Opinião

Encontro
17/02/2016
Defesa
19/02/2016

Conflitos Armados

O instável ano de 2016

Giovanni Hideki Chinaglia Okado

Mal começou o ano de 2016 e as tensões no campo da segurança internacional animaram o mundo. Velhas rivalidades empurram cada vez mais a política mundial para o conflito. Não no sentido, propriamente, de uma Terceira Guerra Mundial, e sim de uma lógica conflituosa que pode se consolidar na política mundial. A instabilidade internacional adquire forma e conteúdo cada vez mais preocupantes para as lideranças mundiais.

O recém-publicado relatório das agências de inteligência norte-americanas, intitulado Worldwidethreatassessmentofthe US intelligencecommunity, reforça essa percepção. A palavra mais utilizada para se referir a diversos eventos é a instabilidade, desde ameaças globais, como cibernéticas e tecnológicas, terroristas, etc., a ameaças regionais, sobretudo no Oriente Médio e Norte da África. Novamente, esses eventos instáveis estão relacionados diretamente com conflitos armados em 2016, não necessária ou exclusivamente interestatal. Outra questão é que, em geral, não se trata de conflitos novos, e sim da intensificação daqueles que já estão em curso.

Há algumas publicações anuais, normalmente lançadas entre as últimas semanas de dezembro e as primeiras de janeiro, que apresentam riscos e ameaças que tendem a impactar durante um ano. Um breve exercício comparativo entre três dessas publicações – o Global Risks 2016, do World Economic Forum, o 10 Conflicts do Watch in 2016, da Foreign Policy e o Top 10 Risks to the World in 2016, da Time– possibilita considerações que merecem ser avaliadas com cautela.

Um conflito interestatal com consequências regionais foi considerado, no Global Risks 2016, um dos cinco riscos globais em termos de probabilidade de ocorrência. A revista Foreign Policy foi categórica ao destacar que é a lógica de conflito, não de paz, que prevalece no momento atual.  Comparando os dez conflitos enumerados por essa revista com os riscos levantados pela revista Time, o epicentro da instabilidade está no Oriente Médio e na África Subsaariana. Mais no primeiro, na verdade, do que no segundo, materializando-se em cinco países: Síria, Iraque, Turquia, Arábia Saudita e Irã. O agravante a essa situação é a perspectiva de intervenção militar estrangeira e o entrechoque entre grandes potências militares na região. A dúvida que surge de imediato é: caso o risco se concretize, esse conflito seria entre quem?

Não faltam motivações nem combinações para isso. Um exemplo é a Turquia, que declarou a intenção de aumentar as ações militares na Síria, rivalizando-se com a Rússia, com quem também se envolveu em um incidente diplomático após a derrubada do avião russo Su-24 por um caça turco. E a Turquia não está sozinha nesta possível empreitada, a Arábia Saudita também tende a participar. O governo saudita enfrenta, no entanto, um desafio adicional: o Irã. As relações entre os dois países estão em uma fase crítica após a execução do clérigo saudita e xiita Nimr Al-Nimr, em dezembro de 2015, com incidentes diplomáticos de ambos os lados: o incêndio da embaixada saudita em Teerã e a expulsão de diplomatas iranianos de Riad. Conquanto esses incidentes remontem um histórico de tensões, eles ocorreram em um contexto preocupante, pois Irã e Turquia já vem travando uma guerra por procuração desde 2012, inicialmente na Síria e, a partir de 2015, também no Iêmen.

No caso do Oriente Médio, está em jogo um possível confronto direto entre grandes potências militares. De um lado, os Estados Unidos/Europa, ou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com Turquia e Arábia Saudita; do outro, a Rússia, com o Irã. O problema é que ambos os lados já enfrentam desafios similares, ainda que menos intensos. Um deles é a Ucrânia, com a perspectiva, também, de um entrechoque direto entre grandes potências militares. Essa possibilidade foi menos enfatizada nos levantamentos de riscos e ameaças deste ano.

Já o outro desafio foi identificado como um dos principais riscos globais de 2016: as armas de destruição em massa. Não obstante a referência genérica do World Economic Forum a esse risco, um evento disparou o alerta para a sua localidade: a Ásia Pacífico. O governo norte-coreano anunciou o completo êxito de um teste nuclear com uma bomba de hidrogênio. A veracidade da notícia não foi confirmada, mas a comunidade internacional reagiu de imediato, condenando o ato, e as relações com a Coreia do Sul atingiram – mais uma vez – o Complexo Industrial de Kaesong, marco da cooperação e “pacificação” entre os dois países. O governo norte-coreano informou, na semana passada, que vai expulsar todos os sul-coreanos do complexo, depois da decisão da Coreia do Sul de suspender as operações no local.

Ainda que seja uma possibilidade menor do que a intensificação de um conflito no Oriente Médio, envolvendo diretamente grandes potências militares, o principal ponto a ser observado é que a região da Ásia Pacífico está se convertendo no centro da economia mundial. A principal inquietação, neste caso, é o comportamento da China na eventualidade de um conflito armado entre as Coreias, com o apoio ou envolvimento direto de potências ocidentais. O governo chinês reagiria em favor de seu aliado histórico ou se absteria de participar? Se a China não apoiar a Coreia do Norte, Pyongyang apelaria para uma manobra nuclear suicida? Se sim, seria possível prever quais efeitos isso causaria na Ásia Pacífico, em particular, e no mundo, como um todo?

As possibilidades desses conflitos se materializarem ou se intensificarem em 2016, e, portanto, a instabilidade imanente do atual ano, devem ser compreendidas à luz de um processo que está se consolidando recentemente. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, nunca o número de conflitos intraestatais internacionalizados estiveram tão elevados. A partir de 2007, constata-se um crescimento praticamente constante desse tipo de conflito, chegando a treze deles no final de 2014. Trata-se de conflitos que se originaram no interior de determinado país, travados por atores estatais e/ou não-estatais, que transbordaram para outras localidades e passaram a contar com o envolvimento de outros países.

Os eventos identificados anteriormente, já marcados por velhas rivalidades, atribuem nomes a esses países. A pior combinação que pode resultar é a ocorrência/intensificação de dois conflitos simultâneos, em duas regiões distintas e centrais na geopolítica mundial, envolvendo diretamente grandes potências militares. E, como consequência ainda mais drástica desta combinação, o retorno do conflito armado interestatal na política mundial, invertendo um dos principais processos ocorridos no decorrer do século XX. Este instável ano de 2016 deve ser acompanhado com muita atenção.

Giovanni Hideki Chinaglia Okado é professor Assistente de Relações Internacionais da PUC-Goiás: E-mail: giovanni.okado@gmail.com.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *