Brasília, 17 de novembro de 2018 - 12h08

Política Externa

19 de janeiro de 2012
por: InfoRel
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Brasília - Após quatro anos comandando a embaixada iraniana no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, 52, retorna a Teerã. Nesta entrevista, ele destaca a importância do Brasil para a política externa iraniana, aponta as áreas de interesse comum e convida as empresas brasileiras a investirem no seu país.



"Estendemos tapetes vermelhos para as empresas brasileiras que desejam investir no Irã, em qualquer área, e estamos seguros que os investimentos iranianos no Brasil são bem-vindos", afirmou ao InfoRel.



No entanto, Shaterzadeh descarta qualquer cooperação em matéria de Defesa com o Brasil. O embaixador lembrou dos jovens iranianos mortos nos oito anos de guerra com o Iraque, país que importava armas do Brasil. Acompanhe a entrevista (também na versão em inglês).



Qual a importância do Brasil para a política exterior do Irã?



As nossas relações com o Brasil devem ser vistas no contexto das alterações na Ordem Mundial. A Ordem Mundial pertence a uma realidade de 60 anos atrás e está velha. Há uma Ordem Mundial controlada pelas grandes potências onde são observados apenas os direitos dos grandes, um grupo que tem poder de veto e onde reina a chamada "lei da selva". As potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial também dominam a Organização das Nações Unidas (ONU) e essa Ordem Mundial não tem nenhum lugar para os países independentes e soberanos. Mais de 120 nações integram o movimento de países não-alinhados, mas eles não desempenham nenhum papel na gestão mundial ou no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo. O grupo de potências controla o FMI, o Banco Mundial, a AIEA e impede que prevaleçam os diretos das outras nações. Dentro desse espaço e da necessidade em se promover alterações, a cooperação entre Irã e Brasil se torna ainda mais importante. Os dois países são defensores de mudanças na governança mundial, buscam promover o diálogo baseado na Justiça, trabalham pela erradicação da miséria e da pobreza e juntos, questionam o sistema capitalista onde 1% domina 99%. Brasil e Irã concordam em trabalhar por uma Paz verdadeira. Além disso, os dois países possuem grandes capacidades e podem ajudar-se mutuamente. O Brasil é uma grande potência no hemisfério e sabemos que o Irã também é considerado uma potência no Oriente Médio e Ásia Ocidental e dentro do Golfo Pérsico, com o petróleo, mas também em energia, tecnologia e economia. E nesse sentido, a cooperação entre os dois países é positiva para ambos. Os dois ganham. Os dois países também são muito importantes quando o assunto é a Cooperação Sul-Sul.



Nesse contexto, o que o senhor destacaria em relação à Cooperação Sul-Sul que é prioridade para a política exterior tanto de Brasil como do Irã?



Essa cooperação se torna cada vez mais uma necessidade. Os países do Sul ocupam 80% da extensão territorial do planeta, concentram quase 70% da população mundial e 60% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Nos próximos anos, o crescimento econômico dos países do norte será negativo enquanto que o crescimento nos países do sul será de 6%, o que os transforma no motor dinâmico da economia mundial. Mais de 90% dos recursos energéticos do mundo está concentrado nestes países que detém ainda mais de 80% das minas do planeta. Esses países têm hoje mais de US$ 10 bilhões em projetos em desenvolvimento. Sabemos que nesses países do sul existe mão-de-obra barata e que muitos especialistas que hoje atuam em países do norte, desejam retornar aos seus países o que vai acelerar ainda mais o desenvolvimento dos países do sul. Países como Irã e Brasil possuem grandes recursos energéticos, mineração, matérias-primas, mão-de-obra barata e profissionais de alto nível nas áreas de Ciência e Tecnologia que podem executar projetos que no passado, apenas os países ricos poderiam fazer. Infelizmente, as instituições financeiras estão nas mãos dos países do norte e é por isso que defendemos mudanças nessa Ordem Mundial. Os países do norte ganham quatro vezes com a exploração dos produtos fabricados nos países do sul. Se conseguirmos fortalecer essa cooperação entre os países do sul, o valor agregado dos seus produtos retorna a esses países. Isso nós testemunharemos no futuro próximo, isso acontecerá. Testemunharemos a queda de grandes moedas e o surgimento de novas moedas dos países emergentes. Esses países do sul se tornarão um centro de geração de empregos, desenvolvimento e acumulação de riquezas. Esse é um dos fatores que nos movem a aumentar as relações de cooperação com o Brasil. O princípio da política externa do Irã se baseia na Cooperação Sul-Sul e sabemos que a política externa do Brasil também.



Entre os acordos bilaterais firmados ou pendentes de confirmação, quais o senhor destacaria como prioritários para o fortalecimento das relações entre os dois países?



Temos acordos muito importantes com o Brasil anteriores a 2008 (quando o embaixador assumiu o posto em Brasília). Nos últimos 50 anos, os dois países assinaram 12 documentos. Entre 2008 e 2010, nós assinamos 28 documentos, 2,5 vezes mais que em meio século de relações. Posso dizer que assinamos acordos em praticamente todos os setores e áreas: isenção de vistos diplomáticos, artístico-cultural, comercial, energia, acadêmico, indústria, mineração, sistema bancário. Enfatizaria as áreas de energia e tecnologia cujos acordos já começam a ser implementados. Em 2010, tivemos um crescimento de 81% no volume do comércio bilateral e em 2011, esse comércio já passou para US$ 2,5 bilhões. Além disso, estamos negociando uma série de projetos num total de US$ 3 bilhões. Os dois presidentes já concordaram em elevar para US$ 10 bilhões esse volume comercial nos próximos cinco anos. Nós temos estudos que mostram que esse potencial pode chegar aos US$ 25 bilhões em dez anos. Brasil e Irã assinaram acordos nas áreas de nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e comunicação, medicamentos com novas composições e matemáticas. Na área tecnológica, Brasil e Irã criaram um fundo de US$ 1 milhão para apoiar projetos e oficinas de trabalho nos dois países. Também temos três documentos na área de energia e minas. Um desses documentos é entre o ministério de Petróleo e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), para treinamento de profissionais e meteorologia. Temos ainda entre as petrolíferas dos dois países, acordo para a exploração em águas profundas. Os respectivos ministérios de Minas e Energia assinaram um acordo para a geração de energia e construção de usinas e outro para a exploração de minérios. Na área de agricultura, temos três documentos firmados, um deles com a EMBRAPA para pesquisas agrícolas. Com o ministério de Desenvolvimento e Indústria do Brasil, temos outros três acordos. São acordos na área de padronização industrial e de estandardização da nanotecnologia. Com a APEX-Brasil assinamos um acordo para a realização de feiras e a criação de uma linha de crédito bancário. Os dois bancos centrais também têm um acordo de cooperação. Na área acadêmica, temos quatro acordos que envolvem universidades do Brasil e do Irã. Com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), há um acordo com a Câmara de Comércio e Indústria do Irã. Também as bolsas de valores de São Paulo e Teerã, têm acordo de cooperação. Na promoção do turismo assinamos um acordo e estamos negociando agora acordos nas áreas jurídica, ensino superior e patrimônios culturais. Na visita do ex-presidente Lula ao Irã, foram assinados ainda acordos nas áreas de Esporte e Juventude. Esses documentos mostram o interesse dos dois países em trabalhar em conjunto. Nós respeitamos o Brasil e o consideramos uma nação capaz de influenciar nas alterações necessárias nessa Ordem Mundial. Junto podemos fazer muitas coisas.



O Irã não pretende contratar um treinador de futebol para trazer o país para a Copa do Mundo de 2014?



Temos muitos jogadores brasileiros no futebol do Irã. Nas três divisões do nosso futebol, temos 60 equipes e muitas contam com jogadores, treinadores e auxiliares brasileiros. No vôlei, temos um treinador brasileiro. Além disso, já apresentamos o nosso interesse em participar das obras de infraestrutura para o Mundial de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.



Do ponto de vista econômico-comercial, quais os interesses do Irã no Brasil?



Nós estamos prontos para investir no Brasil e receber os investimentos do Brasil no Irã. As respectivas economias são complementares e não rivais. Neste sentido, um pode dar cobertura ao outro. Na área de geração de energia, o Brasil tem grande experiência na construção de usinas hidrelétricas. Já o Irã possui grande experiência em termoelétricas e na construção de turbinas de até 500 megawatts. O Irã é o 7º do mundo na fabricação dessas turbinas de gás. Nós estamos prontos para receber essa experiência do Brasil em hidrelétricas e os investimentos de empresas brasileiras nessa área. Na área de petróleo, o Irã tem uma experiência de 100 anos e o Brasil tem grande experiência na exploração de petróleo nas águas profundas. O Irã quer essa experiência do Brasil para os seus projetos no Mar Cáspio. Em contrapartida, estamos dispostos a transferir nossos conhecimentos e contribuir com o treinamento de pessoal. Na área de tecnologia, o Irã quer trabalhar com o Brasil em projetos de nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e comunicação, setor aeroespacial, área nuclear e medicina. O Irã é o 4º do mundo em pesquisas sobre células-tronco e o 14º em nanotecnologia. Na medicina geral, o Irã é o 1º da sua região. Os cientistas iranianos têm muito interesse em trabalhar com seus colegas brasileiros.



No setor espacial, há possibilidades de cooperação?



Na área aeroespacial, o Irã fabrica satélites e o Veículo Lançador de Satélites (VLS) e está disposto a transferir sua tecnologia que é 100% nacional ao Brasil. Até mesmo na área nuclear, o Irã obteve muitas conquistas com 100% de tecnologia nacional. O país está disposto a transmitir esse conhecimento a países como o Brasil. Essa ciência deve ser disponibilizada para todos. O nosso slogan sempre foi "Energia Nuclear para todos e armamentos nucleares para ninguém". É um direito da humanidade aproveitar as tecnologias nucleares para fins pacíficos. Também podemos trabalhar na área industrial com o Brasil. O Irã possui quatro marcas nacionais de veículos e o país tem interesse em trazê-los para o Brasil. Essas marcas estão presentes em quatro continentes e mais de dez países. O Brasil tem grande experiência em siderúrgicas e o Irã tem interesse em desenvolver-se nessa área.



O minério de ferro brasileiro interessa ao Irã?



O Irã necessita de 55 milhões de toneladas de aço e até o momento conseguiu fabricar 20 milhões. Para chegarmos a essa meta, necessitamos de mais de 50 milhões de toneladas de minério de ferro. Com as grandes minas existentes no Brasil, o país é nossa prioridade para atendermos a essa demanda. Outra área promissora é a de agricultura. Em 2011 a troca comercial entre o Irã e o Brasil totalizou a cerca de US$ 2,5 bilhões. Nesse período o Irã importou produtos agrícolas, industriais bem como alimentos do Brasil. Também queremos investir nessa área para produzirmos no Brasil. O Brasil tem grande experiência em pesquisas e o Irã também em relação a áreas desérticas e podemos trocar experiências.



O atual governo estimula as empresas brasileiras a investirem em projetos no exterior. Que áreas o senhor apontaria como potencialmente viáveis para essas empresas no Irã?



Estamos igualmente interessados em projetos de engenharia. Nós temos grandes profissionais e empresas que atuam no país e no exterior com mais de 230 projetos. Construção de refinarias e usinas de geração de energia, casas populares, estradas, fábricas de cimento, petroquímicas, fábricas de veículos e tratores, indústria transformadora, alimentar, construção de navios. Sabemos que nessas áreas existem grandes empresas no Brasil, mas podemos trabalhar juntos nos nossos países e em terceiros países. Estendemos tapetes vermelhos para as empresas brasileiras que desejam investir no Irã, em qualquer área, e estamos seguros que os investimentos iranianos no Brasil são bem-vindos.



Na área de Defesa, o Brasil pretende voltar a exportar material bélico. Também há projetos de longo prazo de modernização das Forças Armadas. O Irã tem interesse em ter cooperação em Defesa com o Brasil?



Atualmente, não existe nenhuma cooperação em Defesa entre Brasil e Irã. Nós produzimos no nosso país, equipamentos complexos na área de Defesa. São os armamentos necessários para as nossas Forças Armadas com grande variedade de mísseis com mais de 2 mil km de alcance, vários modelos de Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs) com autonomia de 2 mil km, tanques, diferentes sistemas antiaéreos, navios de guerra, submarinos, aviões e helicópteros. São equipamentos que produzimos no Irã. Também sistemas de controle e navegação, sempre de acordo com as nossas necessidades de defesa. O Irã, nos últimos 100 anos, não atacou nenhum país estrangeiro, mas sempre demos respostas muito severas aos nossos inimigos. Na área de tecnologia e engenharia, se o Brasil tiver interesse, há interesse nosso em trocar experiências. Nós nunca autorizamos a exportação de armamentos. Muitos dos nossos jovens, em oito anos de guerra com o Iraque, morreram por armas vendidas pelo Brasil ao Saddam Hussein.



Como o senhor avalia a posição do Brasil em relação ao Programa Nuclear do Irã? O seu país conta com o apoio brasileiro para seguir desenvolvendo essa tecnologia?



Essa pergunta deve ser feita às autoridades brasileiras, mas acreditamos que o Brasil ainda tem interesse nessas negociações. Nesse sentido, qualquer movimento do Brasil que seja independente, será bem-vindo.



No período em que o senhor comandou a embaixada iraniana no Brasil, o que pode ser destacado como positivo e o que o senhor acredita que ainda precisa ser feito?



O interesse do Brasil em sua aproximação com o Irã é de aumentar o comércio e exportar mais para ter mais acesso ao grande mercado iraniano, sabendo que o Irã não é apenas um mercado de consumo, mas um grande parceiro. E o nosso interesse no Brasil é aumentar as nossas cooperações em todos os campos. Infelizmente, não encontramos grandes cooperações do Brasil para aumentar as exportações do Irã para o Brasil. Temos de encontrar uma solução e isso não passa pelo governo brasileiro, mas pelas empresas.



O presidente Ahmadinejad iniciou 2012 com um giro pela América Latina. Nesse contexto, o Brasil segue como prioridade ou o seu país identifica na região outros parceiros igualmente fortes?

Estabelecemos boas relações com nossos amigos. Em qualquer parte do mundo. No Oriente Médio, na África, na América Latina. A viagem do presidente à região é motivada pela posse do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega. Naturalmente que durante essas visitas acontecem contatos, reuniões e conversas entre amigos. O Brasil está entre os nossos amigos. Também temos boas relações com os países da ALBA, Venezuela, Bolívia, Cuba, Nicarágua e Equador. E sabemos que cada um desses países tem o seu potencial. E, nesse sentido, nenhum país poderia ter prioridade. Nós sempre tivemos interesse nas relações com o Brasil e é possível que haja uma reunião entre o nosso presidente e a presidente Dilma Rousseff. Sabemos que as relações bilaterais necessitam de interesse mútuo. Se houver interesse do Brasil em estender as relações, da nossa parte existe a nossa vontade. O nosso presidente participará da Rio+20 em junho no Rio de Janeiro. Se a presidente estivesse na posse do presidente Ortega, eles poderiam ter conversado.



Qual o impacto das sanções econômicas ao seu país?



Desde as primeiras sanções há quatro anos, contra o Irã, até hoje, a Bolsa de Valores do Irã cresceu 230%. Neste período de cinco anos, praticamente todos os mercados de valores não tiveram sequer 10% de aumento. Em 2011, todos os mercados de valores do mundo tiveram queda. A Austrália registrou 16% de queda; Japão, 18%, Hong Kong, 20%, Xangai, 22%; Londres caiu 26%; Suíça, 8%; Alemanha, 16%; França, 18%; Estados Unidos ficou em zero. Chile, 15% de queda; Brasil, 22%. Em 2011, com todas as restrições, nossa Bolsa de Valores registrou 29% de aumento. Desde o início das sanções, nossas exportações registraram aumento de 500%. Se essas sanções fossem eficazes, produziriam algum impacto aí. Nossa produção científica, por exemplo, cresceu 28% quando a média mundial está em 2,5%. O desenvolvimento do Irã não está apenas em seu programa nuclear. Se essa realidade econômica for bem apresentada para qualquer autoridade brasileira, nós conseguiremos alterar a visão que têm do Irã. Temos culturas distintas, mas o interesse nacional dos dois países obriga as respectivas autoridades a trabalharem no desenvolvimento dos países. Até mesmo a oposição brasileira, bem informada sobre a realidade iraniana, pode mudar de opinião. Não podemos desperdiçar o tempo. Temos que aproveitar o tempo.


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