Brasília, 18 de novembro de 2018 - 13h34

O Fogo e o Barril de Pólvora

10 de fevereiro de 2011
por: InfoRel
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Joanisval Brito Gonçalves



 



Exatamente duas décadas após a queda dos regimes autoritários do Leste Europeu (iniciada em 1989) e da desintegração da União Soviética (1991), os governos de países islâmicos da África do Norte e do Oriente Médio entram em crise.



 



Assim como aconteceu nos Estados socialistas, mudanças são reclamadas pelas multidões, em clara demonstração do poder popular.



 



E também do mesmo modo como aconteceu há vinte anos com seus colegas do Politiburo, os líderes do mundo muçulmano parecem não saber como tratar com essa coisa estranha que é o clamor popular.



 



Os ventos de mudanças que começaram a soprar do Ocidente do Mundo Árabe, a partir da Tunísia, e foram até o distante Iêmen, convergiram para a principal potência árabe da região, o Egito.



 



Hosni Mubarak, que preside o país desde a morte de Anuar Saddat, em 1981, é pressionado a deixar o poder e, à media que perde o apoio de aliados domésticos e internacionais, também vê esvaindo-se o controle da situação. As próximas semanas prometem.



 



Diante desse quadro, algumas questões devem ser consideradas. Primeiramente, a queda de Mubarak se dará de maneira pacífica ou o Egito terá que passar por uma guerra civil em meio à crise?



 



Quais seriam os efeitos de uma guerra civil em um país tão importante em termos políticos e econômicos para a região?



 



A estabilidade alcançada pelo braço forte do líder egípcio, apoiado pelo poder militar e por grandes potências vê-se ameaçada.



 



Outra pergunta que logo se destaca relaciona-se ao Egito pós-Mubarak.



 



Duas são as alternativas para o país: ou caminhará para uma democracia no estilo ocidental (a exemplo da Turquia, laica por sinal) ou poderá sucumbir a um governo fundamentalista islâmico nos moldes iranianos (com a diferença cabal de se tratarem de radicais sunitas e não xiitas no poder), o que seria um dos piores cenários.



 



Independentemente de qual dessas possibilidades venha a ocorrer, a certeza é de que o novo modelo político influenciará outras nações árabes.



 



Uma terceira ponderação é que a instabilidade egípcia afetará também o delicado equilíbrio de poder na região.



 



Afinal, os israelenses devem estar bastante atentos e preocupados com a situação no Cairo.



 



A queda de Mubarak pode representar não só a perda de um importante aliado, mas também o risco de ascensão de um antagonista de peso. E Israel pode-se ver cercado por forças hostis: o Hezbollah ao Norte, a Síria a Nordeste, o Irã mais a Leste e um Egito antagônico ao Sul.



 



Essa situação, associada a uma revolta palestina nos territórios ocupados e ao enfraquecimento do regime da Jordânia (o outro país árabe com o qual Tel Aviv mantém relações), certamente significará o aumento da tensão no Oriente Médio, com possibilidades reais da retomada do conflito árabe-israelense. Israel, portanto, encontra-se em estado de alerta.



 



A última pergunta nesta breve análise relaciona-se ao papel das grandes potências, em especial das nações européias e dos Estados Unidos de Obama.



 



O que farão as democracias ocidentais diante de protestos por mais democracia em regimes que, apesar de taxados de autoritários, se não contaram diretamente com o apoio daquelas potências ao menos existem há anos com sua aquiescência?



 



É possível às nações protagonistas do cenário internacional permanecerem alheias ao que acontece no Mundo Islâmico? Quais as consequências dessa aparente relutância?



 



Certamente, as próximas semanas serão fundamentais para o destino do Oriente Médio e para a estabilidade na região. E é bom lembrar que instabilidade ali repercute automaticamente no resto do mundo.



 



Difícil qualquer prognóstico sobre o que acontecerá naquelas terras. A única certeza é que o fogo se aproxima do barril de pólvora.



 



Joanisval Brito Gonçalves é Consultor Legislativo do Senado Federal para Relações Exteriores e Defesa Nacional e Consultor da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso Nacional (CCAI). Doutor em Relações Internacionais, professor e conferencista, tem publicações no Brasil e no exterior na área, com destaque para os livros Atividade de Inteligência e Legislação Correlata (Niterói: Impetus, 2009), Políticos e Espiões: o controle da Atividade de Inteligência (Niterói: Impetus, 2010), Tribunal de Nuremberg, 1945-1946 – A Gênese de uma Nova Ordem no Direito Internacional (Rio de Janeiro: Renovar, 2ª edição, 2004) e Relações Internacionais: Teoria e História (Brasília: Senado Federal, 2009). Os conceitos e opiniões aqui emitidos são exclusivamente do autor e não refletem necessariamente as posições de entidades às quais esteja eventualmente vinculado. E-mail para contato: joanisval@gmail.com. Website: www.joanisval.com.

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