Brasília, 20 de novembro de 2019 - 09h37
Especialistas manifestam preocupação com onda nacionalista em evento sobre os 30 anos da Queda do Muro de Berlim

Especialistas manifestam preocupação com onda nacionalista em evento sobre os 30 anos da Queda do Muro de Berlim

07 de novembro de 2019 - 13:05:11
por: Marcelo Rech
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Brasília – Nesta quarta-feira, 6, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados (CREDN) realizou Mesa Redonda para celebrar os 30 anos da queda do Muro de Berlim. Na oportunidade, deputados e especialistas manifestaram preocupação com a onda nacionalista que se espalha no mundo.

O evento foi proposto pelo deputado Nilson Pinto (PSDB-PA), presidente do Grupo Parlamentar Brasil – Alemanha e contou com as presenças do deputado Eduardo Barbosa (PSDB-MG), do Embaixador da Alemanha, Georg Witschel, e dos professores Paulo Velasco e Carlos Frederico Domínguez Ávila.

Ao abordar o tema Nacionalismo versus internacionalismo: uma Ordem Internacional sem muros, o deputado afirmou que, à época, “o mundo via romper-se, definitivamente, a ordem bipolar, para ingressar no sistema multilateral de consertação política”. “No entanto”, observou, “o que vemos hoje, passadas três décadas da queda do Muro de Berlim, é um mundo se voltando para dentro de si, com o retorno dos nacionalismos em detrimento do internacionalismo. Poucos sabem, mas, dentro de alguns anos, a Europa poderá concentrar mais muros, cercas e barreiras do que jamais houve durante a Guerra Fria”, explicou.

Ele se referiu às barreiras físicas que hoje dividem a Grécia e a Macedônia, a Macedônia e a Sérvia, a Sérvia e a Hungria. Recentemente, a Eslovênia deu início à construção de uma cerca com a Croácia, os austríacos mantêm cercas entre si e a Eslovênia, a Suécia ergueu barreiras para impedir a imigração vinda da Dinamarca, enquanto Estônia, Letônia e Lituânia, estão fortificando suas fronteiras defensivas nas fronteiras com a Rússia.

Segundo ele, não é apenas na Europa que este fenômeno ganha força. Os Emirados Árabes Unidos construíram uma cerca ao longo da fronteira com Omã, e o Kuwait seguiu o exemplo na fronteira com o Iraque. Iraque e Irã, mantém uma divisão na fronteira comum. O Irã também construiu uma barreira de 700 km com o Paquistão. Na Ásia, o Uzbequistão, um país sem litoral, fechou-se completamente em relação aos seus cinco vizinhos Afeganistão, Tajiquistão, Cazaquistão, Turcomenistão e Quirguistão. “Para fechar, barreiras separam o Brunei e a Malásia, a Malásia e a Tailândia, o Paquistão e a Índia, a Índia e o Bangladesh, a China e a Coreia do Norte e esta da Coreia do Sul. À todas essas barreiras, acrescentamos o imponente Muro de Separação entre Israel e Palestina com todos os seus simbolismos e efeitos práticos e, em construção, o muro que irá separar os Estados Unidos do México”, destacou.

Por outro lado, estes não são os muros ou barreiras mais relevantes, na opinião do deputado. “Preocupam-nos os muros que ganham força com a onda nacionalista em todo o mundo. Uma onda que coloca em risco o multilateralismo, a cooperação e a irmandade entre os povos. As barreiras físicas são lamentáveis, mas aquelas que estão a dominar o mundo alimentando o isolacionismo, são ainda mais tristes. O mundo imaginado a partir da queda do Muro de Berlim é um mundo integrado, diverso e onde as diferenças unem em lugar de separar”, advertiu. Para Nilson Pinto, “não podemos esquecer nunca que um muro foi posto abaixo de forma pacífica e que a Guerra Fria chegou ao fim graças a doses enormes de sensatez”.

Liberdade e democracia

“Em 1989, o desejo pela liberdade venceu. O Muro de Berlim foi derrubado sem tanques, sem tiros, sem mortes. Foi o triunfo da democracia e dos movimentos de paz. É nosso dever lutar contra os extremos, da direita ou da esquerda, e lutar pela paz em todo o mundo”, pregou o Embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel.

Na sua avaliação, a queda do Muro tem raízes profundas que precisam ser compreendidas para entendermos a história. “Até o último minuto havia dúvidas de que haveria repressão, basta ver o que se passou na Praça da Paz Celestial, na China, com quatro mil mortos. A URSS também se dissolveu em 15 Repúblicas, de forma pacífica. Não foram apenas regimes comunistas que caíram. No mundo todo houve movimentos por mais liberdade. O fim da cortina de ferro foi o início de uma nova fase da globalização”, afirmou.

Especialista em Relações Internacionais, o professor Paulo Velasco chamou a atenção para o fato de que nenhum teórico de peso conseguiu prever a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, cuja lógica residia justamente no equilíbrio entre as potências. “O mundo viveu sobressaltado pela ameaça de uma guerra termonuclear, de uma terceira guerra mundial. A Segurança Internacional sequestrou a agenda internacional. Já os anos 90 foram conhecidos como a década das conferências onde a ONU buscou resgatar o seu protagonismo. Tivemos, nesta época, a ascensão do multilateralismo”, assinalou.

No entanto, Velasco afirma que a percepção otimista de mundo não se confirmou. “Caminhamos no sentido contrário, há retrocessos. Estamos num processo de desglobalização onde o que importa são as fronteiras que dividem, que excluem”, apontou.

Para o professor e historiador Carlos Domínguez, “destaca-se a sua natureza de transformação pacífica das estruturas políticas, sociais, econômicas e culturais e a revalorização da qualidade da democracia existente na atualidade na Alemanha”. Ele também entende que “ainda existem muitos muros no mundo”.

Eduardo Barbosa, por sua vez, chamou a atenção para a importância da queda do Muro de Berlim e a construção da União Europeia. “Em 1989 se extinguia a ordem bipolar na Europa, difuminando-se até desaparecer a implacável lógica de dominação e dependência imposta pelas superpotências após 1945. A livre circulação na Europa, estabelecida pelo espaço Schengen, e as modernas infraestruturas de comunicação facilitaram estes movimentos”, defendeu. Ele também acredita que o pacto por uma Europa coesa é irreversível. “O continente permanecerá unido. Para a maioria, a integração regional deu certo e continuará dando”, concluiu.

Os painelistas coincidiram que resgatar os princípios que estiveram por trás da queda do Muro é fundamental e coincidiram que o melhor caminho para uma política externa é o equilíbrio e o bom senso. O evento também marcou o aniversário de 15 anos do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa.