Brasília, 08 de dezembro de 2019 - 20h05
O comércio de equipamentos militares obsoletos na América Latina

O comércio de equipamentos militares obsoletos na América Latina

10 de outubro de 2019 - 09:40:57
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Marcelo Rech

Os Estados Unidos consideram a América Latina um dos destinos preferenciais para desovar a enorme quantidade de equipamentos militares obsoletos. Neste momento, o alvo é a Argentina. Recentemente, o chefe do Estado-Maior da Força Aérea argentina, general Enrique Víctor Amrein, acertou a compra de 12 aeronaves T-6C Texcan II, fabricados pela norte-americana Beechcraft.

A decisão gerou muitas controvérsias, pois a Argentina já havia firmado com o Brasil, um acordo para a aquisição do Super Tucano em condições muito mais favoráveis. A Argentina pagou US$ 160 milhões pelos aviões norte-americanos. Os Estados Unidos têm cerca de 900 destas aeronaves e trabalham para livrar-se delas mirando os países latino-americanos.

Em junho, o ministro da Defesa da Argentina, Oscar Aguad, recebeu o chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, almirante Craig Faller. Além de conversarem sobre temas regionais como a crise na Venezuela ou o fortalecimento da presença chinesa nas américas, também trataram de comércio.

Por exemplo, os Estados Unidos pretendem entregar 42 veículos especiais, usados, para o Exército argentino. Seriam 20 caminhões e 22 Humvee 4X4, fabricados na década de 1980. As negociações estão em curso e são excelentes para Washington: se livram dos equipamentos velhos e ultrapassados e ainda fazem um bom caixa.

Importante recordar que as relações entre a Argentina e os Estados Unidos estagnaram à época dos governos de Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015). Em 2011, a cooperação e os exercícios militares foram suspensos por conta de um incidente com a carga de um avião militar norte-americano que transportava equipamentos para capacitação das forças militares argentinas no combate ao narcotráfico.

Agora, os Estados Unidos percebem a Argentina como um mercado promissor também na área da Defesa. Mais ainda: em crise econômica, o país não tem condições de adquirir as mais avançadas tecnologias, o que é excelente para quem tem pátios inteiros abarrotados de material obsoleto. Obsoleto para uma grande potência, claro!

De acordo com o Instituto de Pesquisa da Paz Internacional de Estocolmo (SIPRI), os Estados Unidos continuam liderando o comércio internacional de armamento militar pesado. Apenas entre 2014 e 2018, Washington respondeu por 36% das exportações de material bélico globais. Os principais mercados são países ricos como a Arábia Saudita, por exemplo.

Por isso, a América Latina fica como uma espécie de segunda divisão do comércio de armamento militar. Dos 33 países da região, apenas Brasil e Argentina possuem indústrias de defesa. O restante, concentra seus esforços nos acordos de cooperação, caso da Colômbia que tem Forças Armadas modernas graças ao alinhamento com os Estados Unidos. Quem não tem esse nível de relacionamento, acaba ficando com as sobras.

No entanto, as sobras também custam. E custam caro para países que têm pouquíssimas condições de investimento. Mas, para os Estados Unidos, isso pouco importa.

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org