Opinião

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O fim de Assad

O fim de Assad

Alexandre Reis Rodrigues

Na crise síria não é apenas o possível, melhor dizendo, o provável desmoronar do regime que está em jogo; é também o precário equilíbrio geoestratégico em que a região vive.

Qualquer que seja o desfecho da crise, esse equilíbrio vai alterar-se; só não se sabe em que sentido, porque há várias saídas possíveis.

Em face da desagregação da base de apoio de Assad, agora iniciada com a deserção de algumas figuras de relevo (diplomatas, militares e políticos), uma mudança completa de regime tornou-se plausível, embora continue a não ser certa.

Também não se sabe se a saída da situação virá a ser favorável ao Ocidente e um passo seguro para a democracia, mesmo que Assad acabe por cair. A única coisa certa é que a situação geral no país e na região se tornará mais complexa e difícil de gerir.

Há um fundado receio de que a guerra civil em que o país caiu – situação reconhecida pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha – não termine com a deposição de Assad, o atual objetivo principal da oposição.

Pode, muito facilmente, prolongar-se entre os setores mais radicais e religiosos extremistas da oposição síria, com cada vez mais protagonismo na condução da luta armada, e os moderados que desejam uma saída de natureza secular.

Uma vez caído o regime de Assad, pode também haver a tentação de dissolver todas as instituições existentes, o que inviabilizaria um processo minimamente ordeiro de transição. Sabe-se bem como será difícil depois recolher todas as armas distribuídas às milícias e grupos rebeldes.

O que quer que aconteça não vai permanecer confinado às fronteiras sírias.

Os vizinhos começam a posicionarem-se de modo a salvaguardar os seus interesses elementares de segurança e a não deixar de tirar todo o partido possível das mudanças que podem estar próximas.

Alguns desses interesses, muito provavelmente, entrarão em rota de colisão.

A preferência da Turquia em ver surgir uma solução protagonizada pela Irmandade Muçulmana vai colidir com o interesse saudita em limitar a ascendência que esta tem conseguido, nomeadamente no Egito.

Teerã, se concluir que não consegue salvar Assad pode optar por fomentar uma insurreição prolongada, para evitar a tomada do poder pelos sunitas.

Se o Irã não tiver sucesso na atual estratégia de procura de hegemonia regional, o que depende da manutenção de Assad no poder, então o Iraque poderá recalcular o interesse em manter o atual relacionamento estreito com Teerã.

Ancara receia que a situação no norte da Síria venha trazer instabilidade fronteiriça. Acaba de deslocar para a província de Kilis, um novo contingente militar, incluindo blindados e baterias de mísseis, aparentemente como resposta ao fato de os rebeldes terem passado a controlar o “check-point” de Anadan, a noroeste de Aleppo, o que lhes dá liberdade de movimentação entre esta cidade e a fronteira turca.

O fato da minoria curda na Síria estar a controlar algumas cidades do norte, aliás, com o apoio de Assad, levanta receios de possíveis futuras ligações com o Kurdistan Working Party.

Mesmo sendo perfeitamente claro que não haverá qualquer intervenção militar externa, a Rússia continua a insistir em mostrar-se em frontal oposição a essa possibilidade.

Moscou persiste nessa ideia não porque ache necessário, mas para tirar partido dessa postura, aparecendo aos olhos sírios como o grande desencorajador de qualquer aventura ocidental em território sírio para forçar uma solução rápida da crise.

No entanto, percebendo que Assad pode não se aguentar muito mais tempo, Moscou vai adaptando a postura ao interesse estratégico de não perder as facilidades que tem no porto de Tartus, aliás, o único ponto de apoio logístico da marinha russa no Mediterrâneo (atualmente, também importante para apoio das unidades navais empenhadas no combate à pirataria no Golfo de Áden e Índico).

Precisa preservar também a posição privilegiada de principal fornecedor de armamento (78%) e garante da respetiva logística, o que implica deixar campo aberto para entendimento com as forças políticas que passarão a controlar o país.

Procura, por isso, demarcar-se do futuro de Assad tentando, sobretudo, evitar a imagem de protetor de uma ditadura que lançou o país numa feroz guerra civil. É uma pretensão quase impossível de conseguir.

Para os Estados Unidos há também muito em jogo.

Se o regime sírio cair, então o presidente Obama verá consagrada a sua opção de substituir a estratégia de contra insurreição usada na década anterior, através de campanhas terrestres, sempre prolongadas, por formas subtis de influenciar os acontecimentos que não implicam o envolvimento em confrontos diretos.

Washington verá Moscou e Pequim registarem um importante revés político-diplomático e Teerã sofrer um malogro na sua aspiração de liderança regional.

Mas o assunto não se encerrará com a queda do regime de Assad. Pode até exigir um maior envolvimento internacional a partir daí.

Alexandre Reis Rodrigues é vice-almirante reformado da Marinha de Portugal e Secretário-Geral da Comissão Portuguesa do Atlântico. Foi vice-chefe do Estado-Maior da Armada e é membro do Conselho Consultivo da Revista RI – Relações Internacionais; do Conselho Editorial da Revista Segurança e Defesa, membro do Conselho Geral do IEEI e do Conselho Científico do Centro de Investigação de Segurança e Defesa do IESM. E-mail: reisrodrigues@netcabo.pt

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