Opinião

Comércio Exterior
23/05/2005
Organização Mundial do Comércio
23/05/2005

CPI dos Correios

O carteiro, a incorreção política e o meretrício

Ucho Haddad

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, desanimar-se da justiça, e ter vergonha de ser honesto! [Ruy Barbosa]

Mesmo que o presidente Lula insista na conhecida e insana pirotecnia palaciana para anunciar seu messianismo barato, o Brasil, lamentavelmente, ainda continua sendo aquela velha e conhecida “republiqueta” terceiro-mundista, onde as nulidades impedem que o país se transforme em uma nação em desenvolvimento como muitos querem fazer acreditar.

Há quem aposte que esta é uma maneira pessimista de interpretar o Brasil e sua realidade atual, mas uma mera releitura do caos que aqui impera permite que o mais despreparado dos seres humanos conclua que na nossa “Terra Brasilis” ser desonesto é mesmo a melhor receita de sucesso, se é que desonestidade algum dia teve qualquer relação direta ou indireta com o triunfo.

É verdade que o conceito de honestidade, ou desonestidade, como queiram, é tão complexo quanto flexível, pois em um país como o Brasil vale a teoria de que a necessidade não tem limite. E não pode ter mesmo.

Erra quem pensa que, a exemplo do que tentam passar os filmes publicitários oficiais que entopem a televisão, todos financiados com o suor de um povo, chega a ser viável alcançar uma ínfima dignidade de vida com um salário mínimo cujo valor está muito aquém do mínimo necessário.

No contraponto de tese tão realista e verdadeira, políticos dos mais distintos matizes ideológicos se engalfinham para alcançar projeção e progresso, ao mesmo tempo em que seus patrimônios pessoais avançam assustadoramente.

Um dia, sabe-se lá por qual razão, alguém ousou dizer que democracia é a forma política onde o poder emana do povo, mas a realidade é bem mais distinta e dura.

Quando o escândalo de corrupção nos Correios veio à tona, o brasileiro experimentou, mais uma vez, o aflorar da perplexidade, quando a reação mais justa e necessária seria um levante para que pudéssemos, mesmo que modestamente, mudar a política nacional.

Por mais que pareça uma missão impossível, é a única saída que resta ao brasileiro para tentar escapar da perpetuação do caos através da política, o que está a míseros metros de distância da linha de chagada.

Em períodos eleitorais, o eleitor silencia diante de programas milionários recheados de truques “marqueteiros” e efeitos especiais, sem, em nenhum momento, se preocupar com quem está por trás financiando tamanha aberração, especialmente em um país que ainda permite que cidadãos genuinamente brasileiros durmam nas ruas, como se apátridas fossem.

Não é de hoje que o sonho de se eleger para qualquer mandato vem, a cada novo dia, se tornando um pesadelo que se agiganta, que só o deixa de ser quando o vil metal for tão incomensurável quanto o sonho.

Ou seja, com um pouco mais de clareza, a democracia, como acontece há séculos, será exercida por ditadores travestidos de Robin Hood, pois a necessidade cada vez maior de dinheiro faz com que ambições políticas sejam frutos dos interesses mais vorazes e desconhecidos possíveis.

Como a vida política nacional continuará sendo exercida por uma minoria que, se já não era privilegiada, acabou se privilegiando por conta daqueles que há muito o são, resta ao povo achar que o escândalo de corrupção nos Correios é algo que faz parte da rotina brasileira, ou, então, dar um grito de basta para tentar reverter uma situação quase irreversível.

Se para a sociedade, como citado anteriormente, o conceito de honestidade é absolutamente flexível e vulnerável, para o Estado, desonesto há muito, também o é.

O presidente Lula, que colocou sua matilha em ação para impedir a instalação da CPI dos Correios, age novamente como traidor, pois o discurso de seu governo sempre foi, como de fato ainda é e será, contra a perpetuação de algo tão nocivo e virulento quanto a corrupção.

Cair no conto do deputado Roberto Jefferson, que tomou a tribuna parlamentar para se fazer passar por anjo barroco renascentista, seria o mesmo que deflagrar um processo de canonização de pessoas que nem mesmo lúcifer os aceitaria em seus ardentes domínios, por mais que muito pagassem pela infernal hospedagem.

Ora, se a corrupção que vem dominando os Correios, como outras instituições governamentais, incomoda o Estado, a ponto de obrigá-lo a evitar a revelação da verdade, o mesmo deveria, sim, ensinar o cidadão a ser honesto, ou, quem sabe, o menos desonesto possível, pois políticos não são eternos e a política carece de renovação.

Muitas vezes somos levados a pensar que é difícil ser honesto em um Brasil de tantos desonestos, mas a solução está em uma falácia “luliana”: a geração contumaz de empregos.

Não é possível aceitar que um cidadão queira ser respeitado em sua comunidade por ser um fora da lei, mas certamente almejaria ser admirado por seu esforço, desde que o Estado permitisse que se esforçasse dignamente.

Pela existência de algum tipo de interesse podre no reino “planaltino”, o Estado não apenas abandona o cidadão, empurrando-o para o submundo do crime, como ensina-o a ser desonestamente honesto ou honestamente desonesto.

A ordem dos fatores não altera o produto, como garante o adágio popular, mas é certo que a irresponsabilidade estatal já ultrapassou os limites do bom senso.

Enquanto os carteiros, personificação da única fatia séria de um Estado irresponsável, caem no desprestígio por conta da ganância imunda de uma estrita minoria, a ira popular aumenta a cada novo escândalo de corrupção que surge, o que pode levar qualquer um a concluir que, exceto algumas raríssimas e honrosas exceções, o parlamento brasileiro mais parece uma daquelas movimentadas avenidas de cidades grandes, onde a prostituição impera à luz do dia e sob o nariz das autoridades.

Na política, a verossimilhança chega a ser assustadora, pois nos corredores do poder o que mais se presencia é um escandaloso “trotoir” político, onde corruptores pagam verdadeiras fortunas pelos serviços dos corruptos, prostituindo quase que definitivamente a classe que supostamente deveria representar o povo.

Mas nada de ṭo s̩rio pode-se esperar de um governo que, ao deixar de cumprir a promessa de criar dez milh̵es de novos postos de trabalho, permite que o Minist̩rio do Trabalho Рonde o assunto deveria estar sendo amplamente discutido Рdedique-se ao ensino virtual de como ser prostituta. Sim, ̩ exatamente isso. Como ser prostituta.

Para desespero de muitos, a página eletrônica do Ministério do Trabalho traz uma extensa classificação das profissões, sendo que a prostituição, que merece enorme espaço, é tida como algo normal e corriqueiro, enquanto as que dela sobrevivem agora são chamadas de profissionais do sexo.

Chega a ser desanimador pensar que a política é mais uma invencionice que tropeçou na esparrela do mercantilismo puro e simples, pois os que se elegem sempre o fazem com o voto do povo, para defender aqueles que os financiaram. Em outras palavras, ser eleitor é assumir um papel que poucos, mesmo que por brincadeira, gostariam de viver: a de ser um explícito pateta.

Não há um só dia que não se tenha notícia de um novo escândalo, como se a lama imunda e fétida da corrupção fizesse parte do cardápio do cotidiano.

Esbanjando uma hipocrisia sem precedentes, a sociedade, como um todo, prostra-se diante de algo que, com toda certeza, exige uma reação imediata e definitiva, mas, diferentemente da lógica usual, o brasileiro deve ir se acostumando com a idéia de que conviver com a corrupção parece ser algo tão bom e fácil quanto para aqueles que diuturnamente a produzem em série.

Por outro lado, se a esperança do brasileiro, aquela que o medo continua vencendo, esteve, um dia, em cravar o voto nas mães, pois nos políticos todos já perceberam que pouco adianta, agora, nem mesmo aquela velha e certe

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