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Integrante das Farc no Brasil não vai à audiência

04 de setembro de 2008
por: InfoRel
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Francisco Antonio Cadena Collazos conhecido como Cura Camilo ou Padre Oliverio Medina, integrante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no Brasil, comunicou oficialmente à  Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, que não comparecerá à  audiência pública que pretende esclarecer os và­nculos do atual governo com a guerrilha.

Em carta endereçada ao deputado Marcondes Gadelha (PSB-PB), ele explicou que vai respeitar sua condição de refugiado polà­tico para não atender ao convite dos deputados. Segundo ele, trata-se ainda de se respeitar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de não extraditá-lo para a Colômbia.

Na prática, o STF sequer analisou o pedido de extradição feito pelo governo colombiano. Como o Conare decidiu acolhê-lo, o processo foi arquivado.

Há suspeitas de que ele mantenha contatos polà­ticos no Brasil em favor das Farc o que poderia ser suficiente para que ele perca a condição e tenha seu processo de extradição reaberto pelo Judiciário.

A carta foi entregue no dia 28 de agosto. Oliverio Medina vive no Brasil desde 1997. Em 2006, recebeu o status de refugiado polà­tico do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). Ele é casado com uma paranaense e tem uma filha brasileira.

O deputado Raul Jungmann (PPS-PE), quer saber como Medina atuou para aproximar as Farc do governo Lula. Ele seria o và­nculo entre os 85 e-mails trocados com o número 2 da guerrilha, Raúl Reyes, morto em março passado.

Carta

Brasà­lia, 28 de agosto de 2008.

Excelentà­ssimo Deputado Federal Marcondes Gadelha

Presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional

Câmara Federal (sic)

Gostaria de manifestar a V. Exa. que me honra escrever a presente, enviando minhas
saudações cordiais, respeitosas e junto aos augúrios por um desempenho pleno de êxitos em vossa missão de presidir a digna e prestigiada Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional dessa Magna Casa.

Com a vênia de V. Exa., descrevo, a seguir, de forma sucinta, o objetivo desta missiva: manifestar que recebi da emérita Comissão presidida por V. Exa., no último dia 26, um Convite para participar de uma Audiência Pública.

Gostaria de fazer a seguinte reflexão.

Para saber como agir, pedi luzes ao Altà­ssimo, dialoguei com familiares, amigas e amigos, cuja solidariedade me honra. Rememorei duas coisas. Uma, que o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), usando critérios técnicos, entendeu que havia fundado temor de perseguição em razão de minhas opiniões polà­ticas, o que impediria o retorno a meu paà­s, razão pela qual me concedeu o refúgio. E a outra, o julgamento de meu Processo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), máxima instância do Poder Judiciário, fazendo brilhar a Justiça nessa Sessão Plenária, na qual nove dos dez Excelentà­ssimos Ministros presentes votaram pelo não-conhecimento de minha extradição e, julgando extinto o Processo, determinou a expedição do alvará de soltura, em 21 de março de 2007.

Então, levando em conta os fatos já mencionados e as circunstâncias em que me encontro, acudi confiante à  voz de minha consciência. Eis seu recado:
Continue honrando seu refúgio como até agora; ame os compromissos adquiridos como se fossem seus mandamentos. Aceite os deveres e direitos de refugiado, com modéstia e humildade. Seja respeitoso dos costumes, leis e normas que regem a vida do povo desse paà­s, cujo Estado abriu para você, como diz o Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Marquez, "uma segunda oportunidade sobre a terra". Continue reservado lendo, traduzindo, visitando as amizades, participando em atividades relacionadas com a cultura, a religiosidade, trabalhando a roça e, como um João de Barro, lute pelo sustento dos seus.

Excelentà­ssimo Deputado, sinto que devo obediência à  minha consciência, cujo altar é o foro à­ntimo de cada mulher e de cada homem. Portanto, com todo respeito, agradeço a oportunidade, mas, com a vênia de V. Exa. declino o Convite recebido. Gostaria que minha reflexão fosse acompanhada pela compreensão e a aquiescência dessa insigne Comissão.

Desde já, agradeço vossa atenção.

Francisco Antonio Cadena Collazos

(Refugiado Polà­tico)