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Existirá Mercosul com a Venezuela de Chávez?

Existirá Mercosul com a Venezuela de Chávez?

Marcelo Rech

Aos trancos e barrancos, o Mercosul vai seguindo o seu caminho, desacreditado pela maioria dos empresários da região e chutado até por quem deseja aderir em definitivo, como a Venezuela do presidente Hugo Chávez. Para o Brasil, o interesse da Venezuela no bloco ainda é uma incógnita, embora sua chegada seja objeto do triunfalismo brasileiro.

Na Cúpula de Ouro Preto, que comemorava os dez anos do Tratado que criou o bloco, Chávez detonou: os países associados eram seis e os membros plenos, apenas quatro. Queria saber se não era hora de se conceder aos associados, mais direitos que a simples foto para a posteridade.

Especula-se que a chancelaria brasileira teria aceito o ingresso da Venezuela como membro pleno do Mercosul, como uma forma de controlar o que os diplomatas brasileiros chamam de arroubos. Também é fato que o Brasil acredita na intenção do presidente venezuelano de se sobrepor ao Brasil num processo de integração muito mais vigoroso e que conta com os petrodólares da PDVSA.

Como Chávez já decretou o falecimento da Comunidade Andina de Nações (CAN), teve de engolir a reeleição de Álvaro Uribe na Colômbia e viu seu pupilo da caserna fracassar no Peru, não seria exagero pensar que ele poderia ingressar no Mercosul para impor a recém-criada Alternativa Boliviariana para as Américas (Alba), que nasceu abençoada por Fidel Castro e avalizada pelo boliviano Evo Morales.

Se Chávez critica tanto o Mercosul, por que tanto interesse em ingressar como membro pleno? Talvez, pela falta de liderança política regional, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais preocupado com sua reeleição; Nestor Kirchner, na Argentina, também; Alan García terá de provar que pode assumir e ficar até o fim em sua nova chance no Peru; Michele Bachelet enfrenta problemas no Chile, mas não quer confusão; Tabaré Vazquez não entende como o Mercosul pode avançar se não consegue instalar uma fábrica de papel sem que a Argentina chie; o Paraguai vai fazendo seus acordos com os Estados Unidos.

Restam Evo Morales que está controlado pelo bolivarianismo e o Equador que Chávez quer ver como membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Para o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia, o Mercosul com a Venezuela poderia ser transformado num bloco anti-Estados Unidos.

Enquanto isso, Uruguai e Paraguai insatisfeitos com o bloco, acenam com acordos de livre comércio com os Estados Unidos. A menos que a Venezuela decidisse bancar a redução das assimetrias, pois já não esperam muito do Brasil.

A Venezuela deverá assinar o protocolo de adesão ao Mercosul em julho durante a cúpula presidencial de Buenos Aires. No entanto, o processo será concluído até 2010, quando o país assumirá na plenitude, a condição de Estado-parte com direitos e obrigações dos demais sócios.

Gasoduto

Ainda sob o impacto da crise criada com a nacionalização das reservas de gás e petróleo da Bolívia, integrantes do governo brasileiro já começam a ver com ressalvas o projeto de construção do maga-gasoduto proposto por Hugo Chávez, com mais de nove mil quilômetros de extensão e a um custo de cerca de US$ 20 bilhões.

Diante das especulações sobre a participação de técnicos da PDVSA na elaboração do decreto de nacionalização boliviano, diplomatas e políticos brasileiros, antes simpáticos ao projeto, avaliam o grau de vulnerabilidade da América do Sul em relação ao abastecimento de um produto que sairá da Venezuela.

Comércio bilateral já soma 256%

Se o governo não tem certeza dos planos que reserva o presidente Hugo Chávez, o empresariado brasileiro, a esmagadora maioria ideologicamente distante do bolivarianismo, comemoram os resultados práticos do fluxo comercial com o vizinho.

Em três anos de governo Lula, o comércio, somadas as exportações mais importações, entre Brasil e Venezuela cresceu 256%. Dos primeiros 50 parceiros comerciais do Brasil, este é de longe, o melhor resultado. E deve crescer ainda mais até o final do ano segundo especialistas em comércio exterior.

De acordo com o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o Brasil importa derivados de petróleo, uréia, vidro, enxofre, carvão e matérias-primas do setor plástico, e exporta manufaturados como telefones celulares, equipamentos agrícolas, automóveis e carne de frango.

A balança do comércio bilateral em 2005, pendeu para o Brasil com um superávit de US$ 2 bilhões. A Venezuela que era o 26º destino dos produtos brasileiros, hoje é o 13º.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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