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19/10/2015
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19/10/2015

Política

Golpe de Estado: dois pesos e duas medidas

Marcelo Rech

No dia 28 de setembro, Quito foi sede do Encontro Latino-Americano Progressista (ELAP 2015), evento que reuniu mais de três mil militantes de esquerda da América Latina, Caribe, Europa e Ásia. O principal objetivo do encontro, patrocinado pelo governo do Equador, era discutir as alternativas aos movimentos de oposição aos governos naquele país, Argentina, Brasil e Venezuela.

A partir desse encontro, os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner; da Bolívia, Evo Morales; e da Venezuela, Nicolás Maduro, deram início a uma ofensiva contra a oposição no Brasil. Isso mesmo! Para eles, o Brasil enfrenta uma crise política artificial, fruto da tentativa de golpe de Estado por parte daqueles que não chegaram ao poder por meio do voto popular.

Entre ataques explícitos, retórica e devaneios como “defender o povo brasileiro” ou “impedir que derrubem a companheira Dilma”, dão-se ao direito de realizar consultas políticas acerca do que fazer no Brasil. Como resposta, recebem o silêncio ensurdecedor dos políticos e autoridades.

Curioso observar que a queda do presidente da Guatemala, Otto Pérez, que está preso, e os processos de corrupação contra o ex-presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, passaram em branco. Para os ditos “progressistas”, golpe de Estado tem dois pesos e duas medidas: quando caem presidentes classificados como conservadores, os processos são legítimos. Quando as ameaças são contra os membros do clube “progressista”, então são taxados de golpe.

Vide o exemplo de Fernando Lugo, cassado num processo de impeachment que seguiu a Constituição paraguaia, mas que resultou na suspensão do país do Mercosul. Ideologia de conveniência que ganha musculatura graças à omissão das pessoas de bem.

É preciso reconhecer que os governos de esquerda da América Latina são extremamente bem articulados. Conseguiram criar a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) para esvaziar a OEA. O resultado foi tão expressivo que a própria organização rendeu-se e elegeu um Secretário-Geral de esquerda, o ex-chanceler uruguaio Luis Almagro.

Não satisfeitos, contaminaram a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) a ponto de transformá-la em âpendice do projeto bolivariano. Seu Secretário-Geral, o colombiano Ernesto Samper, só está no cargo por aceitar as determinações de Caracas, La Paz, Quito e Buenos Aires.

Hoje, os três principais mecanismos de consertação política regional – OEA, Celac e Unasul – estão controlados pela chamada “esquerda do século 21”. Enquanto isso, a América Latina e o Caribe vão registrando números cada vez mais preocupantes, retrocedendo décadas em conquistas obtidas sabe-se Deus a que custo.

Marcelo Rech é jornalista e analista no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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