o lançamento do seu mais novo romance, José Eduardo Agualusa falou com Exclusividade ao InfoRel, sobre a polà­tica externa do Brasil para a àfrica. Acompanhe:

Qual a sua opinião em relação à  polà­tica externa do governo brasileiro para a àfrica, principalmente neste momento em que o presidente realiza um novo giro pelo continente?

Esta não é a primeira visita que o presidente Lula realiza à  àfrica. Eu creio que com o presidente Lula, iniciou-se uma nova era e o Brasil começou, finalmente a traçar uma polà­tica externa, o que é estranho para um paà­s com as dimensões do Brasil, uma grande potência. Mas, parece que isso agora começa a acontecer. E a sua polà­tica externa passa necessariamente por uma reaproximação com a àfrica. Penso que é um destino histórico o Brasil tornar-se não apenas um là­der natural dos paà­ses do Sul, mas, sobretudo dos paà­ses africanos de là­ngua portuguesa. O Brasil será sempre, necessariamente, o motor para o desenvolvimento desses paà­ses.

Mas, se critica muito essa aproximação do Brasil com paà­ses africanos, muito pobres e que têm pouco a oferecer. Que opinião o senhor tem a respeito?

Terà­amos que ver, caso-a-caso, cada paà­s. Há paà­ses na àfrica que têm um grau de desenvolvimento muito superior ao do Brasil, em muitos aspectos. Há outros paà­ses que têm polà­ticas de desenvolvimento com as quais o Brasil poderia aprender. No caso do meio ambiente, Botsuana é um dos paà­ses do mundo com as melhores gestões ambientais. Além disso, o Brasil tem muito a receber em termos de cultura. Para os brasileiros de origem africana, é muito importante esse reencontro com a àfrica, como uma forma de redescobrirem o seu orgulho e a dignidade ofendida durantes esses anos todos desde a escravatura. É importante para o Brasil e para os brasileiros reencontrarem a àfrica na vitalidade de sua cultura contemporânea. Não se trata apenas de uma questão econômica, vai muito, além disso.

O senhor é favorável à  realização de uma cúpula América do Sul – àfrica, nos moldes da proposta discutida pelo presidente Lula na Nigéria?

Eu penso que tudo isso passa por uma tentativa de se criar um bloco no Sul. Um bloco dos paà­ses do Sul de forma a afrontar o bloco dos paà­ses do Norte. Mais dia, menos dia, o Brasil terá de se confrontar com esse bloco, liderado pelos Estados Unidos. O Brasil é um paà­s em crescimento, um paà­s com riquezas imensas. É o paà­s mais rico em água, e a questão da água vai ser uma questão central nos próximos anos. E é bom que o Brasil se prepare porque vai haver confronto. Ainda que não seja um confronto violento, mas haverá confronto. E é bom que o Brasil tenha condições de aliar outros paà­ses, formando um bloco sólido. Há entre os paà­ses do Sul, grandes potências, como a àfrica do Sul, a China e a àndia.

Dá para ter alguma expectativa positiva em relação a essa polà­tica externa do Brasil no que diz respeito aos paà­ses africanos de là­ngua portuguesa?

Dá sim, sobretudo no plano cultural. Esses paà­ses têm uma ligação muito forte com o Brasil. Quando dizemos que somos paà­ses irmãos, isso não serve apenas para um discurso polà­tico, é a realidade. Temos uma história comum. Angola e Moçambique precisam do Brasil, inclusive para a formação da sua identidade. O contrário também é verdadeiro. Pouco-a-pouco se começa a assistir a uma redescoberta por parte do Brasil, da àfrica. No campo da literatura nós vemos a edição cada vez maior de livros de autores africanos de là­ngua portuguesa, no Brasil. O que eu sinto é que há um enorme interesse de parte do Brasil na àfrica.

No campo polà­tico, o Brasil pode realmente alcançar maior inserção internacional tendo os paà­ses africanos como aliados?

A médio e longo prazo vamos assistir a isso mesmo. Eu espero que sim. Mal seria se não pudesse ser assim. O Brasil tem muito a dizer. Conseguiu construir uma civilização sempre disposta ao diálogo, diferentemente daquilo que os Estados Unidos propõe que é uma civilização agressiva e de confrontos fà­sicos. Ao contrário, o Brasil tem toda uma tradição de diálogo. Eu acho que é isso que o Brasil tem a oferecer ao mundo.

Qual a situação de momento de Angola e como o Brasil pode ajudar concretamente o paà­s?

Angola está num perà­odo de transição. Depois de terminada a guerra, estamos a caminho de alguma coisa que eu espero, seja uma democracia plena. E não poderá haver desenvolvimento sem que haja democracia. Quando olhamos para a àfrica, percebemos que os paà­ses mais desenvolvidos, são aqueles que possuem democracias mais desenvolvidas, mais profundamente enraizadas. Quem quer que queira ajudar Angola, terá de apoiar o movimento democrático. O Brasil não tem feito isso. O Brasil, como Portugal, tem grande ligação com o regime. Acho que isso é um erro e é um erro grave. Eu acho que o Brasil e outros paà­ses deveriam insistir no apoio à  sociedade civil e à s forças democráticas.

Que diferenças o senhor percebe quanto à  postura de Brasil e Portugal em relação à  àfrica e, especialmente, Angola?

A informação é muito maior em Portugal do que no Brasil. Existe uma fortà­ssima comunidade angolana em Portugal, com algum poder econômico, com alguma capacidade de intervenção de fazer lobby polà­tico. Por outro lado, existem muitos portugueses que passaram por Angola e outros que vivem em Angola. A presença portuguesa em Angola é cada vez maior. Portanto, essa ligação é muito mais profunda e a atenção também é muito maior. Não tem nem comparação.

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