Opinião

Economia
14/10/2016
Defesa
17/10/2016

Política

O Esporte como desafio geopolítico internacional

Marcelo Rech

Há décadas que o Esporte deixou de ser apenas um entretenimento transformando-se em um negócio altamente lucrativo. No entanto, também continua sendo um grande desafio geopolítico internacional ainda que o grande público não atente para essa vertente.

Já se passaram quase dois meses dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, mas uma questão tão esportiva quanto política continua incomodando. A Rússia esteve muito próxima de ser banida dos jogos por conta das denúncias de doping de seus atletas. No último minuto, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu liberar o país e punir apenas os atletas.

Nesta quinta-feira, 13, a Corte Arbitral do Esporte (CAS), decidiu punir quatro atletas russos da marcha atlética por quatro anos. No mesmo dia, o presidente do Comitê Olímpico Russo, Alexander Zhukov, renunciou ao cargo. Ao que parece, a comunidade internacional está disposta a frear definitivamente o uso de drogas ilícitas por esportistas, mas não é bem assim.

Nomes de expressão do esporte internacional, flagrados pelo doping, não tiveram o mesmo tratamento. O grupo de hackers autodenominado Fancy Bears, por exemplo, filtrou uma série de documentos que revelam o uso de medicamentos proibidos por medalhistas em várias competições mediante o consentimento da contestada Agência Mundial Antidoping (WADA, em suas siglas em inglês).

De acordo com o Fancy Bears, pelo menos 127 atletas receberam autorização da WADA para o uso de substâncias ilícitas. São os casos dos tenistas Rafael Nadal, da Espanha; Petra Kvitova, da República Checa, e das irmãs Vênus e Serena Williams, dos Estados Unidos.

O que se questiona não é a punição dos russos, mas a ausência dela para os demais. As denúncias revelam uma profunda crise no sistema mundial de controle de doping e reforçam os já existentes apelos da comunidade esportiva internacional a favor da substituição da WADA por uma nova estrutura antidoping.

A agência se defende. Os atletas autorizados pela WADA ao uso de drogas proibidas teriam sido beneficiados por razões médicas. Eles teriam apresentado atestados de doenças graves para obterem a licença que para a maioria dos atletas é negada.

Entre os medicamentos autorizados para os atletas citados e outros, estão remédios muito potentes, comparados por especialistas como drogas ilícitas. Ocorre que as denúncias trazidas à tona não produziram qualquer ressonância, inclusive nos Estados Unidos onde os controles são extremamente rigorosos.

Cabe questionar ainda as razões pelas quais os nomes de atletas de outros países não foram revelados antes do início dos Jogos Olímpicos e o porquê do segredo mantido pela WADA. A exemplo do que acontece no mundo político, os envolvidos trataram apenas de desqualificar as denúncias.

Os ataques foram contra os mensageiros, não contra a mensagem. Sobre as denúncias, silêncio obsequioso. Enquanto os meios de comunicação tratavam de massacrar a Rússia e seus atletas, nenhuma linha a respeito dos demais. Dois pesos e duas medidas, sem dúvida.

Em resumo, as denúncias contra os atletas russos se basearam em um documentário de um canal alemão. Não houve qualquer preocupação em aprofundar as investigações e punir com justiça os implicados. Menos ainda, de se ampliar essas investigações para algo mais completo.

O papel da WADA vem sendo questionado há vários anos. Presidentes de federações esportivas internacionais como de hóquei e natação, por exemplo, já declararam publicamente a falsificação de relatórios da agência. Os Estados Unidos teriam sido decisivos nas pressões sobre a agência para que a Rússia fosse exemplarmente punida, mas também teria impedido que seus atletas fossem questionados.

Como trata-se do país que mais aporta recursos para a WADA, os Estados Unidos decidiram transformar a denúncia em uma disputa geopolítica. Importante destacar ainda que o presidente da agência é eleito pelos governos que a financiam, razão pela qual é temerário imaginar qualquer possibilidade de mudanças estruturais no sistema internacional de doping, mais ainda na dissolução de uma entidade totalmente desacreditada.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *