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Inteligência para Campanhas Eleitorais

Inteligência para Campanhas Eleitorais

13 de julho de 2020 - 18:38:54
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Walter Felix Cardoso Junior

Em que pese a péssima imagem do parlamento, em decorrência de casos escabrosos sucessivos de corrupção envolvendo parlamentares e suas agremiações, ainda assim vivenciamos a consolidação do regime democrático brasileiro. Sofrida com as consequências de tantos desmandos políticos, segmentos esclarecidos da sociedade vêm exigindo mais qualidade e honestidade dos candidatos a cargos eletivos. Não obstante a evolução da própria legislação eleitoral, o processo eletivo ainda é bastante permeável a candidatos comprometidos com ilicitudes.

A questão ameaça diretamente as lideranças partidárias, posto que é imperioso proceder com mais rigor a seleção dos próprios candidatos. Nesse sentido também, emerge a necessidade de se investigar e acompanhar, de forma legal, a vida pregressa e a carreira dos políticos rivais, desenvolvendo projetos que envolvam a coleta de informações e a análise sistematizada de tudo que possa impactar as campanhas eleitorais.

Agindo dessa maneira, os partidos políticos podem alcançar mais facilmente, e com menos desgastes, os chamados objetivos eleitorais, seja para melhorar o desempenho de seus candidatos nas urnas, seja para garantir a própria sobrevivência como entidade formadora de opinião, diante da transitoriedade do poder.

Até bem pouco tempo, o emprego da inteligência - como processo de reunir e analisar informações objetivando apoiar um processo de tomada de decisões estratégicas - configurava uma prerrogativa exclusiva das instituições governamentais. Entretanto, com o advento da globalização e o acirramento da competição em todos os níveis, outros tipos de organizações passaram a valer-se dessa categoria de metodologias de processamento informacional, em meio a uma conjuntura cada vez mais complexa.

Acompanhando essa tendência, e no quadro da democracia brasileira, as organizações partidárias têm demonstrado crescente interesse pelas práticas legais de inteligência, objetivando maior eficácia na conquista de objetivos eleitorais, reduzindo a incerteza própria das campanhas e antecipando-se aos concorrentes, pois o que está em jogo aqui é a vitória nas eleições, conquistar e manter poder.

Sobre inteligência empregada em campanhas e as vantagens decorrentes disso

Existe um vasto campo de possibilidades para as ações de inteligência em um contexto político-partidário, da ausculta dos anseios das comunidades, até o levantamento de dados para a elaboração de um bom plano de campanha, ou de governo. É importante estarmos abordando aqui as práticas legais de reunir e processar informações sobre os candidatos adversários, permitindo um acompanhamento crítico e sistemático das ações desenvolvidas por eles e de tudo o mais que possa refletir-se negativamente em suas campanhas eleitorais.

Antes de prosseguir, desejamos esclarecer que as ideias desenvolvidas no ensaio passam ao largo de quaisquer aspectos ideológicos. Pois, um objetivo dessa categoria de inteligência é investigar metodológica e legalmente os concorrentes políticos e a sua estrutura de apoio. Interessa, então, concentrar-se na obtenção de dados verificáveis dos rivais, com a finalidade explícita de utilizar esse material, devidamente processado, para aumentar as possibilidades eleitorais dos candidatos da organização patrocinadora.

Obviamente, essa prática só é viável em regimes democráticos, como o nosso, com plena liberdade de imprensa, e Justiça Eleitoral atuante. O emprego da inteligência metodiza esse trabalho e força os políticos a abandonarem questões supérfluas, direcionando suas campanhas para temas relevantes e de maior interesse para a sociedade. Esse tipo de ação pode ser particularmente devastador para os candidatos que ainda estejam ocupando cargos públicos, ao obrigá-los a responder por suas declarações e atitudes.

Questões éticas e como organizar informações, e aspectos da terceirização

Podemos afirmar que a prática da inteligência como instrumento de modelagem de campanhas é um instrumento benéfico para a democracia, porque reduz as chances de sucesso de campanhas apoiadas em mentiras. Mostrando a todos eleitores quem é quem, o trabalho da inteligência tende a manter as pessoas que têm algo a esconder longe da contenda política. Objetivando minimizar excessos, é conveniente respeitar algumas imposições técnicas na execução do trabalho de inteligência, tais como: obter as informações desejadas de forma legal; dentre as informações obtidas, considerar somente as verossímeis e facilmente comprováveis; usar somente aquelas que forem relevantes para os objetivos da campanha política, mesmo ao longo do tempo; e evitar envolver pessoas próximas, do ambiente familiar, como alvo de ataques indiretos objetivando alcançar o candidato.

Atendendo, basicamente, essas condicionantes, o processo poderá ser desenvolvido de forma aberta, porém, discreta, já que esse empreendimento tem uma finalidade social evidente, plenamente justificável, qual seja, a de desnudar os candidatos oponentes. O trabalho de reunir informações sobre os candidatos oponentes deve permitir a catalogação do material pesquisado e processado de acordo com as seguintes categorias de interesses: atuação dos candidatos-alvo durante a sua permanência nos cargos eletivos; dados sobre uso inadequado ou irregular de verbas de gabinete; dados oriundos da mídia; detalhes de campanhas anteriores; dados sobre a carreira e os negócios (excetuando vida pública e pessoal); e dados pessoais gerais. Embora as informações negativas possam ser arrasadoras, sua obtenção e posterior utilização precisam ser feitas com bastante cautela, pois os eleitores, em geral, não gostam de presenciar golpes baixos. Ademais, é preciso considerar que o nível de tolerância dos cidadãos pode variar de uma região para outra. Em razão disso, é também conveniente avaliar corretamente os custos judiciais e pecuniários decorrentes de acusações infundadas, que podem não compensar o esperado lucro eleitoral.

Existem várias maneiras de desenvolver etapas importantes do trabalho de inteligência. Uma delas é contratar serviços especializados, como clippings, filmagens, etc. Terceirizar tarefas complexas tem como desvantagens principais o alto custo da prestação de serviço e a possibilidade de ocorrerem defecções e vazamentos sobre o trabalho realizado da inteligência, caracterizadamente por falta de lealdade dos contratados. Deve ser considerado, também, que agentes mercenários podem facilmente negligenciar por ausência de comprometimento com os objetivos propostos. Como a informação é um produto de valor especial, que gera uma expectativa de poder para quem a detém, sugere-se que os profissionais terceirizados, nessa atividade, sejam sempre vistos com as devidas reservas. Corroborando esta colocação, é bom não esquecer que uma atuação imprópria ou estabanada pode comprometer toda uma campanha eleitoral do candidato-cliente.

Reunindo e processando insumos sem esquecer a segurança

Todos os candidatos são personalidades públicas e isto faz com que os limites de sua intimidade estejam recuados. Talvez assim, principalmente, obter e processar informações sobre eles possa não ser tão complicado quanto parece à primeira vista. O trabalho de reunir e de analisar uma expressiva massa de dados relevantes sobre os oponentes, e sobre tudo que possa estar apoiando a sua plataforma eleitoral, seja na ambiência profissional ou não profissional, deve obedecer a uma metodologia apropriada de inteligência, respeitando um formato apropriado de “gestão”.

Os analistas de inteligência são responsáveis pelo processamento dos insumos reunidos, validando-os e cruzando-os com outros insumos que já são do seu conhecimento. A integração dos diversos conteúdos, como se fosse a montagem de um grande quebra-cabeça, é o que permite chegar às conclusões que facilitam a tomada de decisões táticas, e estratégicas, no contexto do vortex de campanha. Essa validação permanente é uma medida de segurança que garante credibilidade ao trabalho de inteligência, que se obriga a deixar de lado tudo que não seja confiável ou ao menos verossímil.

Durante o processamento das informações, um aspecto relevante a ser considerado diz respeito à legalidade das fontes de informação. Contatos externos não devem ser “alavancados” com manipulações ou pressões financeiras e morais. A recusa no fornecimento de informações deve ser respeitada.

A inteligência político-partidária pode potencializar a estratégia de campanha, especialmente quando é necessário partir para o ataque puro e simples. Por esta razão, os dados reunidos no calor da disputa precisam ser checados e reverificados antes de serem transformados em “munição” contra o concorrente eleitoral. A veiculação de informações errôneas e “fake news” pode prejudicar seriamente a ascensão do candidato patrocinador. Além disso, antes de saírem utilizando fatos condenáveis dos adversários, é preciso saber se o candidato-cliente não estaria vulnerável a ataques da mesma natureza. Nesse caso, discretamente, é conveniente saber sobre as suas impropriedades, exigindo isto conhecer detalhes da vida pessoal do candidato-cliente. Esse procedimento configura uma importante ação preventiva e visa a elaboração de uma estratégia de defesa.

Ideias conclusivas

A complexidade da democracia brasileira não facilitou, mas não impediu a sua consolidação, mesmo tendo sido isto mais lento do que o desejado. Embora a legislação eleitoral brasileira venha progredindo, sempre haverá dificuldades para os eleitores identificarem claramente os projetos eleitorais de viés negativo, aqueles apoiados em mentiras e interesses exclusivistas.

Isso reforça a necessidade de as organizações partidárias comprometidas com os justos anseios populares de tratarem essa questão com mais profissionalismo, formando seus próprios candidatos à luz de padrões legais, bem como se articulando eficazmente para obstaculizar a ascensão dos opositores.

A prática continuada da inteligência político-partidária pode beneficiar a democracia, porque reduz as chances de sucesso de candidatos com histórico comprometedor. Ela favorece mostrar aos eleitores quem é quem realmente no contexto de uma campanha, desestimulando aqueles que têm algo a esconder a entrarem na contenda política.

Por tais motivos, principalmente, acreditamos que a inteligência político-partidária ainda terá um papel de destaque no cenário eleitoral. Em última análise, trata-se de uma arma importante em qualquer campanha, simplesmente porque funciona.

Walter Felix Cardoso Junior é Doutor em Aplicações, Planejamento e Estudos Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro e Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Foi Assessor Especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, e é o Diretor do Departamento de Defesa e Segurança da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo - FIESP. E-mail: wfelixcjr@gmail.com.