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Opinião
Uma “nova” França, um velho inimigo: a guerra de escolha de Macron?
20/05/2017 - 10h29

Giovanni Okado

O ineditismo tornou-se uma palavra comum para resumir a política contemporânea, sobretudo, após ciclos eleitorais. As estruturas tradicionais do poder, quando não se reinventaram, deixaram fissuras que rapidamente foram penetradas pela novidade, aparentemente atípica e enigmática. Isso ocorreu na Argentina, nos Estados Unidos e, agora, na França. A vitória de Emmanuel Macron representa uma estranha combinação de otimismo e incerteza. A novidade triunfante sob o lema “nem socialista nem republicano” trouxe expectativas positivas para a reinvenção da política francesa, o enfrentamento de problemas socioeconômicos e o alívio à fragmentação da União Europeia. Essa novidade, no entanto, é vítima do próprio sucesso: sua concepção é boa, sua operacionalização, inquietante.

Uma inquietação decorrente da vitória de Macron é sobre o papel que a França desempenhará na segurança internacional nos próximos cinco anos. Desde o final de 2ª Guerra Mundial, o país enfrenta um dilema quanto ao alcance do próprio poder: uma potência global ou uma potência regional. É possível notar que, nos últimos anos, o governo francês atuou coletivamente em questões centrais da segurança internacional quando ocorreram em regiões adjacentes à França, como a intervenção na Líbia em 2011. Ao mesmo tempo, Paris não abriu mão de agir unilateralmente nessas regiões quando considerou os interesses nacionais ameaçados, como nos bombardeios na Costa do Marfim (2011), Mali (2013) e Síria (2015).

Os primeiros discursos de Macron após a vitória eleitoral estão alinhados com duas propostas de seu programa de governo em torno da segurança internacional: manter o status de potência militar com reconhecimento global e reforçar a defesa europeia (considerada quase inexistente em seu diagnóstico de campanha). Para tanto, o recém-eleito presidente parece ter recorrido a um velho inimigo bem conhecido do front ocidental e dos franceses: o combate ao terrorismo. Macron foi categórico ao afirmar que “[a] França estará na primeira fileira na luta contra o terrorismo, no seu solo e na ação internacional”.

Há dois pontos que merecem comentários em decorrência da priorização do terrorismo. O primeiro deles é que Macron sinaliza para uma postura mais intervencionista da França em assuntos de segurança internacional, em contraposição com os dois candidatos mais extremos – Jean-Luc Melénchon, ultraesquerda, e Marine Le Pen, ultradireita –, cujas propostas se aproximavam pelas razões inversas. Melénchon e Le Pen defendiam a revisão da participação da França na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), inclusive com a saída do país da aliança, e o recuo na integração de defesa da Europa. Ambos consideravam que essas alianças estavam empurrando a França para guerras desnecessárias e desestabilizadoras. A diferença entre os dois, no entanto, é que Melénchon sustentava sua posição baseada em argumentos humanitários e na necessidade de priorizar outros temas globais no lugar dos militares, enquanto Le Pen privilegiava uma posição mais isolacionista e a supremacia dos interesses nacionais, eminentemente domésticos.

O segundo comentário é que, ao recorrer à narrativa do terrorismo, Macron pode recair no mesmo erro da administração de George Bush (2001-2009): fazer uma guerra de escolha, não de necessidade, conforme a diferenciação do diplomata norte-americano Richard N. Haas. Em outras palavras, Macron pode assumir o risco de partir para uma empreitada em que a ameaça não está clara nem para o governo e nem para a sociedade, não demandando necessariamente uma ação militar, e sim uma escolha própria.

Não há dúvidas de que o terrorismo é uma ameaça real para França. Os atentados terroristas perpetrados no país – Charlie Hebdo, Paris, Nice, etc. – demonstram uma preocupação constante da sociedade que é tratada como prioridade no Livro Branco sobre a Defesa e a Segurança Nacional de 2013. No entanto, ao mesmo tempo em que é real, a ameaça é difusa, e é não é possível, a priori, personificá-la ou materializá-la em torno de um país. Vários grupos assumiram a autoria de atentados de 2010 até agora e, embora se enfatizem aqueles cometidos pelo Estado Islâmico, há também o terrorismo doméstico e separatista, como o perpetrado pela Frente de Libertação Nacional de Córsega.

Se a disposição política inicial do novo mandatário é focar no combate ao terrorismo como forma de congregar a manutenção do status militar global e o reforço da União Europeia, há necessidade de se construir a imagem de um inimigo externo facilmente discernível. No plano internacional, o governo francês conta com o respaldo da Estratégia Global Europeia de 2016 para a contenção do terrorismo em seus locais de origem antes que se torne uma ameaça à Europa. No plano doméstico, Macron deve convencer a população francesa, atualmente mais preocupada com problemas socioeconômicos, de que é preciso enfatizar o combate a ameaça fora do país. Isso é um desafio para os primeiros meses do presidente recém-eleito.

À primeira vista, a construção da narrativa do terrorismo pode conectar-se com fluxos imigratórios e personificar o fenômeno nos refugiados, materializando o intervencionismo nos principais países de onde partem, como Síria, Afeganistão, Somália, entre outros. O relatório publicado pelo Pew Research Institute no ano passado, intitulado “Europeans fear wave of refugees will mean more terrorism, fewer Jobs”, demonstra que 46% dos franceses consideram que o fluxo de refugiados torna o país mais suscetível ao terrorismo e que 54% consideram que os refugiados acarretam encargos sociais e diminuição dos trabalhos. Acresce-se a isso que um quinto dos franceses votaram em Le Pen no primeiro turno e que pouco mais de um terço o fizeram no segundo turno. Dessa forma, Macron pode aproveitar-se dessa dupla percepção negativa para com os refugiados e apresentar o inimigo externo para legitimar suas ações de combate ao terrorismo.

O problema do intervencionismo militar para conter as ameaças em suas origens é o seu efeito paradoxal: o enfraquecimento do poder dos grupos terroristas no próprio território é sucedido pela difusão internacional de ações terroristas cometidas por eles. A guerra de escolha de Macron, em vez de proporcionar mais segurança aos franceses, pode elevar a violência no país, com maior incidência de atentados. Além disso, há também a probabilidade de aumentar o fluxo de refugiados para o país, bem como a reação contrária dos franceses a esse fluxo e a maior sensação de insegurança deles. E pior, trata-se de uma guerra que pode também não ter fim. Em princípio, no que diz respeito à segurança internacional, Macron parece agir desnecessariamente pela escolha errada.

Giovanni Hideki Chinaglia Okado é professor Assistente de Relações Internacionais da PUC Goiás, Mestre em Relações Internacionais pela UnB e Graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca. E-mail: giovanni.okado@gmail.com