Opinião

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Maquiagem

Geórgia: um presidente `Made in USA´

Marcelo Rech

A partir de 2003, o Brasil intensificou sua política exterior com pelo menos dois objetivos muito claros: diversificar mercados para os seus produtos e obter uma cadeira de membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Pode-se afirmar que o primeiro objetivo vem sendo alcançado. A dependência que o país tinha dos Estados Unidos reduziu-se significativamente. Quanto à reforma do Conselho de Segurança, aí são outros quinhentos.

Ainda assim, a ofensiva brasileira não pára. Além da forte influência já exercida na América Latina, o Brasil busca consolidar-se como importante ator em regiões mais distantes e localizadas tradicionalmente fora do radar do Itamaraty.

As ex-repúblicas soviéticas se encaixam neste script.

Têm necessidades, há demanda e estão dispostas a apoiar o Brasil numa empreitada que não sai do papel tão cedo.

Mas, as relações com esses países podem ser problemáticas.

Vejamos o caso da Geórgia, por exemplo. Eles querem intensificar relações. Nós vemos isso com bons olhos. A Rússia enxerga aí um potencial problema. São os Estados Unidos quem dão as cartas em Tbilisi.

Maquiagem

O presidente georgiano Mikhail Saakasshivili contratou uma empresa norte-americana para trabalhar a sua imagem de bom moço nos Estados Unidos e noutras regiões.

Por meio do Grupo Podesta, ele conseguiu afirmar-se positivamente em Relações Internacionais e com isso, alcançou um encontro com Barack Obama e Hilary Clinton. A Geórgia paga US$ 300 mil para a empresa fazer lobby nos Estados Unidos.

De acordo com um documento do Departamento norte-americano de Justiça, o Grupo Podesta “faria lobby pelos interesses da Geórgia e a ajudaria a arranjar contatos com organizações governamentais e não governamentais e com a imprensa.” Além de promover reuniões de políticos georgianos com congressistas dos Estados Unidos, seus assessores, e representantes da Casa Branca.

Mikhail Saakashvili, educado no Oeste, fala inglês fluentemente e já foi o favorito do ex-presidente George W. Bush. Ele foi percebido como a personificação da democracia na antiga União Soviética.

No entanto, sua posição complicou-se quando a União Européia publicou um relatório sobre o conflito no Cáucaso, de agosto de 2008, mostrando que foi a Geórgia quem começou a guerra na Ossétia do Sul. A revelação esfriou as relações com Washington.

A Geórgia de Saakashivili mantém ainda um contrato operacional com outra companhia de lobby, igualmente influente, em Washington – a Gephardt Government Affairs (“Gephardt Assuntos de Governo”).

O contrato de um ano no valor de US$ 430 mil foi assinado para fornecer serviços de representação à Geórgia. No próprio site, a Gephardt diz que “as conexões com os democratas e com a administração de Obama podem ser úteis para o governo georgiano, que quis adquirir o apoio dos Estados Unidos quanto à adesão à OTAN e contra a Rússia.”

A companhia de Scheunemann tinha um contrato com o governo georgiano, e McCain saiu em defesa da Geórgia após o conflito. A Orion Strategies LLC de Scheunemann também já trabalhou com sucesso para o governo da Letônia.

Outra firma de lobby, Orion Strategies LLC, ficou conhecida graças à massiva cobertura da mídia ao conflito na Geórgia. O co-proprietário da companhia, Randolph Scheunemann, foi conselheiro de política externa do então candidato presidencial do Partido Republicano, John McCain.

O país báltico pagou para “promover a integração da Letônia na OTAN e encontrar as maneiras certas de trabalhar no ambiente político dos Estados Unidos.” O contrato custou US$ 250 mil dólares do orçamento do ministério da Defesa e foi executado entre 2001 e 2003. Outros US$ 40 mil foram gastos na campanha para sediar a cúpula da OTAN em Riga.

O trabalho de lobistas profissionais vai ao cerne da questão. Eles sabem como as leis são aprovadas nos Estados Unidos, quem desempenha papéis importantes no processo, como entrar em contato com tais pessoas e como transmitir-lhes a informação. As suas atividades são muito mais exatas e relevantes e, mais eficazes, do que o trabalho de um diplomata.

Ao que parece, Tbilisi não se recuperou da recusa silenciosa da Europa em aceitar a Geórgia como país-membro do “Velho Mundo”. A Europa, por sua vez, não absorveu a vergonha na qual foi envolvida por Saakashvili em 2008. O continente e seus líderes acreditaram que o “pequeno, mas orgulhoso país” havia se tornado alvo de agressão.

Muita coisa pode ser maquiada por uma grande empresa, mas certos fatos marcam definitivamente a imagem de um país e seu líder.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégia e Políticas de Defesa e Terrorismo e Contra-insurgência. E-mail: inforel@inforel.org

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