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Diplomacia

O fiasco da UNASUL, o Paraguai e os dois pesos e as duas medidas

Marcelo Rech

Há um mês a Venezuela está mergulhada numa crise política que resulta da grave situação econômica, mas o governo de Nicolás Maduro insiste em utilizar os velhos chavões do capitalismo contra o socialismo para manter-se no poder. Um poder político que está podre e corroído pela corrupção que envolve também as Forças Armadas do país.

Com quase 30 mortos e mais de 1,5 mil pessoas presas, os países da UNASUL decidiram abraçar a causa do governo venezuelano. Isolaram a Organização dos Estados Americanos (OEA) e se reuniram em Santiago após a posse da socialista Michele Bachelet para mostrar que “nós resolvemos os nossos problemas”.

É fato que a OEA não serve para muita coisa há muitos anos, mas se estes países seguem aí, deveriam fazê-la funcionar. Se a OEA é a porcaria que dizem ser, são os seus membros também responsáveis por isso. Se a organização não faz o que deveria e como deveria, nada justifica manterem suas missões permanentes que custam muito caro aos respectivos contribuintes. Que tenham a coragem de a abandonarem e o façam com decência.

Se o foro legítimo é a UNASUL, que a mesma seja fortalecida. Que os aspectos ideológicos sejam postos de lado e os seus membros logrem eleger um (a) Secretário (a) Geral para conduzir as mediações. Há mais de um ano a UNASUL está sem esta pessoa, sem liderança e desgovernada em todos os sentidos.

O que é inaceitável sob todos os pontos de vista é a tolerância vergonhosa com os desmandos e o autoritarismo do governo venezuelano. Mais inexplicável ainda, criar uma Comissão para em abril – porque apenas em abril? – reunir as forças políticas do país e construir um diálogo de paz.

A crise venezuelana é urgente e cobra medidas urgentes. Quantos mais terão de morrer nas mãos das milícias armadas pelo governo? Quantos mais perecerão nas prisões de uma ditadura maquiada como esta? Melhor seria se os chanceleres não tivessem decidido nada.

Armar o circo para anunciar que em 15 ou 20 dias, irão dar um pulo na Venezuela para ver o que se passa é de uma estupidez ridícula. Tanto quanto endossar uma nota do Mercosul redigida pela Venezuela.

É fato que há uma extrema-direita atuante naquele país, mas daí a ser conivente com um governo corrupto, inábil e totalitário é demais. E as digitais do Brasil estão impressas neste arcabouço de equívocos.

Lamentavelmente, o Brasil faz vistas grossas para uma situação que cobra liderança e energia.
Interessante observar que em junho de 2012, quando o Congresso paraguaio destituiu no voto o então presidente Fernando Lugo, aquele país foi imediatamente suspenso do Mercosul e da UNASUL.

Não faltou ministro para condenar o “golpe de Estado” no Paraguai. Não houve golpe de Estado, houve preconceito e oportunismo. O Paraguai foi suspenso porque demitiram sumariamente um presidente incompetente de esquerda. Fosse um presidente incompetente de direita, o Paraguai teria sido glorificado.

Registre-se: nenhuma manifestação aconteceu, nem antes e nem depois. Não houve feridos e menos ainda, mortos. No dia seguinte à destituição de Lugo, tudo no Paraguai funcionava, inclusive o governo.

Por mais absurda que seja a Constituição do Paraguai, ela foi seguida e o bonachão que quando bispo católico se aproveitava das moças inocentes, foi afastado e substituído não por uma Junta Militar, mas pelo vice-presidente eleito.

Comparemos o caso paraguaio com o venezuelano e o comportamento dos países. Estes casos mostram como nosso futuro é sombrio.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org

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