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02/07/2013
Exército
02/07/2013

Há Terrorismo na Tríplice Fronteira?

Há Terrorismo na Tríplice Fronteira?

Marcelo Rech

Há muitos anos a região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, vem sendo apresentada ao imaginário coletivo como uma terra de ninguém, um bolsão gestor de terrorismo radical de matriz islâmica, área onde a marca registrada é o contrabando, o narcotráfico, o crime organizado como um todo.

Ainda no governo calamitoso de George W. Bush, a doutrina dos falcões tentou arrastar o Brasil para a sua cruzada mundial contra o terrorismo. O então Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, em conversa com o então ministro da Defesa e vice-presidente José Alencar, foi taxativo: “haverá um atentado terrorista contra Itaipu”. Não houve.

A inteligência (?) norte-americana difundiu mundo afora, fotografias de Osama bin Laden numa caverna próxima às cataratas do Iguaçú. Diversas agências dos Estados Unidos propagam que dinheiro da comunidade árabe residente entre Foz do Iguaçú (PR) e Ciudad del Este (Paraguai), chega à organizações ditas terroristas como Hezbollah, no Líbano, ou Hamas, na Palestina.

Provas mesmo nunca ninguém apresentou. A foto de Bin Laden correu o mundo e serviu apenas para desacreditar as já desacreditadas agências de inteligência norte-americanas.

No entanto, a região de Foz do Iguaçú deve ser uma das regiões do mundo com o maior número de agentes secretos e nem tão secretos assim. Há um permanente monitoramento das comunidades árabes que, pelo que pude perceber, convivem harmonicamente do lado brasileiro.

Há uma presença maior de xiitas e talvez por isso, Washington dedique a esta região a atenção que sonega à América Latina como um todo.

No início dos anos 2000, anunciou-se a criação de um Mecanismo 3 + 1 para atuar na inteligência. Financiado pelos Estados Unidos, o escritório contaria com integrantes da comunidade de inteligência do Brasil, Argentina e Paraguai. Não se sabe se está funcionando.

Recentemente, o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), Wilson Roberto Trezza, anunciou o fortalecimento da ABIN em Foz do Iguaçú. Pode ser um indício de que há movimentos que precisam ser acompanhados.

Independentemente disso, a região precisa e deve contar com muita Inteligência. Os crimes conexos ali cometidos são muitos e afetam o Brasil em muitos aspectos. O contrabando de armas leves, por exemplo, alimenta a violência nas grandes cidades e zonas urbanas. Há ainda o tráfico de drogas que carece de maior cooperação para ser efetivamente combatido.

As operações Ágata, por exemplo, asfixiam o comércio ilícito por um tempo, mas não são permanentes e logo tudo volta ao “normal”.

Para piorar, em recente viagem que fiz ao Paraguai, pude perceber como a imagem do Brasil do outro lado é ruim. Cada vez que o Exército se mobiliza, fala-se em “militarização da fronteira” como se fosse pretensão do Brasil invadir e tomar o país vizinho.

Há ainda muito ressentimento represado que precisa ser melhor compreendido tanto pela diplomacia quanto pelas Forças Armadas. O que o Brasil não precisa é de um vizinho que faz vistas-grossas para tantos problemas simplesmente por má vontade.

Marcelo Rech, 42, é jornalista, especialista em Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org

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