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Opinião
Uma era de terror?
10/01/2017 - 08h21

Giovanni Hideki Chinaglia Okado

O ano de 2017 começou violento. Ou melhor, ele continuou violento. O terrorismo e a barbárie parecem sobrepor-se à paz e à civilização. A morte do embaixador russo em Ancara, o atentado no mercado de Natal no centro de Berlim e o ataque à boate Reina em Istambul constituem o desfecho e o recomeço de um interminável ciclo de terror, que se espalhou pelo mundo. O principal desafio intelectual e político é diferenciar o “terror real”, factualmente comprovado, do “terror infundado”, intencionalmente provocado e involuntariamente assimilado. Assim, convém refletir se é possível classificar a atual conjuntura internacional como uma genuína era do terror.

O início dessa reflexão apresenta a evidência contrária: não há uma era do terror, e sim o momento mais pacífico da história da humanidade. Fareek Zakaria, cientista político e jornalista norte-americano, qualificou a época atual como “invulgarmente calma”. Já o estudo mais completo que comprovou tal argumento foi realizado por Steven Pinker, psicólogo canadense e professor da Universidade de Harvard, em sua obra “Os anjos bons da nossa natureza: por que a violência diminuiu”. Resumidamente, para Pinker, fatores exógenos (ambientais e culturais) modificaram, no decorrer da história, as faculdades cognitivas humanas, resultando em maior repulsa à violência. Entre esses fatores, pode-se mencionar a organização político institucional em torno do Estado, o comércio, o cosmopolitismo, entre outros.

A comprovação empírica do argumento acerca de uma era de paz sem precedentes pode ser verificada por meio da comparação entre as estatísticas de mortes no mundo. Nenhuma das dez principais causas de morte identificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2012 pode ser considerada uma morte violenta. A principal causa de morte é a cardiopatia isquêmica, matando 7,4 milhões de pessoas, que corresponde a 13,2% de todas as causas. O segundo lugar é ocupado pelo derrame, responsável por 6,7 milhões de mortes, o que equivale a 11,9% do total delas. Se somados os dados recentes disponíveis das mortes violentas, decorrentes de conflitos armados (2015), terrorismo (2015) e homicídios (2012), elas contabilizariam 585.164. Isso equivale a pouco mais da metade das mortes ocasionadas por hipertensão, a décima principal causa global das mortes. Em síntese, as mortes violentas equivalem a aproximadamente 1% de todas as mortes que ocorrem no mundo. As pessoas, no geral, morrem por causas naturais.  

Considerando apenas as causas violentas de mortes, particularmente provocadas por conflitos armados e pelo terrorismo, os dados demonstram o porquê da preocupação com uma era do terror. Segundo o Upsalla Conflict Database Program (UCDP), o número de mortes em decorrência de conflitos armados aumentou de 91.151, em 2000, para 118.788, em 2015. Conforme o Global Terrorism Database (GTD), o número de mortes em decorrência do terrorismo aumentou de 3.329, em 2000, para 29.376, em 2015. Em outras palavras, enquanto as mortes decorrentes de conflitos armados cresceram pouco mais de 30% em quinze anos, as mortes decorrentes do terrorismo cresceram quase 800% no mesmo período, mais de vinte e cinco vezes o percentual anterior.

A trajetória do crescimento do número de mortes em decorrência de conflitos armados e do terrorismo chamam a atenção. No primeiro caso, nota-se que, em geral, as fatalidades declinaram até atingir o menor patamar no pós-Guerra Fria, no ano de 2005, com 19.576 mortes registradas, e oscilaram entre 30 e 40 mil mortes até 2012, quando elas passaram a se elevar vertiginosamente. No segundo caso, é perceptível que o terrorismo teve um crescimento praticamente contínuo e que se intensificou a partir de 2012, momento em que houve a intensificação dos conflitos armados e de mortes decorrentes deles. No Global Terrorism Index, publicação editada pelo australiano Institute for Economic & Peace (IEP), destaca-se a correlação entre conflitos armados e terrorismo: mais de 90% das mortes decorrentes de atos terroristas ocorrem em países que estão envolvidos em conflitos internos ou externos.

A esse respeito, duas constatações são importantes. A primeira delas é que, assim como os conflitos armados com o maior registro de mortes estão geograficamente concentrados, o terrorismo também está. De acordo com a mencionada publicação do IEP, em 2015, 72% das mortes provocadas por atentados terroristas ocorreram em apenas cinco países: Iraque, Afeganistão, Nigéria, Paquistão e Síria. Nesses mesmos países, conforme os dados do UCDP ocorreram quase 80% do total do número de mortes por conflitos armados. Além disso, entre 171 grupos terroristas que praticaram atentados fatais em 2015, apenas quatro deles foram responsáveis por 74% das 29.376 mortes registradas: Estado Islâmico, Boko Haram, Al-Qaeda e Talibã.

A segunda constatação é que há uma correlação paradoxal entre intervenção militar e terrorismo. Após o 11/09, as incursões norte-americanas no Iraque e Afeganistão transformaram esses dois países em verdadeiros santuários para a proliferação de atividades terroristas, bem como tornaram-nos as suas principais vítimas. Uma década depois, o combate militarizado do terrorismo – contando, inclusive, com a participação de coalizões internacionais –  provocou a contenção de mortes decorrentes do terrorismo em dois casos críticos: Iraque e Nigéria, que registraram o decréscimo de 5.556 mortes de 2014 para 2015. A queda das mortes é explicada, no primeiro caso, pela a retomada de territórios iraquianos controlados pelo Estado Islâmico – atualmente, destacam-se os principais êxitos obtidos na campanha de Mossul – e, no segundo, pela coalizão formada pelos governos da Nigéria, Chade e Camarões contra o Boko Haram.

O aparente sucesso mimetiza uma profunda contradição: no primeiro momento, as intervenções militares fragilizaram Estados e permitiram a proliferação eminentemente interna do terrorismo, com implicações globais pontuais; no segundo, o combate militarizado propiciou a dispersão transnacional e global do terrorismo, o que justifica o forte clima de tensão dos governos e das sociedades. Segundo a referida publicação do IEP, houve um aumento de 650% da incidência mortes provocadas pelo terrorismo em países da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE) de 2014 para 2015, principalmente na Turquia e na França. Essa tendência persistiu em 2016, embora os dados ainda não estejam disponíveis, podendo-se incluir a Bélgica, a Alemanha e os Estados Unidos, que registraram o pior atentado desde o 11/09, em uma boate LGBT, em Orlando. A perda de poder de grupos terroristas, principalmente do Estado Islâmico e do Boko Haram, em seus locais de origem é o principal motivo para a dispersão do terrorismo. E os atentados ocorrem por razões diversas: desde pela represália contra aqueles que se opõe aos grupos até pela necessidade de reforçar a própria identidade perante o mundo.

Se é possível uma reposta à pergunta do título, ela seria um “não”. Na verdade, um “não” que precisa ser qualificado. O mundo está inegavelmente mais pacífico do que nunca, mas, como ressaltou Pinker, não se trata de um processo irreversível. Ao mesmo tempo, é também inegável afirmar que o terrorismo, na ausência de qualquer outra prioridade estratégica global, tornou-se a principal preocupação. A realidade, no entanto, é que o terrorismo ainda é um fenômeno geograficamente concentrado, afetando principalmente o Oriente Médio, Norte da África e Sul da Ásia, em termos de atentados e fatalidades. A ficção, por sua vez, é que ele foi convertido em uma ameaça globalizada, porque representa o entrechoque da barbárie contra a civilização e não há outra preocupação estratégica maior no momento para justificar o preparo e emprego do instrumento militar. A propósito, trata-se de uma ficção criada por quem o intensificou. É preciso ter cautela para não se deixar enganar pelo sensacionalismo irresponsável em torno do terrorismo. Não se vive em uma era do terror, e sim em uma era de paz em que o terror foi elevado à condição de principal inimigo dela.

Giovanni Hideki Chinaglia Okado é professor Assistente de Relações Internacionais da PUC Goiás, Mestre em Relações Internacionais pela UnB e Graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca. E-mail: giovanni.okado@gmail.com