Brasília, 19 de novembro de 2018 - 06h21

Luz, Câmera e Ação no ‘Teatro Honduras’

19 de novembro de 2009
por: InfoRel
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Mirella Micheloni

Há mais de três meses que o mundo vem acompanhando o grande espetáculo da crise hondurenha, o qual tomou grandes proporções com o envolvimento de atores coadjuvantes tentando um papel principal.

O momento de ruptura se deu no dia 28 de junho desse ano quando o presidente legítimo foi deposto do poder.

O golpe militar responsável pela derrubada de Zelaya apresentou como justificativa o argumento de contra-golpe, afirmando que o presidente da época pretendia implantar um projeto de reeleição, o qual é proibido pela Lei Maior do país.

Apesar de Zelaya negar ocultas intenções, Micheletti, representante do governo interino, prefere continuar na cadeira de diretor do espetáculo. A discussão do momento é: até quando Honduras vai suportar a supressão da sua democracia?

Nesse cenário de grande tensão, um importante elemento entra em foco. As luzes da pequena tragédia hondurenha vêem-se ofuscadas pelos ‘Grandes’; os verdadeiros ‘global players’.

O país de Obama parece não ter uma posição definida no caso. Pressionado pelos olhares atentos e moralistas do mundo, o governo estadunidense assume uma postura mediadora de conflitos.

E, apesar de se dizer contrário ao golpe, o qual vai de encontro à democracia tanto prezada pelos EUA, Obama não se mostrou realmente interessado em restituir a cadeira de Zelaya. O que parece de fato importar aos EUA e à União Européia são as eleições que ocorrerão no dia 29 de novembro desse ano.

Ao contrário dos governos supracitados, o Brasil insiste em defender Zelaya, não só o abrigando em sua embaixada em Tegucigalpa, como também expressando publicamente o seu apoio incondicional à restituição do poder do ex-presidente.

As atitudes do governo brasileiro indicam claramente a vontade desse de despontar como líder e guardião da América Latina. Contudo, uma incógnita persiste: será que o Brasil está tão preparado quanto acredita estar?

Essa questão ainda é uma grande penumbra no cenário internacional. Insistentemente, o país tenta direcionar seu amplo clarão de luz para o pequeno show de Honduras.

A despeito de muitos pensarem que é a luz o artefato principal do espetáculo, todos hão de convir que para que esta sobressaia é mister que haja um encaixe perfeito entre a câmera e a imagem mirada. É sabido que a imprensa exerce papel fundamental em diversos assuntos, políticos ou não, já que pode controlar tanto a variável do sensacionalismo quanto a do compromisso com a verdade.

A escolha de qual delas seguir é o que define os papéis de herói ou vilão de uma história e o que restringe o campo de visão dos espectadores. No que tange o caso hondurenho, a mídia internacional vem fazendo de uma pequena tragédia, um super espetáculo.

O drama do governo Zelaya passou a ser discutido, condenado e maximizado, mesmo por aqueles que não possuíam conhecimento suficiente das leis e da conduta do país. O fato é que havia, sim, uma brecha na Constituição hondurenha no que diz respeito à destituição do poder do presidente.

Segundo o artigo 239, o chefe do poder executivo não pode se reeleger; e se insistir na proposta perde seu mandato. Essa transcrição denota a inexistência de um devido processo legal para destituir o presidente.

Deixa-se, então, uma lacuna para a junta golpista. Qual é o papel da mídia quanto a esse fato? Cada câmera focaliza diferentes angulações, extraindo de cada cena uma essência. Zelaya golpista ou Zelaya injustiçado?  A posição da câmera é que define o espetáculo.

Partindo desse espectro, leituras conflitantes, oriundas de países com visões variadas, persistem na mesma cena, gerando múltiplas ações e reações.

Uma ação expressiva do governo interino foi a assinatura, no final do mês de outubro, do acordo Tegucigalpa-San José, o qual propunha votação no Congresso pela restituição ou não do ex-presidente, e organização de um governo de união nacional de caráter provisório.

A verdade é que as negociações estão em ebulição, tanto em território hondurenho quanto no resto do globo.

Apesar de certos países demonstrarem interesse em participar da mediação de conflitos, nem todos obtiveram sucesso, vide ação desastrosa do Itamaraty ao oferecer asilo político em sua embaixada ao presidente deposto.

Entretanto, não são apenas atitudes de Estados que adentram o cenário em crise; organizações como OEA também deram seu parecer, apesar de não possuírem mesma força e vigor.

No final das contas, quem emergirá como componente fundamental do último ato, será o velho e bom ‘Tio Sam’, reafirmando seu vigor político. Vale lembrar que Honduras é um país altamente dependente dos Estados Unidos, por isso não há como se distanciar muito da posição dos últimos.

Enquanto isso, a previsão para o término da crise hondurenha data do dia 29 de novembro desse ano, quando ocorrerão as novas eleições; pelo menos é o que se acredita. Contudo, apesar de terminado o primeiro ato, as cortinas do espetáculo estão longe de serem fechadas.

Mirella Micheloni é aluna do curso de Relações Internacionais do IBMEC

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