Relações Exteriores

África
10/02/2006
Universidade de Brasília
11/02/2006

Conselho de Segurança

Lula pede apoio da Argélia para reforma da ONU

Agradeço ao querido amigo Bouteflika as tantas mostras de atenção e carinho dispensadas na minha chegada a Argel. Sua saudação, em particular, expressa a amizade que nos une. Simboliza os profundos laços que aproximam argelinos e brasileiros.

Desde os primeiros dias da heróica luta pela independência deste país, o povo brasileiro aprendeu a admirar uma Nação determinada a tomar seu destino nas próprias mãos. Admiração que só fez crescer diante da generosidade da Argélia ao acolher brasileiros perseguidos durante os tempos sombrios da repressão e autoritarismo que meu país atravessou. Relembro aqui, em particular, e com gratidão, a acolhida que a Argélia deu a este grande brasileiro que foi Miguel Arraes.

Amigo Presidente,

O retorno de Vossa Excelência, em plena saúde, à frente da Nação é garantia de que a Argélia continuará a desempenhar um papel central na política internacional, que continuará sendo referência obrigatória na luta dos povos pelo desenvolvimento e pela soberania.

Suas qualidades pessoais estiveram à mostra durante a visita de Estado que fez ao Brasil, em maio último, e que tenho hoje orgulho em retribuir. Marcaram sua atuação na Cúpula Árabe-Sul-Americana, que tive o privilégio de co-presidir a seu lado. Pudemos contar com sua visão de estadista nesses dois grandes momentos que marcaram o relançamento das relações Argélia-Brasil.

A Cúpula Árabe-Sul Americana foi uma iniciativa pioneira e ousada. Ela afiançou nossa vontade coletiva de transformar uma longa história de convivência em uma aliança entre blocos decididos a forjar seu lugar num mundo mais justo e solidário.

Temos a convicção coletiva de que o diálogo e o conhecimento mútuo são nossas principais armas para aproximar regiões, superar diferenças e unir gentes.

Num momento em que o Mundo Árabe e a América do Sul vivem etapa decisiva na construção da democracia e na conquista do desenvolvimento, a comunidade internacional tem seus olhos voltados para nossas regiões. Por essa razão, é fundamental a parceira entre a Argélia e o Brasil.

A visita de Vossa Excelência ao Brasil motivou propostas e oportunidades concretas de cooperação que expressam o potencial de povos desejosos de se conhecer melhor e explorar complementaridades.

Em sua visita ao Brasil, Vossa Excelência viu um país que avança no caminho da maturidade política e da abertura econômica com estabilidade, credibilidade e confiança.

Um Brasil que tem o compromisso de conferir ao Estado a responsabilidade de promover as melhorias sociais e regionais, removendo obstáculos que ainda retardam nosso progresso rumo ao bem-estar coletivo. Um Brasil engajado na articulação de coalizões internacionais para promover os interesses dos necessitados e marginalizados.

Argélia e Brasil têm uma agenda comum: o combate à fome e à pobreza, a reforma das Nações Unidas, a cooperação Sul-Sul. Essa parceria é fundamental para revalorizar o multilateralismo. Queremos que nossa voz coletiva seja mais forte na arena mundial, que seja mais efetiva nossa participação nas organizações e nos processos internacionais de tomada de decisão.

Temos uma contribuição a dar na construção de um mundo mais estável e solidário, engajado na superação das causas reais dos conflitos e da desesperança em que está mergulhada parte da humanidade.

Senhor Presidente,

Não cremos em conflitos de civilizações. Cremos, isto sim, na tolerância e na justiça social, nos planos interno e internacional. Cremos na igualdade de oportunidades, no respeito à autodeterminação dos povos e na solução pacífica dos conflitos.

O terrorismo é um mal que deve ser combatido com energia e tenacidade. Mas povos livres, bem alimentados, senhores dos seus destinos não terão por que recorrer ao terrorismo.

Temos que convencer os demais líderes do nosso mundo que é mais barato e mais eficaz combater a pobreza e as injustiças do que construir arsenais milionários, que apenas agravam a insegurança.

Temos que construir nosso futuro comum não com base no medo, mas na esperança. Por meio do G-20, no âmbito da OMC, onde esperamos brevemente acolher a Argélia, lutamos por um comércio internacional livre do protecionismo agrícola, que nega aos trabalhadores dos países mais pobres o direito de viver dignamente.

Nas Nações Unidas, devemos juntar esforços para fazer valer as aspirações dos países em desenvolvimento a uma participação mais igualitária nos principais foros da Organização, como o Conselho de Segurança e a Comissão de Construção da Paz.

O apoio da Argélia à iniciativa brasileira “Ação contra a Fome e a Pobreza” reforçou minha convicção de que é possível mobilizar os recursos necessários à erradicação dos bolsões de fome e de pobreza que ainda afligem milhões ao redor do mundo.

Na reunião que teremos neste mês, em Paris, aprovaremos propostas concretas capazes de assegurar recursos adicionais em bases estáveis e previsíveis para os mais necessitados, sobretudo na África.

Argélia e Brasil estão decididos a colaborar, cada vez mais, em favor do desenvolvimento desse Continente que faz parte da identidade argelina e da alma brasileira.

A Argélia que eu visito hoje é um país que renasceu para o mundo, graças ao esforço e à determinação da sua liderança e, em particular, do seu Presidente. País africano, árabe e mediterrâneo, a Argélia ganhou a admiração e o respeito de seus parceiros ao pacificar-se, ao voltar a ter uma ativa política internacional e regional e ao engajar-se em um amplo programa de reformas políticas e econômicas.

Vossa Excelência tem sido um incansável promotor dessas reformas, da reinserção plena da Argélia na comunidade internacional e da pacificação interna. O povo argelino expressou, no referendo de setembro último sobre a “Carta para a Paz e a Reconciliação Nacional”, seu apego à convivência pacífica e democrática, repudiando a violência e o terrorismo.

A parceria entre Argélia e Brasil tem sólidas fundações. Nosso comércio bilateral alcançou, em 2005, três bilhões e duzentos milhões de dólares. Argélia é nosso primeiro parceiro árabe, o segundo africano e o sétimo entre os países em desenvolvimento. É também nosso primeiro fornecedor de petróleo e nafta.

O Brasil é o sexto cliente da Argélia e, no comércio global, seu primeiro parceiro dentre os países em desenvolvimento. Esse relacionamento pode aprimorar-se e expandir-se, conforme ficou patente durante a recente missão chefiada por meus Ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e de Minas e Energia.

O Brasil oferece condições de competitividade e oportunidades de cooperação com transferência de tecnologia. Abrem-se oportunidades para empresários brasileiros engajarem-se em projetos decisivos para o desenvolvimento argelino e na exploração de terceiros mercados.

A parceria entre a Randon e a Cevital na construção de reboques rodoviários mostra o caminho. Vejo com satisfação que o projeto de reforma e ampliação da infra-estrutura argelina marca a volta dos serviços brasileiros de engenharia a este país, como na Barragem de Boussiaba.

Convido os empresários argelinos a irem ao Brasil para conhecer o mercado brasileiro ou buscarem parcerias que os ajudem a ganhar competitividade e produtividade.

O Brasil dispõe de instituições de serviços de excelência aptas a fomentar a cooperação técnica entre nossos dois países em amplos setores onde temos potencial de complementaridade: agricultura, vigilância do território, pequena e microempresa, proteção ambiental, saúde, energia, serviços públicos.

As duas gigantes do petróleo e do gás, a Petrobrás e a Sonatrach, têm vocação e meios para, em suas parcerias, construir relações sólidas.
Este é o compromisso do governo brasileiro. Queremos que a Argélia seja sócia do Brasil na construção de um mundo à altura das aspirações de nossos povos, que lutaram pelo direito de sonhar com um futuro melhor.

Meu amigo, caro presidente Bouteflika,

Sei que 33 milhões de argelinos vão juntar-se ao

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