Opinião

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28/10/2005
Cúpula das Américas
02/11/2005

Crise Política

O Carreirinha, a Conchita e o caos tupiniquim

Ucho Haddad

Não se pode negar que a corrupção petista transformou Brasília na capital da mentira, tamanha é a desfaçatez que toma conta dos depoimentos de cada um dos envolvidos no maior escândalo político dos últimos tempos.

A capital federal, na verdade, funciona efetivamente de terça a quinta-feira, período em que as atividades parlamentares atingem seu ápice, nem sempre pela qualidade, mas pela presença quase maciça de políticos nas respectivas casas legislativas.

Porém, a secura de Brasília, já famosa em todo o território nacional, também produz mentiras tão inacreditáveis quanto boas. Há dias, depois de uma jornada exaustiva no Congresso, Brasília foi tomada de surpresa por um temporal que se fez a alegria da vegetação, certamente espantou aos que lá moram.

Aos que, como eu, pensavam em dar uma rápida escapadinha para aliviar o stress do cotidiano parlamentar, restou o enfadonho programa de postar-se diante da TV e enfrentar um capítulo da novela global América.

A produção da Vênus Platinada mostra de maneira dúbia e bisonha o que muitos ainda crêem ser o maior de todos os sonhos dourados: chegar à terra do Tio Sam e vencer.

A novela, cujos capítulos finais coincidem com a chegada de George Bush à Argentina, onde acontece a Cúpula das Américas, ao mesmo tempo em que mostra o luxo e fartura que alguns conquistaram para seus cotidianos, apenas por serem imigrantes legais, insiste na tese de que a ilegalidade nos Estados Unidos não compensa.

Nada do que contraria os ditames da lei compensa, mas a massa ilegal de imigrantes sempre interessou, e muito, aos americanos, que não é de hoje se recusam a enfrentar os chamados subempregos.

Durante décadas a fio, a polícia americana fez vistas grossas para os ilegais, a quem os ianques costumam chamar de chicanos, os quais fazem com que a legalidade conviva tranqüilamente com a ilegalidade por questões de comodismo e conforto daqueles que se acham infinitamente superiores aos outros tantos bilhões de habitantes da Terra.

Mas não estou aqui para dissertar sobre a hipocrisia americana, mas sim para denunciar o caos tupiniquim. Como citei anteriormente, na noite chuvosa de Brasília restou-me enfrentar um capítulo da novela América, e surpreendeu-me a cena em que o personagem Carreirrinha, levado por um descomunal e incontrolável amor pela tal Conchita – outra personagem da trama – decidiu liquidar o próprio analfabetismo na esperança de arrebatar em definitivo o coração da brasileira que vivia em Miami.

Na cena em que Carreirinha, na humilde e interiorana escolinha da novela, descobriu que seu analfabetismo era coisa do passado, a atriz que interpreta a professora disse, em tom quase profético, que daquele momento em diante ninguém mais passa-lo-ia para trás, como se isso fosse a maior das verdades.

O que temos visto nos últimos tempos, em termos de desmandos de toda ordem, chega a preocupar até mesmo o mais letrado de todos os brasileiros.

Sob a égide de promessas impossíveis de serem cumpridas, o ex-torneiro mecânico Luiz Inácio chegou ao posto mais alto da nação, não para melhorar a vida daqueles mais necessitados, como sempre bradou em tempos de oposição, mas para ludibriar, inclusive, os que mais sorte tiveram na vida.

Lula tem feito do Brasil uma terra sem lei, muito diferente dos saloons que entupiram os filmes americanos no início de Hollywood.

Transformou uma terra promissora em um verdadeiro mar de lama, sem contar a chicanas jurídicas que o PT, sob a orientação do ministro Márcio Thomaz Bastos, lança mão na esperança de salvar algo que na boca de Antonio Rogério Magri soaria como “insalvável”.

O PT, como bem disse o professor de Filosofia e Ética da Unicamp, Roberto Romano da Silva, já foi partido, em ambos os sentidos, sendo que hoje não passa de um lupanar de quinta, travestido de agremiação política.

Verdadeiro dono do poder durante muito tempo e porta-voz das decisões mais importantes do governo do PT, até ser ejetado do Palácio do Planalto, José Dirceu sempre afirmou, em alto e bom som, que o PT não roubava, não deixava roubar e combatia a corrupção.

Ora, se a profecia de Dirceu era de camelô, o eleitor não tem culpa, pois um homem público, em tese, deve cumprir à risca o que diz. Assim, Dirceu, que sempre pregou a celestial probidade do partido dos barbudinhos, jamais deveria ficar lutando de maneira vergonhosa e covarde para se manter no cargo por mais alguns meses, pois é certo que em uma nova eleição o ex-comissário palaciano não emplaca.

E é exatamente por isso que o parlamentar petista está lutando com todas as armas, além de contar com a ingerência perniciosa e escandalosa do Supremo Tribunal Federal no Poder Legislativo, fazendo da Câmara dos Deputados uma verdadeira casa da mãe Joana, onde tudo pode a qualquer hora do dia ou da noite.

Quando esteve na oposição, Dirceu sempre surgia em uma redação ou outra com um documento sem comprovação de autenticidade de qualquer espécie, debaixo do braço, que como souvenir tinha a balela de que um remetente anônimo o enviara.

Hoje, depois de experimentar o doce sabor do poder e continuar mandando como nunca no Partido dos Trabalhadores, José Dirceu sequer admite que provas absolutamente legais sejam consultadas ou requeridas para instruir seu processo de cassação.

O deputado conta com uma horda de pelegos que agem em seu favor, como a deputada Ângela Guadagnin, que enche a boca para falar em respeito às leis e no estrito cumprimento do regimento da Câmara para a condução do processo de degola do mais odiado político brasileiro dos últimos tempos.

Ora, beira a galhofa um petista falar de legalidade e cumprimento de regimentos legislativos, quando se sabe que nem mesmo com a criminosa compra de votos e apoio o Planalto conseguiu algo de positivo que patrocinasse uma tranqüilidade duradoura para os brasileiros e, principalmente, para os investidores estrangeiros.

De certa forma, não há no mundo, por mais louco e descontrolado que seja, um investidor que decida investir seu rico dinheirinho em uma nação que há séculos é, sabidamente, movida à corrupção.

Se pífias melhoras existiram, é porque o presidente Lula e sua entourage rouge conseguiram, por pouco tempo, ludibriar experimentados investidores internacionais, sob a promessa de que a moralidade tinha desembarcado nas paragens tupiniquins.

Os petistas acreditam que reconstruir o partido, como têm dito nos últimos meses, é insistir na tese de que todos os seus continuam impolutos e inatacáveis.

Não há como dissociar a figura de José Dirceu e o esquema virulento comandado por ele e operacionalizado por Delúbio Soares e Marcos Valério.

Apenas o Supremo Tribunal Federal, que teoricamente deveria agir como guardião da Constituição Federal, e, por conseguinte, como severo defensor dos brasileiros – do mais letrado ao maior dos analfabetos – consegue enxergar em José Dirceu uma reencarnação de um anjo pintado por um desvairado qualquer à época do “Novecento”, período que proporcionou aos italianos um afastamento do real.

Quando ousei escrever “Das falácias palacianas à cubanização do país”, em meados de 2003, muitos rotularam-me como louco, enquanto outros, de utópico ou coisa semelhante.

A verdade está aí, nua e crua – e vermelha desde janeiro de 2003 – mas não quero, nem mesmo de longe, achar que ter sido o escriba daquelas linhas foi um ato visionário ou algo nessa direção. Foi, sim, uma simples constatação da realidade, com um pouco de antecedência e nada mais.

Porém, o que mais preocupa é o futuro do Carreirinha, que agora, mesmo sendo de mentira e sabendo ler e escrever o próprio nome, vai não apenas acreditar que será impossível passá-lo para trás, mas transferiu uma dose de esperança aos milhões de brasileiros que, em iguais condições, por ele torceram durante toda a novela e que vão apostar na teoria de que deixar de ser analfabeto é uma garantia contra qualquer passa-moleque ofici

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