Opinião

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12/05/2005
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16/05/2005

Sul-Americanos e Árabes

Noé e a Cúpula de Brasília

Ucho Haddad

“Como diria um dos meus gurus preferidos, o Brasil é a amante que mais amei, mas a que mais me enganou.”

Roberto Campos

Sem que ninguém soubesse porque começou, a Cúpula Sul-americana – Países Árabes terminou com uma pirotecnia mambembe que revelou de forma clara a inconsistência do encontro.

Criticado largamente por suas inócuas, para não dizer ridículas, viagens internacionais, Lula transferiu à assessoria palaciana a responsabilidade de promover algum evento que não apenas justificasse as idas e vindas do Aerolula, mas explicasse ao mundo o protagonismo messiânico de um presidente megalomaníaco.

É verdade que o Brasil precisa, e muito, intensificar suas relações comerciais e diplomáticas com outras nações, mas como líder de um bloco de problemáticos, como é a América do Sul, tal objetivo jamais mereceria um evento propagandístico de tal natureza em qualquer país minimamente responsável, como foi o que teve lugar em Brasília às custas do dinheiro do contribuinte.

Tirante o Brasil e o Chile, além da Argentina, que tenta emergir do caos e começa a mirar horizonte com o lodaçal de uma crise econômica bem abaixo do queixo, o bloco sul-americano é o melhor exemplo de relações utópicas do ponto de vista diplomático e comercial.

O que Lula insiste, de forma irresponsável, é se fazer líder de um aglomerado de problemas sociais e econômicos, tendo como pano de fundo um discurso que há muito se tornou obsoleto, pois nada de concreto em relação ao extermínio da fome, quer seja no Brasil, quer seja em qualquer outra parte do planeta, foi feito até então.

E se Lula buscou inspiração em Herbert de Souza, o Betinho, para entronar o discurso contra a fome, é bom lembrar que sua fonte de inspiração sempre defendeu que “a fome é a realidade, o sintoma e o efeito da ausência de cidadania”.

A tese de missa encomendada para o a Cúpula de Brasília ficou evidente quando, ao pronunciar durante a cerimônia de encerramento do encontro, Lula disse aos presentes que aquele que andasse pelo Brasil encontraria cenas distintas de miséria, mas que seus protagonistas nada mais eram que “seres humanos que têm um otimismo extraordinário”.

Beira a irresponsabilidade tal afirmação, pois é humanamente impossível ser otimista com promessas eleitorais não cumpridas, carga tributária voraz e taxas de juros que tangem a pornografia.

Na verdade, enquanto massageia o próprio ego ao brincar de líder planetário, Lula esconde na coxia sua verdadeira tarefa de alastrar pelo mundo o conceito virulento de relançamento do comunismo, como forma de solucionar problemas que só mesmo uma hecatombe política poderia resolver.

Transferir ao presidente peruano, Alejandro Toledo, a incumbência de representar discursivamente os países sul-americanos durante a Cúpula de Brasília foi uma enorme falta de sensibilidade diplomática, não sem antes ser uma adulação audaciosa que mostra, mesmo de forma camuflada, interesses terceiros que podem colocar em risco, inclusive, a já fragilizada estabilidade democrática no vizinho Peru.

Para que o conceito do devaneio não recaia sobre a realização do encontro realizado em Brasília, a exemplo do que foi defendido parágrafos acima, exportar passou a ser a única maneira de evitar que o governo Lula não caia em desgraça, pois a evidente falta de um mercado interno vigoroso e promissor empurra o setor industrial para o mercado externo como alternativa de sobrevivência, mesmo que, como prega o adágio popular, ocorra uma troca de seis por meia dúzia.

De tal forma, o melhor é buscar países endinheirados, sem deixar de lado os que à mingua estão, pois estes podem render dividendos políticos impagáveis.

Toledo poderia até surgir como representante da América do Sul, mas dividir a tarefa com Néstor Kirchner seria uma espécie de cachimbo da paz, especialmente se levadas em consideração as recentes mazelas que azedaram, de vez, as relações comerciais e diplomáticas entre a Argentina e o Brasil.

Imaginar que o Mercosul é uma inovação mercantilista de integração seria o mesmo que admitir que o crescimento populacional do mundo se deve ao aumento do número de cegonhas e não à falta de controle da natalidade, pois nenhum dos países que integram o tal acordo econômico tem condição para abrir mão de barreiras protecionistas, pois desemprego, caos social e carga tributária elevada não apenas convivem em uma verdadeira fogueira de vaidades, mas são interdependentes.

Mas, afinal, para que serviu a tal Cúpula de Brasília?

Serviu para que um punhado de gente se manifestasse oficial e coletivamente contra o beligerante George W. Bush e seus súditos, situação que ficou clara com divulgação da Declaração Conjunta da Cúpula de Brasília, cujo conteúdo mereceu do ministro Celso Amorim o comentário, no mínimo terrorista, que cada um deveria interpretar como quiser.

Lula, que assumiu ter se dedicado, desde o início de seu governo, à política internacional, não tem olhado para o nosso quintal, mas puxado para si a solução de situações sem solução alguma, que muitas vezes são objeto das mais inimagináveis e ardis negociatas, como é caso dos históricos entreveros entre palestinos e judeus.

Se a briga entre ambos, palestinos e judeus, não nos pertence, incentivá-la direta ou indiretamente é um ato de irresponsabilidade desmedida, pois a disputa em questão não passa do reflexo de um absurdo interesse ianque, o mesmo que fez do Iraque uma praça de guerra permanente.

E o protagonista principal da tragédia é alguém que já mereceu um sem fim de desaforos telefônicos tupiniquins, de um Lula que um dia disse ter acordado invocado.

Assim, resta concluir que as relações do Brasil com o resto do mundo, sob o comando de companheiros presidenciais, são muito mais míopes do que se imagina, pois, ao deixarem de lado a diplomacia, saturam as ações oficiais com o ranço político que tem dominado um governo que se elegeu sob a égide do estelionato eleitoral.

E acreditar que alguém que se vale de tais artifícios pode ser considerado um líder mundial, é porque o mundo acabou novamente, o Criador não foi avisado e Noé com sua arca será muitíssimo bem-vindo, mesmo que tardiamente.

Ucho Haddad, 46, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira [www.wanderleynogueira.com.br] e do ABC Digital [www.digitalabc.com.br].

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