Opinião

Mercosul
21/06/2005
Bolívia
22/06/2005

América do Sul

Mercosul: mais um fracasso previsível

Marcelo Rech

A reunião presidencial do Mercosul, realizada em Assunção, foi sem dúvida a mais previsível e pobre dos últimos tempos. Com a situação política e institucional degradando-se na região, o que se pôde ver foram presidentes apressados para voltarem aos seus países.

Pela primeira vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o grande porta-voz da Comunidade Sul-Americana de Nações e pretenso líder político regional, precisou encurtar a viagem para tentar arrumar um pouquinho a casa. Ele estava acostumado a ser o mediador das crises dos outros e agora tem precisa resolver a sua.

Cada vez que os presidentes dos países do Mercosul se reúnem, cria-se a expectativa pela retomada do bloco, com fôlego e unidade suficientes para se acreditar no seu êxito. No entanto, os últimos encontros têm sido marcados por disputas meramente comerciais, pela retórica e pelas crises de ciúmes.

É difícil imaginar um bloco coeso capaz de absorver a Comunidade Andina de Nações e ser assimilado a ponto de dar a luz à Comunidade Sul-Americana de Nações, um projeto tão audacioso quanto improvável. Fica cada vez mais patente que a América do Sul deverá seguir como o autêntico quintal do mundo.

Talvez o interesse manifesto no Comunicado Conjunto, de se construir um gasoduto entre a cidade de Camisea no Peru e o norte do Chile, livrando a região da dependência energética boliviana, tenha sido o mais significativo. Ainda assim, tudo não passa de uma carta de intenções.

O Brasil conseguiu seu intento ao deixar a questão das salvaguardas de fora das discussões. Lula não tinha tempo e muito menos paciência para lidar com o tema. Fica assim comprometido o objetivo de se buscar uma coordenação para as metas macroeconômicas entres os países do Mercosul.

Nestor Kirchner conseguiu mais uma vez, driblar o presidente brasileiro e como já havia anunciado que não ficaria até o final, ao saber que Lula adiantaria seu regresso à Brasília, tratou de voltar a Buenos Aires pela madrugada, deixando o chanceler Rafael Bielsa para assinar os documentos da Cúpula.

O presidente boliviano não participou do encontro e sequer enviou representantes como fizeram o Peru, Panamá e México. Apesar da crise, Alfredo Palácio, do Equador, esteve em Assunção, juntamente com Hugo Chávez, Álvaro Uribe, Ricardo Lagos e Tabaré Vazquez, que participou de sua primeira Cúpula do Mercosul.

A proposta de construção do gasoduto entre o Peru e o norte do Chile deve custar algo em torno de US$ 2,5 milhões e seria realizado em duas etapas, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID].

O gasoduto Peru – Chile se conectaria com as redes instaladas na Argentina, Brasil e Uruguai. O Paraguai também manifestou interesse em participar do projeto. O objetivo principal é dotar a região de uma autonomia energética que hoje não possui.

Ninguém mais confia que a Bolívia terá as mínimas condições de seguir suprindo tal necessidade face aos acontecimentos políticos locais. No entanto, a Bolívia não pretende ficar à margem do processo e deixou isso claro ao tomar conhecimento das tratativas de Assunção.

Para Hugo Chávez, esse projeto também não vai resolver grandes coisas. Ele segue defendendo a criação de uma empresa sul-americana de gás, que poderia ser a Gás del Sur, a exemplo da proposta de criação da Petrosur, que vem sendo gestada a partir dos aportes feitos pela Petrobrás, Energía Argentina [Enarsa] e Petróleos da Venezuela [PDVSA].

O encontro também serviu para se discutir como diminuir as assimetrias regionais, tal como vem sendo discutido há meses. Desta vez, prometeram liberar US$ 100 milhões para reduzir as desigualdades e ajudar os mais pobres do bloco, algo que está cada vez mais difícil de identificar.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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