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EUA e China: rumo a uma disputa tecnológica?

EUA e China: rumo a uma disputa tecnológica?

25 de novembro de 2019 - 14:01:13
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Marcos Magalhães

As duas maiores potências mundiais deste início de século, os Estados Unidos e a República Popular da China, dedicam cada vez mais energia e investimentos à busca do controle das novas fronteiras tecnológicas, especialmente em temas como a quinta geração de telefonia celular, a inteligência artificial e a Internet das Coisas.

Após a eleição do presidente Donald Trump, em 2016, os Estados Unidos declaradamente promovem uma guerra comercial contra a China. Os números do comércio bilateral explicam por que o presidente norte-americano dedica tanta energia política ao tema. Em 2018, o déficit dos Estados Unidos com a China, no comércio de bens, foi de US$ 419 bilhões.

Porém, esta pode ser considerada provavelmente a face mais visível de uma disputa mais ampla. Para além dessa etapa mais diretamente ligada à busca de redução em curto prazo do desequilíbrio comercial, existe uma disputa de médio e longo prazos pela supremacia em setores mais ligados ao que pode ser considerado o futuro da economia mundial. Entre eles, a conectividade e a automação, que poderão redesenhar, em grande escala, a produção industrial e a economia como um todo.

Em agosto de 2019, o governo dos Estados Unidos anunciou que os órgãos da administração federal norte-americana estavam proibidos de comprar equipamentos de telecomunicações e câmeras de vigilância de cinco empresas chinesas, entre as quais as gigantes de tecnologia Huawei e ZTE.

A proibição foi mais uma etapa de uma campanha do governo norte-americano contra diversas empresas chinesas de alta tecnologia – especialmente as envolvidas no nascente mercado da quinta geração da telefonia celular, que terá importante papel a desempenhar na economia digital do início do século 21, marcada, entre outros fatores, pela chamada Internet das Coisas, na qual praticamente todos os produtos eletrônicos poderão  conectar-se uns aos outros.

O argumento usado pelo governo norte-americano é o da necessidade de proteção das redes de telecomunicações do país contra supostas ameaças de espionagem por meio de equipamentos chineses, especialmente da Huawei, uma das empresas líderes no mundo no processo de implantação das redes de 5G.

Ao mesmo tempo que dificulta as empresas chinesas de atuar na implantação dessas redes em seu território, o governo dos Estados Unidos tem promovido ainda esforços diplomáticos junto a países considerados aliados para que estes também adotem a mesma postura.

Se a guerra comercial ligada ao intercâmbio de produtos considerados como parte da economia tradicional já inspira cuidados em todo o mundo, a chamada guerra tecnológica tem o potencial de se tornar um grande tema no cenário global ao longo das próximas décadas.

É provável que, além de impor sobretaxas no comércio de bens, o governo norte-americano continue a adotar medidas contra empresas chinesas de alta tecnologia, especialmente as envolvidas com a implantação da infraestrutura das novas redes de comunicação sem fio.

Enquanto a guerra comercial de forma mais ampla procura reduzir em curto prazo o desequilíbrio na balança bilateral, a guerra tecnológica em gestação envolve aspectos determinantes para a competitividade de médio e longo prazos das duas economias.

Ou seja, para efeito imediato a imposição de barreiras à venda de produtos chineses indica para onde caminham no futuro próximo as relações entre as duas potências e os indicadores da economia mundial como um todo. Quando se procura estender o olhar para as próximas décadas, a disputa por liderança de novas tecnologias pode conquistar importância crescente.

O que se desenha nos laboratórios dos principais centros de pesquisa no mundo, em setores como nova geração da comunicação sem fio, inteligência artificial, robótica e biotecnologia, terá provavelmente enorme peso na definição da capacidade econômica dos países que disputam a liderança mundial. E esta capacidade econômica redefinida terá papel cada vez maior na redefinição da própria ordem global.

Trata-se de uma disputa que não se definirá em meses ou anos, mas em décadas. A busca pela liderança tecnológica veio para ficar e ocupará espaço cada vez maior na agenda política dos principais países do mundo.

Marcos Magalhães é jornalista e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton. E-mail: magmarcos@outlook.com