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Netflix, o soft power e a (neo)globalização

Anna Luisa Del Mar, especial para o InfoRel – 

A indústria cultural como ferramenta de soft power de um país é um dos principais temas de análise em qualquer classe de Relações Internacionais. Introduzido pela primeira vez em 2004, por Joseph Nye (“Soft Power: The Means To Success In World Politics”), o conceito de soft power, ou “poder brando”, se refere à capacidade de um país em influenciar atores da comunidade internacional por meios culturais ou ideológicos. Segundo Nye, o êxito do soft power de um país se deve sobretudo, à admiração que sua cultura, seus valores, sua língua e suas instituições são capazes de despertar. Um dos casos frequentemente usados como exemplo é Hollywood, que por meio do cinema transpõe barreiras geográficas e leva a cultura norte-americana a diversos países.

A medida que aumentam seu poderio econômico, países como China e Índia vêm investindo também em formas de aumentar a efetividade de seu soft power. Ao longo dos últimos anos o governo chinês fundou diversos Institutos Confúcio em todo o mundo com o intuito de ensinar a língua chinesa e dividir os valores de sua cultura milenar –  só no Brasil, há Institutos Confúcio instalados em instituições de ensino superior públicas e privadas nas cinco regiões do país. Um bom exemplo da crescente popularidade da cultura chinesa são os prêmios Nobel de Literatura que foram concedidos aos autores chineses Gao Xingjian (2000) e Mo Ya (2012). Na mesma linha, a disseminação dos preceitos do hinduísmo e do budismo vem colaborando para despertar o interesse e atrair para a Índia um elevado número de visitantes. Bollywood, a maior indústria de cinema indiana, nome dado pela combinação das palavras Bombaim e Hollywood; produz milhares de filmes por ano e desempenha, através de suas ricas experiências sensoriais, um forte papel na construção da identidade nacional.

É por isso que o esforço de produção multicultural da Netflix, ainda que pautado em interesses financeiros de ampliação de mercado, merece ser observado no âmbito das Relações Internacionais. Na contramão do que dizem os estudos que analisam as relações de poder entre os países, a empresa vem apostando na diversidade e investido para descentralizar a produção de séries e filmes, produzindo uma boa parte de seu conteúdo fora dos Estados Unidos e se mostrando uma importante plataforma de intercâmbio cultural. Isso fica visível quando se observa que duas das séries mais assistidas no Brasil nos últimos meses foram a alemã Dark e a espanhola La Casa de Papel. O seriado brasileiro 3% foi, em 2017, a série de língua não-inglesa mais assistida nos Estados Unidos, sendo mais tarde superada por La Casa De Papel; ao passo que The Crown renovou a simpatia da comunidade internacional pela apática família real britânica. O canal de streaming confirmou também a produção de séries dinamarquesas, francesas e polonesas.

A aposta inclusiva e multicultural da Netflix tem reflexos diretos no número de assinantes, que já ultrapassou os 118,9 milhões. É importante observar que dos 8,2 milhões de novas assinaturas contabilizadas no primeiro trimestre de 2018,  quase 6 milhões vieram de fora dos Estados Unidos. Nesse sentido, seria possível afirmar que a Netflix está dando fôlego novo para os já desacreditados valores da globalização, contribuindo para a promoção de uma visão positiva da diversidade cultural?

Vale lembrar que o conceito de globalização ganhou força entre o fim da década de 1980 e meados da década de 1990, com a introdução dos primeiros fornecedores comerciais de acesso à internet. A expectativa era que o advento contribuísse para fomentar a troca de pontos de vistas e ideias, promovendo o conhecimento de outras culturas e construindo pontes entre comunidades. Em 2000, o Fundo Monetário Internacional chegou a indicar o comércio e as transações financeiras, os movimentos de capital e de investimento, a migração e a disseminação de conhecimento como os quatro principais aspectos da globalização. O que vimos, no entanto, foi um choque de culturas que culminou na ascensão do conservadorismo que se espalha hoje pelo continente Europeu e Americano.

Ao longo da história é possível observar que todo movimento político e social provoca, paradoxalmente, uma reação contrária. Só nos resta esperar que iniciativas como essa colaborem para uma fase mais pluralista, de maior respeito às diferenças e cooperação internacional.

Anna Luisa Del Mar é jornalista. E-mail: delmar.anna@gmail.com

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