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Política

Fim do mundo ou inversão de valores?

Ucho Haddad

Não sei onde vamos parar, o mundo está de ponta-cabeça. Quando a astúcia humana ainda engatinhava, os mais conservadores, diante da quebra de valores e conceitos, sempre disseram que o mundo estava virado. Estava na popular e conhecida situação da ponta-cabeça.

Quem procura nos dicionários alguma explicação para o vernáculo em questão, via de regra encontra como sinônimos “de pernas para o ar” ou “de cabeça para baixo”.

Até onde se sabe, se o planeta Terra, algo absolutamente palpável e concreto, não tem pernas e jamais estará de cabeça para baixo, mesmo que alguém insista na teoria, o mundo da política muito menos.

Represando o devaneio para os incautos políticos tupiniquins, que fazem da nossa Botocundia palco para uma verdadeira farra sem fim, algo de absolutamente estranho existe no ar que refresca a cabeça do nosso mandatário, pois, do contrário, o caso é de internação imediata.

É verdade que quem entra para ganhar não pode, no meio da peleja, admitir a derrota, até porque vivemos na era do pós-auto-ajuda, mas existem situações em que o melhor a se fazer é admitir o fracasso e partir para outra.

Centrando o foco na pessoa de Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula, reconhecer que o mundo está de ponta-cabeça não exige esforço de qualquer natureza.

Pode parecer uma utopia discursiva, mas contra fatos e números não há argumentos capazes de derrubar qualquer ilação sobre a pseudo-aprovação do presidente brasileiro.

A última pesquisa de intenção de voto, uma espécie de preâmbulo do que deve acontecer em outubro deste ano, mostra que ou a situação é esperta demais, ou a oposição desaprendeu as lições do passado.

Imaginar que Lula, que não é mágico nem nada, recuperou a popularidade da noite para o dia é algo tão inadmissível quanto apostar que a abstemia presidencial será perene.

Voltando rapidamente ao passado, até os mais desavisados recordam alguns fatos que marcaram os três primeiros anos da república luliana.

José Janene, por exemplo, ainda deputado federal pelo PP do Paraná e acusado de ser o maior operador do mensalão, colocou a honradez da mãe do presidente, quando chamou-o de “filho da puta”.

Longe de querer macular a imagem de uma nordestina guerreira e vencedora que, com enormes dificuldades, criou sua prole numa selva de pedra chamada São Paulo, estranho foi o fato de ninguém ter reagido à altura.

O filho do presidente, Fábio Luiz, em meados de 2005, teve seu nome envolvido numa operação empresarial com escandalosos traços de favorecimento, e ninguém disparou uma palavra definitiva sequer para transformar o imbróglio em causa nacional, erradicando da prática do cotidiano aquilo que o PT, em tempos oposicionistas, tanto criticava.

Vavá, o irmão-espertalhão do presidente Lula, se valeu do laço fraterno para faturar alguns bons e polpudos trocados a mais, como se tráfico de influência fosse a mais nobre das ações.

Ambos, Fábio Luiz e Vavá, foram esquecidos por um bom tempo, como parte de um conluio entre o poder e a imprensa servil, sendo que o filho do presidente agora volta a freqüentar as notícias, novamente por um negócio mal explicado. E, como se reprise fosse, todos se calaram.

Quando o escândalo do mensalão dava seus primeiros passos na direção da barafunda que aí está, Lula, para salvaguardar Roberto Jefferson e todos os seus segredos, disse que ao então presidente nacional do PTB entregaria um cheque em branco e assinado.

Mais uma vez, a população assistiu a tudo calada, sem esboçar nenhum tipo de reação. Jefferson, como todos sabem, além de não ter vocação para querubim, foi o homem forte de Fernando Collor, o inimigo número 1 de Lula.

O mensalão cresceu, ganhou corpo e, diante das inevitáveis e injustificáveis evidências, Lula preferiu admitir ao povo brasileiro, numa manobra escusa que não foi emoldurada por um pedido de desculpas, que caixa 2 todos os partidos fazem, inclusive o outrora moralista Partido dos Trabalhadores.

Mais uma vez, ninguém teve coragem suficiente para contestar a verborragia presidencial, apostando na possibilidade de tratar-se de um novo e enfadonho tropeço discursivo no meio de tanto besteirol oficial.

Com a situação complicando a cada novo nascer do sol, o PT foi tomado de assalto quando a ex-tesoureira do partido em Londrina, Soraya Garcia, devidamente acomodada na cadeira mais visada da CPI dos Bingos, disse, com todas as letras, que o ministro Paulo Bernardo [Planejamento] era conhecido na cidade paranaense como o “Ladrão do Mato grosso do Sul”.

Fato é que o ônus da prova cabe a quem acusa, mas neste caso, Soraya apenas repetiu o que ouvira em tempos passados, enquanto Paulo Bernardo optou por um silêncio obsequioso, colocando sob o manto da dúvida a sua passagem pelo governo de Zeca do PT, onde durante longo período comandou a pasta da Fazenda daquele Estado.

Novamente, ninguém surgiu para defender Bernardo, como se as supostas estripulias do agora ministro já fossem largamente conhecidas.

Quando o PT imaginou estar vivendo o cessar do fogo inimigo, o deputado federal João Batista de Oliveira Araújo, o Babá, destilou a sua infindável mágoa por ter sido expulso do partido, afirmando que o chefe da quadrilha era ninguém menos que Antonio Palocci Filho, ministro da Fazenda e guardião da Economia brasileira.

De novo, o PT, em sepulcral silêncio, preferiu acreditar que um dos mais contundentes membros do neonato PSOL estava falando a verdade. Até porque, quem cala consente.

Mas há de existir uma explicação para a enganação numérica apresentada ao povo brasileiro, dias atrás. E qual será ela?

Quando o governo Lula oficialmente silenciou sobre a convocação extraordinária, armava oficiosamente, naquele momento, a maior arapuca para capturar a oposição.

Como negar o envolvimento do PT e do Palácio do Planalto no escândalo do mensalão é algo tão difícil quanto fazer alguém acreditar na existência de gnomos, os marqueteiros presidenciais optaram por uma reviravolta, que, mesmo com o presidente negando a condição de candidato à reeleição, estava calcada numa espécie de caravana palaciana por vários estados brasileiros.

Enquanto a imprensa cobrava a presença no Congresso dos parlamentares convocados extraordinariamente, divulgando, inclusive, o quanto cada um recebeu a mais para pouco ou nada fazer, Lula saiu da linha de tiro, caiu no esquecimento popular e, semanas mais tarde, ressurgiu como a mesma aura messiânica da campanha de 2002.

A culpa, é verdade, jamais deve ser creditada exclusivamente à imprensa nacional, que se deixou enredar na esparrela palaciana, mas, principalmente, à oposição, que num passado bem próximo deixou de pedir o impeachment do presidente Lula por medo ou comprometimento, situações sempre camufladas pela tal da governabilidade, a mais nova balela da política moderna brasileira.

O erro maior da oposição foi não enxergar que na peregrinação luliana estava escancarado o roteiro da pesquisa de opinião que hoje se transformou em objeto de discussão de botecos e gabinetes.

O resultado apresentado é tão pífio e inverídico, que se os adversários do barbudinho mais famoso da Terra Brasilis foram hábeis o suficiente, a situação se reverte com certa dose de facilidade.

Não se trata de apostar na mudança como forma de salvar um país que até então não encontrou a melhor solução para o amanhã, mas de querer acreditar que algo de concreto ainda pode ser feito para reverter o caos que aí está.

Como o mundo nunca teve pé e nem cabeça, e nem mesmo é dado a plantar bananeira, só nos resta dizer que ocorreu uma inversão de valores e ninguém foi avisado.

Ucho Haddad, 47, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira [www.wanderleynogueira.com.br], do ABC Digital [www.digitalabc.com.br] e do Sanatório da Imprensa [www.sanatoriodaimprensa.com.br].

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