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11/04/2015
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14/04/2015

Geopolítica

Esquerda latino-americana perde bandeira com acordo EUA – Cuba

Marcelo Rech, especial da Cidade do Panamá

O acordo que põe fim às hostilidades entre Estados Unidos e Cuba após 53 anos, tira das esquerdas latino-americanas sua principal bandeira e obrigará a que todos na região repensem suas respectivas políticas externas. Barack Obama agiu com discrição, humildade e muita inteligência ao atrair o líder das esquerdas hostis, Raúl Castro.

As declarações de Castro durante a VII Cúpula das Américas surpreenderam não apenas os governos bolivarianos como também seus generais e a comunidade anticastrista de Miami. As oposições contrárias à normalização das relações entre Washington e Havana, unem alguns dos principais inimigos comuns ao longo de cinco décadas.

No entanto, Obama está disposto a deixar um importante legado para a História. Como havia adiantado o InfoRel, a decisão de retirar Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo já estava tomada. O anúncio, nesta terça-feira, 14, é o primeiro passo concreto após a reunião bilateral entre os presidentes norte-americano e cubano desde 1962.

Nas próximas semanas, líderes de esquerda de toda a região estarão digerindo a decisão tomada por Raul Castro. Sem bandeira e com o “chefe” entusiasmado com esta retomada, as esquerdas terão de rever não apenas suas estratégias, mas a própria razão de ser.

Castro mostrou aos liderados cuja Revolução Cubana serviu de inspiração, que a Guerra Fria realmente acabou e que já é passada a hora de virar a página. Se o comunismo vai continuar como na China, por exemplo, é o de menos. O que importa para Havana é que as relações com os Estados Unidos lhe colocarão novamente no mapa.

Seguramente, Cuba abandona a marginalidade a que estava relegada para tornar-se a “noiva cobiçada”. Nesta terça-feira, ministros espanhóis já estavam reunidos com autoridades cubanas em Havana para discutir as oportunidades de negócios que a decisão do Panamá implica.

O Brasil que financia a construção do Porto de Mariel, precisa estar atento. Sabe que as oportunidades são finitas, afinal, Cuba é um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes. E Havana negocia com Estados Unidos, Rússia e China, benefícios e privilégios que até então, não ofereceu ao Brasil.

 

Mas, esta obra não será a salvação para todos os males. A menos de 50 km da ilha está o porto de Miami, um dos mais modernos do mundo. Mariel não é tão essencial assim. E se o Brasil quer uma relação profunda com Washington, não vai precisar de Cuba para isso.

Por outro lado, Argentina, Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela, principalmente, terão de revisar o discurso e baixar o tom. Se Cuba sempre foi o exemplo para estes países e seus governos “progressistas”, tudo indica que há muito dever de casa a ser feito.

Marcelo Rech é jornalista, editor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa e especializado em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência e Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.

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