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09/03/2006
Programa Nuclear
10/03/2006

Programa Nuclear

Lula não garante construção de usinas nucleares

Embora o tema suscite uma polêmica mal resolvida dentro do governo, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, anunciou em Londres, que o Brasil tem um plano para instalar sete usinas atômicas nos próximos 15 anos.

Em maio de 2004, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a China, quando o então ministro da Ciência e Tecnologia, deputado Eduardo Campos [atual presidente do PSB], destacou o interesse chinês na compra do urânio enriquecido do Brasil. O país acabava de anunciar o domínio do ciclo de enriquecimento de urânio.

Ao retornar dessa viagem, o presidente Lula teria encomendado um estudo sobre o Programa Nuclear Brasileiro à Comissão Nacional de Energia Nuclear [CNEN], às Indústrias Nucleares do Brasil [INP], à Nuclep e à Marinha. O documento com o título de “Revisão do Programa Nuclear Brasileiro”, já teria sido entregue ao presidente.

No entaanto, o presidente preferiu adotar a prudência. Lula não quer problemas com a AIEA ou os Estados Unidos. Após encontro com o primeiro-ministro britânico, ele afirmou que o governo não se decidiu.

“Discutimos tecnicamente todas as possibilidades para que o Brasil seja detentor definitivo de produção de energia que deixe o país tranqüilo hoje e no futuro. Não vamos deixar de discutir a questão da energia nuclear, que é um tema sempre importante e em algum momento poderemos precisar. Mas, quando o governo decidir, isso vai passar pela minha mesa e vocês vão saber”.

O estudo analisaria os cenários sobre a geração de energia, o ciclo do combustível, outras aplicações [saúde, agricultura] e o grau de dependência de importação de tecnologia.

A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, [ex-ministra de Minas e Energia], sempre foi contra o projeto. Além de Angra 3, bombardeada pela ministra, o governo estaria trabalhando para instalar outras duas usinas no Nordeste.

Sergio Rezende afirmou que o Plano Nacional de Energia Nuclear, resultado dessa revisão, deverá ser aprovado pelo governo até o final de julho. Pelo projeto, após a conclusão de Angra 3, o governo partiria para a construção de uma usina nuclear a cada três anos.

De acordo com Rezende, o país pretende ampliar para 5% a participação da energia nuclear em sua matriz energética. Hoje, essa participação oscila entre 1% e 2%.

Ele revelou que as usinas nucleares no Nordeste serão construídas às margens do Rio São Francisco. “As águas do rio podem ser usadas para refrigerar um sistema de usinas nucleares de menor porte”, explicou Rezende.

Conselho Nacional de Política Energética

Apesar de o governo ainda não ter-se decidido, o plano terá de ser submetido ao Conselho Nacional de Política Energética, do qual participam, entre outros, a ministra Dilma Roussef e o presidente da República. Aprovado, será encaminhado para apreciação do Congresso Nacional.

Para Sérgio Rezende, é preciso encarar as polêmicas e derrubar os tabus. Ele acredita que o renascimento da energia nuclear em termos globais, com a construção de novas usinas, vai baratear o custo da tecnologia.

Seguindo a linha defendida pela ministra Dilma Roussef, o ministério de Minas e Energia prefere apostar no uso da energia hidráulica por ser mais barata e menos arriscada.

O ex-ministro e deputado cassado José Dirceu, bem que tentou acelerar o processo de ampliação do uso da energia nuclear e do enriquecimento de urânio, mas acabou esbarrando na atual sucessora.

Ele chegou a conversar com a Secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice sobre o assunto. Atualmente, o Brasil utiliza urânio enriquecido no exterior para abastecer as usinas de Angra.

Conselho de Segurança da ONU

Sérgio Rezende explicou que em abril, a usina de Resende [RJ], começa a produzir urânio enriquecido em escala industrial. Até 2010, o urânio produzido pelas Indústrias Nucleares do Brasil [INB] deverá suprir 60% das demandas das usinas de Angra [1 e 2].

Mas não é apenas dentro do governo que estão às vozes contrárias ao projeto. O ex-ministro da Ciência e Tecnologia, o físico José Goldemberg afirma que o custo das sete usinas pretendidas pelo governo ultrapassará os US$ 15 bilhões.

Atualmente à frente da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, Goldemberg faz coro com a ministra da Casa Civil. Para ambos, existem opções energéticas, mais baratas e seguras. Entre essas fontes, Goldemberg destacou o uso do gás natural e a produção de energia elétrica com bagaço de cana.

Segundo Goldemberg, “o parque elétrico brasileiro atingirá 100 mil MW dentro de alguns anos. A contribuição nuclear, necessariamente, vai ser reduzida. Há duas usinas funcionando, e se Angra 3 for concluída, teremos cerca de 3 mil MW de energia nuclear, uma contribuição de 3%”, argumentou.

Ele discordou do ministro, afirmando que a energia nuclear não está mais barata. Além disso, explicou cada usina leva pelo menos sete anos para ser construída. ”Os reatores estão mais complexos por questões de segurança. Em alguns casos, o preço até aumentou”, concluiu Goldemberg.

Só Angra 2 já consumiu algo em torno de US$ 6 bilhões. O Brasil tem como ponto favorável o fato de possuir a sexta maior reserva mundial de urânio do mundo [cerca de 300 mil toneladas]. Além disso, dois terços do território permanecem inexplorados quanto à presença do metal.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica [AIEA], no final de 1998 havia 434 usinas nucleares em 32 países e 36 unidades sendo construídas em 15 países.

Além disso, ao investir pesado nesta tecnologia, o país estaria pavimentando sua política de obtenção de um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao entrar para o clube de países que detêm tecnologia atômica.

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