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Haiti: a missão de quem não pode errar

Haiti: a missão de quem não pode errar

Marcelo Rech, especial de Porto Príncipe

O Brasil está presente no Haiti há pouco mais de cinco anos comandando as tropas de manutenção da paz das Nações Unidas.

Fruto de uma decisão política diretamente ligada à projeção internacional do país, a presença de tropas num país estrangeiro sempre suscitou dúvidas, questionamentos, críticas e discursos muitas vezes raivosos.

No entanto, o profissionalismo e a disciplina imposta àqueles que servem no Haiti, mostram com fatos que o militar brasileiro tem consciência de que não pode errar.

Considera a participação na Minustah como uma oportunidade preciosa quanto ao aperfeiçoamento de seus recursos humanos já altamente qualificados.

Não há operação conjunta ou exercício combinado que se compare à presença numa missão de paz.

No Batalhão Haiti são 1.298 militares, sendo 796 do Exército, 219 Fuzileiros Navais, 31 paraguaios, um peruano e um oficial de ligação. Na Companhia de Engenharia são mais 250 militares.

Esses militares são exaustivamente preparados no Brasil para atuarem num país cuja realidade por si só é impactante.

O Haiti é um estado falido como dizem os teóricos das Relações Internacionais. Cerca de 80% da população está abaixo da linha de pobreza. O desemprego atinge 70% das pessoas.

Apenas 20% têm acesso à água encanada e 10% à energia elétrica. Pelo menos 23% das crianças sofrem de desnutrição e o índice de analfabetismo chega aos 47%.

Além disso, 10% da população haitiana tem o vírus da AIDS num país onde a expectativa de vida é de 53 anos apenas. Em torno de 40% da receita do país provem do exterior e o Haiti está em penúltimo lugar na lista dos países mais corruptos.

Pelo menos um milhão de haitianos vivem na República Dominica, a vizinha com que é dividida a Ilha Hispaniola.

O Batalhão Haiti é responsável pelas áreas mais críticas da capital – Cité Soleil, Cité Militaire, Bel Air e a zona portuária – que antes da chegada da missão eram marcadas pela desordem política e social, presença de gangues, falência dos serviços públicos, polícia despreparada e desorganizada e um ambiente completamente desfavorável para a atuação das agências humanitárias.

Nestes cinco anos, as principais favelas de Porto Príncipe foram pacificadas com a prisão de líderes de gangues, apreensão de armas, munições e drogas, encaminhamento da questão dos ex-militares (o ex-presidente Jean-Bertrand Aristide pôs fim às Forças Armadas e armou gangues para se manter no poder).

A realidade haitiana ainda é de miséria, pobreza e muita desconfiança quanto ao futuro, mas aos poucos os serviços públicos retornam e as agências da ONU fortalecem suas presenças.

Pesquisa de opinião realizada entre os dias 1º e 30 de agosto revela que a população haitiana aprova a presença do Brasil no país. Cerca de 1.500 famílias foram ouvidas por 15 intérpretes e o nível de confiança bateu em 98%.

Esse índice não foi alcançado gratuitamente.

Apenas entre julho e setembro deste ano, foram realizadas diariamente cerca de 50 patrulhas a pé, 61 mecanizadas e motorizadas e outras cinco conjuntas com a Polícia Nacional Haitiana, em formação.

Reuniões com líderes comunitários e religiosos são freqüentes e contribuem significativamente para o êxito da missão inclusive em temas civis como a distribuição de roupas e alimentos e atendimentos médicos e odontológicos.

Nos últimos três meses, 170 ações cívico-sociais foram realizadas. Quase 400 toneladas de leite em pó foram distribuídos assim como 12,9 mil kilos de alimentos.

Os atendimentos médicos à população haitiana somam 279 entre julho e setembro e quase 80 mil litros de água foram distribuídas neste período.

E é preciso entender o impacto que essas ações provocam junto à população de um país carente de absolutamente tudo.

Não estamos no Haiti para lhes ensinar como conduzir o país, mas para lhes possibilitar algum futuro. E não podemos errar!

Marcelo Rech, 38, é jornalista com pós-graduação em Relações Internacionais e especialização em Estratégias e Políticas de Defesa. Correio eletrônico: inforel@inforel.org

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