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Forças Armadas

José Alencar, um ministro da Defesa fora de lugar

Marcelo Rech

Quando o embaixador José Viegas deixou o ministério da Defesa, cogitou-se a nomeação do ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo, para ocupar o posto. Seria a forma de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atender aos reiterados apelos do PT, que sempre quis a coordenação política.

No entanto, o presidente, numa decisão solitária, convocou o vice, José Alencar e o escalou para a Defesa para mostrar o prestígio das Forças Armadas em seu governo. Conseguiu aquilo que o ex-presidente Fernando Henrique cogitou com seu vice, Marco Maciel, e não conseguiu.

No entanto, o ministro-vice já não esconde o seu desapreço pelo cargo. Segundo fontes das três forças, desde que assumiu Alencar não despachou uma única vez com o assessor parlamentar da Defesa.

Até mesmo os comandantes militares são obrigados a esperas e constrangimentos intermináveis. José Alencar está mais preocupado com a política. Até mesmo a questão dos juros está ficando num segundo plano.

Ele já cogita até mesmo disputar a presidência da República, principalmente depois que o companheiro Lula disse que desejava ter o PMDB em sua chapa, em 2006. Na pior das hipóteses, Alencar volta para o Senado. Ele só disputa o governo de Minas Gerais se Aécio Neves não tentar a reeleição.

Diante desse quadro, os projetos das Forças Armadas vão sendo tocados pelos comandantes de cada força. O que poderia ser percebido como desrespeito à hierarquia, são entendidos com ações absolutamente necessárias. Do contrário, a própria defesa nacional estaria correndo riscos.

Alencar não esconde o seu elevado desconhecimento técnico sobre as questões da Defesa. Portanto, poderíamos afirmar que ele é o menos culpado. Mas, uma área tão essencial como a Defesa, não pode prescindir de um ministro atento ao seu orçamento e à sua missão.

Entre outras coisas, as Forças Armadas correm o risco de terem seus estoques estratégicos de munição, sobressalentes e combustíveis, comprometida.

Some-se a isso, a possibilidade de redução e/ou cancelamento dos programas de manutenção e reparos, perda de adestramento, baixa de navios e aeronaves e atraso dos investimentos, nas três forças.

O desinteresse de Alencar pelas matérias da Defesa também pode comprometer, por exemplo, as missões de patrulha marítima, deixando vulneráveis as plataformas de petróleo. E, não podemos esquecer que o Brasil assinou há pouco o contrato para a revitalização dos aviões P-3 A Orion que executarão essa missão.

A construção dos pelotões de fronteira também sofrem atrasos que chegam há dois anos, o que acaba por estimular o contrabando e as práticas ilícitas por toda a nossa fronteira seca.

Se as coisas continuarem como estão, até 2019, 74 unidades da Marinha serão aposentadas, o que representa 77% do inventário da força. Para se ter uma idéia, a construção da corveta Barroso está atrasada em 10 anos.

O submarino Tikuna que começará a operar em dezembro teve um atraso de cinco anos, mesmo tempo em que a modernização da fragata Niterói está empacada. Os atrasos também comprometem projetos da Aeronáutica e do Exército. Ambos estão com suas frotas de blindados e aviões praticamente sucateadas.

As Forças Armadas precisam de um ministro que esteja atento para tais necessidades e que contribua para o crescimento da indústria de Defesa do país. Alencar afirmou no Rio de Janeiro, por ocasião da Latin America Aero & Defence, que o Brasil iria modernizar suas forças e transformar a indústria de Defesa do país em exportadora de material bélico.

É pouco provável que isso ocorra verdadeiramente quando questões mais simples como a orçamentária, não contam com a sensibilidade do ministro. Se as Forças Armadas não perderam mais recursos foi porque os comandantes atuaram junto ao Congresso.

Agora mesmo, enquanto Brasília fervilhava de empresários do mundo árabe, Alencar perdeu a grande oportunidade de fortalecer os laços comerciais com países potencialmente compradores do Brasil. Ignorou comitivas árabes e permitiu que o país perdesse uma oportunidade única de negócios.

Se para o ministro, seus projetos políticos são mais importantes, é momento de se repensar sua posição no ministério da Defesa. Talvez seja o momento de o governo refletir sobre a busca de um nome que não deixe as Forças Armadas a ver navios, literalmente!

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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