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06/06/2005
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06/06/2005

Crise Política

Leila Diniz, as mentiras do Japão e o fraco e decadente Lula

Ucho Haddad

“Viver é cultivar os valores espirituais para superar os embaraços materiais e morais e chegar à conclusão de que, em última análise, dado o balanço geral, a vida é boa.” Austregésilo de Athayde

Mesmo que Lula tenha feito de suas viagens oficiais uma varinha de condão que proporciona ao séqüito presidencial a oportunidade realizar os sonhos de outrora, transformando seus companheiros e companheiras em celebridades de ocasião, seus périplos pelo planeta têm servido como tônico que recarrega as baterias de um presidente incompetente e falacioso, que deveria deixar de lado a sanha de subir a escada do avião presidencial.

Quando de sua visita ao Japão, Lula disse, a quem quisesse ouvir, que o Brasil ingressara em uma rota irreversível de crescimento, o que até para os mais desinformados soou como uma mentira descomunal. Não é de hoje que o desapreço pelo trabalho tem marcado de maneira degradante a trajetória pública do senhor Luiz Inácio Lula da Silva, mas torrar o dinheiro público para se refazer no exterior, retornando ao país com uma pífia carga de gás que não suporta uma denúncia de corrupção, é uma irresponsabilidade de envergadura inimaginável.

Quando ainda transitava pelos corredores do Congresso Nacional na condição de deputado constituinte, Lula abandonou os afazeres parlamentares sob a desculpa que ali existiam trezentos picaretas.

Tempos depois, o messiânico Lula fez um enorme esforço para recompor o poder de compra do salário mínimo, o qual se encontra na casa dos R$ 300. Como bem lembrou o jornalista Carlos Brickmann em sua coluna do Diário do Grande ABC, a centena em questão se transformou no número cabalístico às avessas do Palácio do Planalto.

Agora, quando luta para impedir a instalação da CPI dos Correios, Lula diz ter conseguido o apoio de trezentos parlamentares, provavelmente tão picaretas quanto aqueles que freqüentaram o veneno luliano em 1988.

Não é possível que em pouco mais de quinze anos a picaretagem que há muito infesta os corredores do poder tenha sido disseminada, principalmente porque não se tem notícia, até então, de qualquer pesticida com tamanha capacidade exterminadora.

No rastro dos 300, que Lula incoerentemente trata de acordo com o próprio interesse, é preciso lembrar os precisos e poéticos versos de Mário de Andrade, que no poema “EU SOU TREZENTOS” sabiamente escreveu “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta / As sensações renascem de si mesmas sem repouso…”.

Se certo estava o genial Mário de Andrade, ao escrever que as sensações renascem de si mesmas, é preciso admitir que o clima que impera em Brasília superou, e muito, o que precedeu o impeachment de Fernando Collor de Mello, ejetado do poder por estripulias bem menores das que ora protagoniza o PT, em conluio com seus aliados. Ou seja, a sensação da era Collor renasceu no governo do PT e do presidente Lula.

Não bastasse a perseguição dos 300, Lula tem de enfrentar, a partir de hoje, as acusações que pairam sobre o caixa forte do Partido dos Trabalhadores, Delúbio Soares, que de acordo com as declarações do nada insurreito Roberto Jefferson pagava mesada de R$ 30 mil aos aliados do Palácio do Planalto no Congresso Nacional.

E para os que faltaram aos ensinamentos escolares de aritmética, ao se multiplicar 300 por 100, chega-se ao surpreendente resultado de 30 mil. Em outras palavras, “300” é para Lula e seus irrequietos discípulos o mesmo que o “13” representa para a turma que acha que gato preto e passar sob uma escada dá azar.

Autor do livro Desobediência Civil, conjunto de princípios e argumentos que defendia a desobediência às leis políticas em épocas de desmandos e desonra política, Henry Thoreau errou ao dizer que “o melhor governo é o que menos governa”, pois o PT do presidente Lula não governa e está anos-luz de distância de uma mínima e irrisória condição de excelência.

Porém, Thoreau acertou em cheio ao afirmar que “uma minoria só é impotente quando se amolda à maioria”, pois o que o PT fez com maestria foi se amoldar de forma escandalosa e surpreendente, pelo menos para seus incautos eleitores, às mazelas sistemáticas que por décadas a fio rechearam a vermelhidão oposicionista capitaneada por Lula e seus companheiros.

A pergunta que mais se faz atualmente versa sobre o que é preciso fazer para virar o jogo político no Brasil, mas poucos de fato sabem responder. Seria cômico se não fosse trágico, ver o Brasil ser passado a limpo pelos mesmos que transitaram com arrogância e desenvoltura na era FHC, por conta das trapalhadas que os “colloridos” insistem em repetir em tempos “lulianos”.

Se a trepidante Leila Diniz estivesse viva, Lula teria de enfrentar uma das mais charmosas e viperinas inimigas, pois, para a musa que chacoalhou o Brasil em sua época, homem tinha que ser durão, que Erasmo e Roberto Carlos cantaram em Coqueiro Verde.

E como o presidente Lula é um “fracote” declarado, ter conquistado a irreversibilidade da decadência num piscar de olhos foi um reles prêmio que apenas chegou antes da hora marcada.

Ucho Haddad, 46, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira [www.wanderleynogueira.com.br], do ABC Digital [www.digitalabc.com.br] e do Sanatório da Imprensa [www.sanatoriodaimprensa.com.br].

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