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Resistência

O caráter político da Cúpula América do Sul – Países Árabes

Marcelo Rech

Termina nesta quarta-feira, a inédita Cúpula América do Sul – Países Árabes, uma iniciativa pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que reuniu 34 representantes e Chefes de Estado e de Governo, das duas regiões, em Brasília. O encontro tinha, oficialmente, o objetivo de estreitar os laços comerciais entre duas partes do mundo que nunca se perceberam.

No entanto, foi marcada pelo contundente caráter político, graças aos países árabes que vieram fazer negócios, mas não perderam a oportunidade de fazer política, de denunciar transgressões e de acusarem explicitamente, Estados Unidos e Israel.

A Declaração de Brasília, a ser firmada na tarde desta quarta-feira, vai reforçar as críticas contra a ocupação dos territórios palestinos e reconhecer o direito destes, de lutarem contra tropas estrangeiras em seu território. O parágrafo se estende ao Iraque, reforçando a tese que os rebeldes têm o direito de lutar contra os Estados Unidos.

Basta um pouco de sensibilidade para percebermos que os resultados políticos são históricos. Ainda que o encontro tenha sido esvaziado pelas artimanhas norte-americanas, não se perdeu a oportunidade de lhe conferir envergadura suficiente para se marcar um posicionamento que une grande parte das duas regiões.

Para as pretensões do Brasil de alcançar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, os resultados foram excelentes. Quando os apoios vinham de países pouco expressivos da América Latina e da África, pouco se poderia agregar ao projeto.

No entanto, quando se vislumbram apoios significativos de países importantes da região como Jordânia, Arábia Saudita, Argélia, Egito, Líbano, Líbia e Marrocos, por exemplo, as circunstâncias mudam completamente.

É claro que as reformas das Nações Unidas com a ampliação do Conselho de Segurança, não serão aceleradas por conta da Cúpula. Mas serão feitas porque o mundo demanda essa necessidade. Quando isso vier a ocorrer, estaremos mais bem amparados, sem dúvida alguma.

Em termos comerciais, a Cúpula também teve um resultado prático satisfatório, ainda que vários líderes árabes de grande importância como Hosni Mubarak ou Muamar Gadafi, não tenham vindo. A política externa do país conseguiu conformar um encontro que terá impactos positivos na economia, a médio e longo prazo.

A assinatura de um acordo-quadro que permitirá o início das negociações para a criação de uma Área de Livre Comércio entre o Mercosul e o Conselho de Cooperação do Golfo, mostra que o Brasil está decidido a consolidar alternativas de comércio que diminuam significativamente a dependência dos Estados Unidos.

Entretanto, ainda existem vozes no Itamaraty, que não abrem mão das relações com os norte-americanos, o que parece ser um gesto prá lá de lúcido. Faz sentido a adoção de um projeto que não seja excludente. Abrir mão do comércio com os Estados Unidos e a União Européia seria tão imaturo quanto inaceitável.

Do ponto de vista concreto, estamos vendendo aviões, produtos agrícolas e de informática, maquinário e permitindo que nossas empreiteiras retornem ao mundo árabe.

Vamos construir rodovias, pontes, metrôs. Até dezembro, haverá uma linha aérea diária entre Dubai e São Paulo, e empresas brasileiras vão concretizar dois ambiciosos projetos na Mauritânia, por significativos US$ 500 milhões. A Líbia, já investe US$ 450 milhões em projetos de irrigação na Bahia.

Não se pode, por questões ideológicas principalmente, desmerecer um encontro que apresenta tantas alternativas e que reforça o papel do Brasil no contexto internacional. Pena que o presidente argentino, Nestor Kirchner não perceba que por trás de tudo isso, ganham todos os países sul-americanos.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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