Opinião

Venezuela quer importar todo o etanol do Brasil
01/05/2007
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07/05/2007

Lula ataca falso moralismo para comprar embaixadas

Lula ataca falso moralismo para comprar embaixadas

Discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de formatura dos novos diplomatas

Meu querido companheiro Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores,

Meu querido companheiro Waldir Pires, ministro da Defesa,

Minha querida Nilcéa Freire, secretária especial das Mulheres,

Minha querida companheira Marisa,

Nossa querida Ana Amorim,

Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral das Relações Exteriores,

Embaixador Fernando Reis, diretor do Instituto Rio Branco,

Senhora Sarah Walker, paraninfo da turma 2004/2006,

Minha cara oradora, secretária Daniela Matos de Araújo,

Meus queridos embaixadores,

Meus caros formandos do Instituto Rio Branco,

Meus amigos e minhas amigas,

Minhas primeiras palavras são de saudação aos jovens que hoje iniciam uma nova etapa de suas vidas no serviço exterior brasileiro.

Recebam igualmente minhas felicitações, os pais, parentes e amigos que aqui se encontram para esta celebração.

Em pronunciamento que fiz logo após as eleições, no ano passado, afirmei que havíamos lançado, nos quatro anos anteriores, as fundações para que o Brasil avançasse na superação das vulnerabilidades que retardaram o nosso desenvolvimento econômico e emancipação social.

Queremos uma política externa que seja a cara deste Brasil. O Brasil democrático que estamos construindo, que seja mais do que uma forma de projeção nossa no mundo, que seja, também, um elemento consubstancial de nosso projeto nacional de desenvolvimento.

Para tanto, estamos sempre dispostos a ouvir, mas também queremos ser escutados. Temos que ocupar o lugar que nos cabe no mundo, na defesa dos interesses nacionais.

É preciso engajamento e altivez, mas também respeito pelos outros países, sejam eles pequenos ou grandes, ricos ou pobres. Humildade não é fraqueza, solidariedade não é sinônimo de ingenuidade. Para ser solidário é preciso ter firmeza e acreditar no que defendemos.

Hoje, o Brasil transita em qualquer fórum sem buscar confrontos, mas sem medo de discordar. Conversamos com todos de igual para igual, afinal, recuperamos a nossa auto-estima.

Vocês, que hoje formalizam a entrada no Ministério das Relações Exteriores, herdarão a responsabilidade de fazer, da nossa função diplomática, a projeção no plano internacional dessas profundas transformações e aspirações em curso na sociedade brasileira.

Caros formandos,

O Dia do Diplomata deste ano é uma boa ocasião para avaliar os resultados de nossa política externa. Conseguimos realizar muitas coisas, a começar pela América do Sul, nossa maior prioridade. E o resultado: o comércio aumentou enormemente. Nossa região absorve hoje mais exportações brasileiras do que os Estados Unidos.

As obras de infra-estrutura física se multiplicam criando uma malha de conexões energéticas, viárias e de comunicações. Lançamos a Comunidade Sul-Americana de Nações, que será consolidada com um acordo constitutivo da União Sul-Americana. Caminhamos para a formação de uma cidadania sul-americana diplomática e pluralista.

O Mercosul se expandiu com o ingresso da Venezuela. Criamos o Focem, cujos primeiros projetos já estão em andamento e vão beneficiar os sócios menores do bloco. Instalamos um parlamento que tornará o Mercosul mais próximo do cidadão e mais atento às necessidades e expectativas de nossas populações.

Fortalecemos nossa aliança com a Argentina. As relações que mantemos com os nossos vizinhos nunca foram tão densas e intensas. Não foi fácil superar décadas de distanciamento entre nós. O processo de integração pode ser às vezes turbulento, mas é indispensável.

Não há outro caminho para a América do Sul que não seja o da construção de um espaço econômico, político e social integrado. Estamos construindo um projeto de longo prazo, que dependerá do empenho desta e das futuras gerações. Não podemos nos render aos interesses imediatistas ou às dificuldades conjunturais, mas a integração não pode ser assimétrica.

Ela só será efetiva se tivermos a ousaria de buscar soluções que atendam aos objetivos de todos, especialmente para os menos favorecidos, afinal de contas, isso é o que estamos fazendo no nosso próprio País.

Estamos alargando a nossa ação diplomática na América Latina e no Caribe, na África e nos países árabes. Assumimos um papel de liderança na missão de paz da ONU no Haiti e, juntamente com os nossos parceiros da região, queremos oferecer um novo paradigma de solidariedade na reconstrução de um país irmão.

Com a África do Sul e a Índia criamos um foro inovador de diálogo político e cooperação trilateral, o Ibas. Somos três grandes democracias, três sociedades multiétnicas e multiculturais de três continentes diferentes.

Estou empenhado na retomada das relações com a África, continente no qual visitei 17 países. Era inconcebível que o Brasil, por sua história e por sua cultura, tivesse virado as costas para nossos irmãos africanos. Fui o primeiro presidente da República a visitar oficialmente o Oriente Médio. Esses movimentos de reencontro estão sendo feitos em parceria com toda a América do Sul.

Em 2005, o Brasil sediou a Cúpula América do Sul – Países Árabes, enquanto a Nigéria realizou, em 2006, a primeira Cúpula África – América do Sul. Estamos criando canais de diálogo direto com nações distantes para identificar oportunidades de comércio e de investimento que permitam aos nossos países explorar as possibilidades da economia global.

Pouco a pouco vamos criando uma identidade para o continente sul-americano, que favorece a projeção de uma nova imagem para a nossa região em todo o mundo.

A cooperação Sul/Sul ajuda a construir uma nova geografia econômica mundial, não excludente, genuinamente global, que se funda em parcerias para promover a paz, a justiça e o desenvolvimento integral de todos os povos. Essa orientação não nos afastou dos países desenvolvidos.

Pelo contrário, fortaleceu nossa capacidade de interlocução com eles. Cada vez mais somos procurados para expressar nossas opiniões e para trabalhar em iniciativas conjuntas.

É esse o sentido do convite para que o Brasil volte, pela quarta vez, a participar este ano, na Alemanha, da Cúpula Ampliada do G-8, com as principais economias emergentes. Os países ricos sabem que não se pode falar em governança global sem a participação de países em desenvolvimento nas instâncias decisórias mundiais.

Não tenho dúvidas de que a nossa ação internacional contribuiu para reforçar a consciência de que a inclusão das grandes nações do Sul nesse diálogo não é apenas saudável, mas indispensável.

Nosso diálogo com os Estados Unidos vai muito além dos biocombustíveis. Em São Paulo e em Camp David, discuti com o presidente Bush projetos para revigorar as relações bilaterais e iniciativas de cooperação com terceiros países, além dos grandes temas multilaterais.

Com a Europa temos uma relação diversificada que desejamos aprofundar, com o estabelecimento de um mecanismo de diálogo de alto nível, estratégico, por ocasião de minha próxima visita a Bruxelas.

Pretendo relançar as negociações para um acordo de Associação Mercosul – União Européia, tão logo seja concluída a rodada de Doha. No ano que vem, vamos comemorar 100 anos da integração japonesa no Brasil. Estamos amadurecendo diversos projetos que vão do etanol à TV Digital, que espelham o quanto os nossos dois povos podem alcançar juntos.

Minhas senhoras e meus senhores,

O Brasil justo e solidário que estamos construindo dificilmente prosperará num ambiente internacional marcado por uma globalização desigual e arbitrária. Na ONU, entendemos que a expansão do Conselho de Segurança deve acontecer logo para torná-lo mais representativo e legítimo.

Graças, em parte, ao G4, a reforma do Conselho já não parece tão distante. Na OMC, por meio do G20, fomos capazes de articular aspirações diferentes de países em desenvolvimento em torno de uma agenda comum. Apesar do ceticismo inicial, a atuação construtiva do grupo é agora amplamente reconhecida.

O G20 está no centro das negociações da Rodada de Doha, que esperamos concluir com êxito o quanto antes. Isso ajudará a reduzir a fome e a pobreza no mundo, uma bandeira que desde 2003 tenho levado comigo e que hoje se incorporou definitivamente à agenda internacional.

Foi essa a razão que nos levou a lançar, com outros países, a Ação Internacional Contra a Fome e a Pobreza, que desenvolve hoje iniciativas concretas.

Meus caros formandos,

O projeto que traçamos é de longo prazo, dependerá do empenho desta e de futuras gerações. Não há outro caminho para o Brasil e para a América do Sul, fora a construção de um espaço economicamente integrado e socialmente solidário.

Por esta razão, o Mercosul continua sendo o principal eixo de nossa estratégia de inserção regional. Mas a realidade internacional está sempre mudando. Precisamos, por isso, estar preparados para o novo.

Devemos ter uma cooperação mais ativa entre os chamados Brics. O Brasil precisa, também, se aproximar da Ásia, a região do mundo que mais cresce. Com a China, a Índia e o Japão já temos parcerias adiantadas. O Sudeste asiático é uma fronteira que temos que desbravar melhor.

Em agosto sediaremos a terceira reunião ministerial do Fórum de Cooperação América Latina x Ásia do Leste, conhecido como Focalal. Aproveitaremos para promover contatos do Mercosul com a Ásia. No campo das mudanças climáticas, é inadmissível que as populações dos países pobres sejam as principais vítimas do aquecimento global causado pelos países industrializados.

A aposta brasileira nos biocombustíveis faz parte de nossa atuação diplomática. Oferece ao mundo alternativas para a dependência em relação aos combustíveis fósseis não-renováveis e não disponíveis que aflige a maioria dos países do mundo.

É uma fonte de energia que queremos difundir de maneira solidária, em benefício de todos mas, sobretudo, das regiões mais carentes do nosso Planeta.

Além de reduzir as emissões de gases poluentes, os biocombustíveis têm grande potencial para a geração de renda e de riqueza na agricultura dos países em desenvolvimento, sem comprometer sua segurança alimentar.

Favorecem a cooperação ao projetar, no campo internacional, uma experiência nacional bem-sucedida. Refletem, por fim, um compromisso central do meu governo, do crescimento com eqüidade para todos.

Queridos formandos,

Somente poderemos concretizar nossas ambições como indivíduos e como nação se tivermos a coragem de romper, sem preconceitos, com padrões ultrapassados. Essa é a boa tradição do Itamaraty. Faz parte, também, da boa tradição desta Casa, o respeito a valores universais como a paz, a defesa do direito internacional, dos direitos humanos e do multilateralismo.

A tarefa diplomática está cheia de desafios, de incertezas, de momentos de solidão. Em quaisquer circunstâncias, o trabalho de vocês sempre será facilitado pela fidelidade aos princípios universais de que é feita a nossa diplomacia e pelo compromisso maior de todos vocês com o país que representam no mundo, o nosso querido Brasil.

Tenho certeza de que vocês estarão à altura desse grande desafio. Vocês já deram uma demonstração de que estão afinados com essa visão renovadora ao escolher, como patrono da turma, a primeira mulher a ingressar no Itamaraty, Maria José de Castro Rabelo Mendes.

Os formandos dessa turma, assim como todos os diplomatas desta Casa, têm a elevada missão de dar sentido concreto às aspirações nacionais no plano internacional. Assumiram o compromisso com o Brasil, e a nação conta com vocês.

Meus amigos e minhas amigas,

Eu agora queria falar um pouco do que aprendi nesses quatro anos como presidente, nas viagens que fiz, e o que espero dos nossos diplomatas. Eu penso que, durante muito tempo, nós mesmos aprendemos que deveríamos ter relações privilegiadas com determinados países e não tão privilegiadas com outros países.

Quando o Brasil cresce economicamente, enquanto o Brasil se fortalece politicamente, é importante que cada companheiro ou companheira, diplomata brasileiro, tenha consciência de que quanto maior for a inserção do País no mundo, mais aumenta a responsabilidade de vocês.

Quando vocês chegarem em um país qualquer como embaixadores e o Brasil estiver politicamente reconhecido no mundo, estejam certos de que a embaixada brasileira se tornará ponto de encontro para discussões de políticas globais, o que durante muito tempo não foi feito porque o Brasil tinha assumido a responsabilidade de agir como se fosse um país pequeno.

E quanto mais um país for representativo, mais solidariedade e mais humildade. Solidariedade, sabendo que nós temos que ter política para ajudar os países menores, e humildade para tratar os pequenos com a mesma grandeza com que tratamos os países grandes.

A mim não importa que tenhamos um embaixador em São Tomé e Príncipe e um embaixador em Nova Iorque, a mim importa que, independentemente do continente em que estejam, independentemente da sua população ou do seu PIB, a diplomacia brasileira precisa tratá-los em igualdade de condições, levando em conta, obviamente, as diferenças do que está sendo negociado.

Eu disse, na última vez em que estive aqui no ano passado, e vou repetir agora: talvez Celso, não sei se você, o Samuel ou outro embaixador mais experiente, têm a dimensão de como o Brasil é visto no mundo hoje.

Eu levo como imagem a construção do G-20, eu levo como imagem o resultado da reunião de Cancun, em que não faltaram ao Brasil aqueles que tentaram passar a idéia do fracasso da diplomacia brasileira quando se construiu o G-20.

Num primeiro momento, alguns países que entraram no G-20 em Cancun se afastaram logo, porque receberam pressão para se afastar.

Num segundo momento, não só esses países que tinham se afastado voltaram, como o G-20 hoje é condição fundamental para qualquer grande acordo internacional, não apenas por mérito brasileiro, mas porque o Brasil participa do G-20 com ações que representam mais da metade da população mundial.

São países que têm importância econômica no mundo, têm importância militar, têm importância tecnológica e têm, sobretudo, importância política no mundo.

Vocês, assumindo a diplomacia brasileira, irão perceber e precisarão fazer mais sacrifícios do que outros embaixadores fizeram em outra época, porque certamente terão muito mais trabalho do que já tiveram outros embaixadores. Mas, de qualquer forma, vocês também irão perceber logo no início que serão levados em conta muito mais rapidamente do que outros foram em outra época.

Sabem por quê? Eu dei um conselho da outra vez e vou dar outro: nunca aceitem a submissão, nunca aceitem que alguém fale mais grosso que vocês. Pode-se falar mais grosso por falta de educação, aí a gente não tem que se igualar, mas em se tratando de política, em se tratando de diplomacia, nós não somos nem maiores, nem menores que ninguém, nem mais, nem menos importantes.

Nós somos, antes de tudo, brasileiros e brasileiras a serviço do nosso País. Queremos respeitar todo mundo, mas queremos ser respeitados e queremos, ao mesmo tempo, fazer com que a voz desta nação seja ouvida em todos os quadrantes do mundo.

Por isso, meus parabéns mais uma vez. Vocês, agora, vão colocar a mão no fogo para valer. Eu lembro que quando discuti com o Celso Amorim a necessidade de ampliar o quadro de funcionários do Itamaraty, de levar embaixadas brasileiras para os países, se pudermos levar para todos, porque essa é uma forma de você aumentar a sua inserção nesse mundo globalizado.

Não é você ter 30 embaixadores disputando para ver quem vai para Washington, quem vai para Paris, e não ter nenhum querendo ir para São Tomé e Príncipe ou para outro país menor economicamente e do ponto de vista populacional. Nós temos que ir para todos os países.

E eu ainda sonho mais, Celso, eu acho que nós vamos ter que retomar a política que este País já teve, de comprar as nossas embaixadas, porque no passado… quando a gente viaja hoje para a Argentina ou viaja para outro país qualquer e encontra a embaixada brasileira, é motivo de orgulho, porque há algum tempo atrás alguém teve a coragem de comprar aquilo, porque significava o Brasil fincando o pé ali definitivamente.

Ninguém vai reconhecer uma embaixada que muda a cada dois anos, a cada três anos, a cada quatro anos, ou seja, as pessoas desabituam a ver a bandeira nacional. É importante que a embaixada brasileira seja uma marca na cidade e no país em que nós estamos.

Eu digo isso porque Getúlio Vargas teve coragem de comprar quase todas as embaixadas que nós temos. De uns tempos para cá, nós passamos a alugar. E a gente vai perceber que depois de dez anos pagando aluguel, a gente pagou o preço da embaixada que poderia ser nossa.

Eu não sei qual é o falso moralismo ou qual é a implicância de que um país como o Brasil não pode comprar embaixada lá fora.

Eu acho que nós precisamos voltar a discutir. Eu, por exemplo, tomei conhecimento do caso da Alemanha, um prédio que a gente já poderia ter pago, se tivéssemos comprado, mas por conta não sei do quê, estamos até hoje pagando aluguel.

E vamos pagar aluguel, porque não é propriedade nossa. Comprar os nossos próprios, nos países estrangeiros, é uma demonstração de que a gente está naquele país definitivamente, com marca registrada: a cara do Brasil, a bandeira do Brasil, a casa do Brasil.

Boa sorte.

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