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22/01/2015

Terrorismo

Não sou Charlie!

Marcelo Rech

Nelson Mandela que já foi listado como terrorista, cumpriu 27 anos de cárcere e ganhou o Nobel da Paz (1993), afirmou certa vez que “ninguém nasce odiando. As pessoas aprendem a odiar”.

Com base nesta premissa, me permito ir contra a corrente. Solidário com as vítimas do terrorismo que não encontra justificativa alguma, digo sem receios que “Não sou Charlie!”.

Dizer não ao Terrorismo, sim! Dizer sim ao preconceito, ao ódio, à divisão, à falta de respeito, ao preconceito, não! Charlie Habdo é mais que uma revista satírica. É uma publicação racista que prega o ódio contra todos que pensam diferente. É como se fossem os donos da verdade e não são.

Muito além da espetacularização e do vitimismo que busca, entre outras coisas, faturar econômica e politicamente, está o comodismo que aceita facilmente qualquer versão. O Islã não é violento, tanto quanto o cristianismo, mas já tivemos a Inquisição, certo?

O Terrorismo é um fenômeno que guarda relação direta com o radicalismo e o extremismo. E existem radicais e extremistas de direita e esquerda, crentes e agnósticos. Confundir uma coisa com outra é apagar incêndio com gasolina.

A França é um dos países mais preconceituosos do planeta, onde qualquer minoria é alvo de humilhações, preconceito, racismo e ódio. Não é algo exclusivo para os mulçumanos. Essa situação só piora com a crise econômica. Se falta trabalho para o francês quanto mais para o imigrante.

Estamos diante de uma situação explosiva e com ela, entramos na seara política. O presidente François Hollande tem menos de 15% de apoio popular. Viu nos ataques terroristas uma excelente oportunidade para recuperar terreno e fortalecer-se politicamente. A extrema-direita enxergou a mesma oportunidade. Como já disse várias vezes, a lógica dos políticos não guarda relação alguma com a lógica dos seres humanos.

O governo falhou e isto está claro. As inteligências libanesa e argelina informaram acerca dos ataques. Com muita antecedência, como devem fazer os serviços secretos. Os terroristas possuíam histórico de recrutamento de yihadistas, de viagens para treinamento com a Al Qaeda. Dois deles chegaram a cumprir pena por Terrorismo. O que faziam à vontade nas ruas de Paris sem qualquer monitoramento e farto armamento?

A França ignorou os alertas. Ignorou? Deliberadamente? Não são poucos os que podem faturar com a tragédia alheia e no fim, para os governantes, as vítimas civis não passam de efeitos colaterais em nome de um bem maior, o interesse nacional, ou seja, lá o que isso queira dizer.

Ao espetacularizar a tragédia, nos somamos àqueles que querem apenas criar uma cortina de fumaça capaz de disfarçar os verdadeiros interesses por trás do problema. O Ocidente precisa abandonar a hipocrisia e tornar público quem são os líderes que financiam o Terrorismo comprando petróleo e gás do Estado Islâmico, ou vendendo armas para grupos e organizações que precisam estar fortes para serem “devidamente” combatidas. Osama bin Laden tornou-se homem de confiança da CIA na luta contra os soviéticos. Saddam Hussein era o serviçal de Bush pai contra o Irã. Eram aliados, era conveniente.

Por outro lado, a hipocrisia ocidental é tamanha que o assassinato em massa de 200 crianças, mulheres e idosos na África é incapaz de mobilizar meia-dúzia. O uso de meninas-bomba na Nigéria não sensibiliza, afinal a África é a África!

Em nome da Liberdade de Expressão, ninguém tem o direito de desancar com a fé ou as crenças de quem quer que seja. De semear o ódio e a intolerância. De fazer pouco caso da história e da cultura de um povo ou de vários. De promover o preconceito e a discriminação. Compactuar com isso na esteira de uma tragédia, me parece oportunismo barato.

Não quero meus filhos aprendendo a odiar, quero que aprendam a amar, principalmente o diferente. Que conheçam e pratiquem o diálogo. Que saibam respeitar para serem respeitados.

Condenar o terrorismo sem conhecer suas motivações, raízes, características, é tão inócuo quanto não fazê-lo. Hoje, estamos misturando na mesma vala, pessoas íntegras, boas, honestas e pacíficas com animais travestidos de seres humanos. Como bem lembrou o Papa Francisco, em nome de deus algum se justificam atos terroristas ou guerras, inclusive as Cruzadas cristãs contra o Islã.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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