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31/03/2006
Comércio Exterior
31/03/2006

Comércio Exterior

Lula avalia execução da Política Externa brasileira

Luiz Inácio Lula da Silva

Toda vez que eu venho aqui eu sou o último a falar. Eu ouço o Furlan, ouço o Paulo Skaf, ouço outros convidados e vou percebendo que cada um vai falando um pouco das coisas que estão no meu discurso escrito.

Toda vez que eu chego aqui eu me deparo com a dificuldade de ler um discurso que já foi lido em parte e que vai tornando vocês mais cansados, prestando menos atenção ao que a pessoa está falando, e saindo do Brasil com uma má impressão do Brasil.

Se um líder empresarial pôde vir aqui fazer um discurso de improviso, como Confindústria, por que eu não posso, como político, falar no meu improviso?

Na verdade, eu não queria e não quero fazer um discurso. Eu quero fazer uma conversa com vocês. Uma conversa de um dirigente de uma nação que compreende que só falta uma definição para que nós saiamos da eternidade de ser um país emergente, para nos transformarmos numa grande nação.

E o que falta somos nós, brasileiros e brasileiras, acreditarmos que esse passo depende única e exclusivamente de nós. Não depende de ninguém, depende de nós.

E vou dizer o porquê. Logo que eu resolvi ser candidato a presidente da República, em 2002, eu disse a vocês, eu disse aqui, disse na CNI, numa grande reunião, que eu tinha o desejo de criar uma Secretaria Especial de Comércio Exterior que tivesse um ministro como se fosse um mascate.

Aquele mascate que sai de manhã com pacotes de produtos embaixo do braço, que anda batendo palma de casa em casa e que volta à noite, sem nenhum dinheiro, mas com um monte de recibos de dinheiro para o futuro.

Por coincidência foi aqui, nesta casa, que eu encontrei o companheiro Furlan. Depois de conversar com o Furlan um tempo eu falei: puxa vida, como Deus é generoso comigo. Me deu um ministro e um mascate ao mesmo tempo. Então, eu penso que a gente vai conseguir fazer negócio.

A primeira viagem que eu fiz, de grande impacto, foi à Espanha, tivemos uma reunião com os empresários, eu ousei desafiar os empresários brasileiros a não terem medo de ser empresários multinacionais.

Para minha surpresa, alguns setores da imprensa brasileira viram aquilo como uma crítica, dizendo que eu estava criticando os empresários brasileiros, quando eu estava desafiando os empresários brasileiros a não terem medo de virar empresários multinacionais.

Depois, eu fiz alguns desafios em várias outras federações das indústrias no Brasil e dentro da sede da CNI, de que era preciso que nós definíssemos uma estratégia para saber quais os mercados que o Brasil iria querer disputar, com quem iríamos disputar e que nós saíssemos para cativar esse mercado.

Quando fomos aos Países Árabes e gastamos lá, por volta de 500 mil dólares, num processo de promoção que culminava com uma Semana Brasileira nos Países Árabes, ao invés de as pessoas esperarem o resultado daquilo que nós estávamos fazendo, as pessoas criticavam os 500 mil dólares sem saber quantos 500 mil dólares nós íamos ganhar por conta daquele evento.

E o resultado é que na trajetória de todas as caminhadas que nós fizemos, ou antes da minha chegada, nós tínhamos tido grupo de empresários viajando, ou tínhamos grupos de empresários viajando conosco ou depois, da nossa volta, um grupo de empresários, ora com o Furlan, ora com o Roberto Rodrigues, ora com o Celso Amorim, visitando aqueles países e aquela região.

E nós fomos nos apresentando ao mundo com a nossa cara, com o nosso jeito, e fomos percebendo que tínhamos um espaço enorme para crescer. Eu fui a Angola, fui a muitos países africanos, e muita gente no Brasil fala: “mas o Presidente, viajando para a África? O Presidente teria que viajar para a Itália, para a Alemanha, mas para a África?”

E quando eu chegava em um país desses e via um carro japonês – nada contra o carro japonês – eu perguntava: puxa vida, não poderia ser um carro japonês produzido no Brasil, com mão-de-obra brasileira, ou um carro italiano, ou um carro francês? Nós estamos tão próximos.

Temos uma identidade com muitos e muitos países, o que está faltando? Na verdade, nós tínhamos lá, também, o comprador do carro, o que faltava era o Brasil se apresentar e dizer: “eu vim aqui para vender carro, eu quero competir”.

E fazer a disputa política neste mundo em que ninguém dá nada a ninguém, neste mundo globalizado, onde cada palavra, cada gesto vale um bom negócio ou um bom fracasso.

Da mesma forma, meu caro Montezemolo, eu fui criticado porque tomei a decisão de reconhecer a China como economia de mercado. E tomei essa decisão porque tenho consciência de que, ou nós colocamos a China no âmbito da OMC e passamos a envolvê-la nas discussões que faz o resto do mundo, ou nós deixamos a China de lado e ela vai ocupando os espaços que ocupa sem pedir licença a quem quer que seja.

É preciso, portanto, colocá-los dentro dos foros em que nós decidimos as nossas coisas para que a gente possa comprometê-los como queremos comprometer todos os países e a nós mesmos, brasileiros, porque se não for a discussão nos foros internacionais que nós criamos, a coisa começa a acontecer em paralelo às decisões que nós fazemos.

E hoje, no mundo dos negócios, nós temos duas grandes novidades que temos que levar a sério: de um lado, a China, de outro lado, a Índia. Juntos, são quase 2 bilhões e 400 milhões de habitantes, mais de um terço da população mundial que, nos últimos 20 anos, deixaram de ser marginais da Humanidade e passaram a ocupar um espaço importante, a ponto de ser um presidente americano que restabeleceu, não apenas a relação com a China, mas reconheceu a China como parceiro preferencial e estratégico dos Estados Unidos.

O que nós estamos fazendo aqui? Neste momento em que recebemos a visita do ministro da Itália, de uma delegação importante de empresários da Itália chefiada pela Confindustria, que se encontram com um conjunto importante de empresários brasileiros, o que nós queremos fazer, concretamente?

Apenas estabelecer um acordo entre alguma empresa brasileira ou alguma empresa italiana, ou nós temos que pensar um pouco maior e pensar do ponto de vista estratégico o que nós queremos, enquanto empresários italianos e empresários brasileiros, produzir de efeito no mundo da indústria e no mundo dos negócios nos próximos 15 ou 20 anos, porque se são 60 milhões de habitantes, e se somos quase 190 milhões de habitantes, se somado o nosso potencial tecnológico, se somado o potencial do nosso PIB, nós teremos muito mais força para negociar em qualquer foro internacional.

E nós temos que ousar dizer, claramente, o seguinte: se nós, brasileiros, fomos tão generosos no século XIX para receber, não investidores, mas pobres italianos que vinham a este canto do mundo à procura de uma oportunidade que lhes faltava na Itália, e aqui foram tão bem recebidos e construíram o patrimônio que construíram neste país, cultural, econômico, político, nós, agora, não temos que fazer mais do que fizemos naquela época.

Nós temos que dizer aos empresários italianos que, da mesma forma, que os nossos irmãos brasileiros, no século XIX, receberam os italianos aqui de braços abertos, nós, no século XXI, no começo de um novo século, estaremos recebendo vocês de braços abertos para dizer a vocês que queremos construir uma parceria de longo prazo, queremos que as empresas brasileiras cresçam junto com as empresas italianas, queremos que empresas italianas e brasileiras ganhem mercados internacionais, queremos disputar, juntos, parcelas de mercado em outras partes do mundo em parceria com a Itália. Tudo isso pode ser construído se houver disposição de construir.

O Brasil, e eu posso dizer isso aos empresários italianos, vive hoje um momento auspicioso da sua vida. Obviamente que temos muitas deficiências ainda, mas podem procurar qualquer analista econômico, e nós vamos poder lhes afirmar que em poucos momentos da história do Brasil nós tivemos uma posição tão sólida como nós temos hoje.

Primeiro, porque não est

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